
Postado por ARIEVALDO VIANA em 28/05/2008 15:19
ENTREVISTA DIARIO DE PERNAMBUCO - PARTE 3
5) Como se dava o processo de impressão e distribuição dos cordéis durante o período de atuação de Leandro? O processo era muito diferente da realidade atual?
ARIEVALDO – Não era muito diferente não. As dificuldades eram maiores e os poetas-editores tinham que ser muito criativos. Eles aproveitavam os momentos ociosos das tipografias dos grandes jornais ou mesmo das pequenas oficinas e rodavam o seu material. Leandro publicava com muita freqüência. Criava um título novo toda semana, segundo me informou o poeta Paulo Nunes Batista, filho do editor Francisco das Chagas Batista, duas vezes compadre de Leandro (Leandro era padrinho de Pedro Werta Batista e Chagas era padrinho de Julieta de Barros Lima). A ilustração da capa também era um problema. Nesse tempo só havia vinhetas e clichês de zinco ou de chumbo. A xilogravura só foi aparecer em 1907, num folheto que Chagas Batista fez sobre a vida do cangaceiro Antônio Silvino. Leandro chegou a usar o desenho em algumas capas (Pedro Cem, Branca de Neve e o Soldado Guerreiro, Cancão de Fogo etc). Eram desenhos que se assemelhavam com o cartum, feitos sob encomenda por ilustradores dos jornais. Um deles foi o mestre Avelino, que fez muitas capas para João Martins de Athayde. Num determinado período, provavelmente entre 1907 e 1913, Leandro chegou a possuir um prelo e criou a Typografia Perseverança, mas acabou desfazendo-se de sua máquina porque os filhos pequenos não demonstravam aptidão para o ofício de tipógrafo. Era uma pequena indústria familiar. Ele tinha que viajar, para visitar seus agentes, fechar negócios, fazer a venda direta nas feiras, por isso não tinha tempo de tocar a tipografia. Mas ele era uma pessoa antenada com o progresso. Chegou a usar clichês com fotografia, como se vê nos folhetos “A Guerra da Europa” e “Antônio Silvino no Júri”. Se vivesse nos dias atuais, estaria utilizando computador e impressora laser, com certeza.
6) Quais eram os temas mais recorrentes na obra de Leandro? Em termos de temática e de técnica, ele seguiu uma trajetória sem grandes alterações ou, pelo contrário, observamos guinadas surpreendentes ao longo de sua vida?
ARIEVALDO - Leandro apostava mais em três vertentes: a) - o cordel factual ou folheto-reportagem, onde ele abordava assuntos do cotidiano, desastres, guerras, fatos da política e do cangaço; b) - a sátira, onde ele malhava com refinada ironia os vícios de alguns membros da igreja católica, os nova-seitas (protestantes), os políticos e os charlatões em geral, como se vê nos folhetos Bento, o Milagroso de Beberibe e O Homem que come vidro. A sogra e a mulher são dois temas muito freqüentes e a cachaça um verdadeiro fetiche. c) - Ele enveredava-se também pelo romanceiro, contos de fada e lendas tradicionais, tendo adaptado até mesmo contos d’As Mil e Uma Noites. Ele também aceitava sugestões de seus leitores, como no caso do folheto O Marco Brasileiro. Também criou muitas pelejas com cantadores reais ou fictícios, para atender os amantes da cantoria. Ele foi um criador de tipos marcantes, como é o caso do Cancão de Fogo, um personagem pícaro com nuances auto-biográficas e também destacou-se escrevendo os romances de exemplo, com forte cunho moral, como A Órfã, História de Pedro Cem e A Vida de João da Cruz.
Continua...
Comentários (0):