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ACORDA CORDEL

Postado por ARIEVALDO VIANA em 17/10/2009 09:35

Os "milagres" de BENTO DE BEBERIBE e o enterro da MEDICINA
Por: ARIEVALDO VIANA (Poeta popular e folclorista)





Em 1912 Leandro Gomes de Barros lançou o folheto “Bento, o milagroso de Beberibe”. O endereço do poeta continua sendo a Rua do Alecrim 38-E, onde funcionou a primeira gráfica especializada em cordel, a Typografia Perseverança. Esta é uma fase muito produtiva na obra de Leandro, levando-se em conta a grande quantidade de poemas onde consta esse endereço.

Bento é um dos tipos populares do Recife antigo biografados por Eustórgio Vanderley. Usando água mineral de um poço que havia nas imediações de sua residência passa a obrar “milagres” atraindo uma grande massa de doentes, fanáticos e curiosos. O poeta, irônico e irreverente não se deixar levar por essa conversa e satiriza as “curas milagrosas” desta maneira:



Pernambuco é um Estado

Aonde tudo se apóia

E quase todos os anos

Vem de novo uma pinóia

Este ano, em Beberibe,

Milagre já está de bóia.



(...)



Com almas de dez caboclos

E um frasco d’água fria

Cura erisipelas, lasthma (sic)

Reumatismo e anemia,

Dor de cabeça, enxaqueca,

Bexiga e dispepsia.



O curandeiro, que dizia servir-se apenas da água milagrosa da fonte e dos conselhos de alguns “caboclos” (almas de índios já falecidos) foi alvo de muitas reportagens, inclusive na revista A Cigarra, com imagens feitas pelo fotógrafo francês Pierre Verger*. Existe outro poema sobre o Milagroso de Beberibe, escrito pelo poeta Francisco das Chagas Batista.



Trechos do poema de Chagas Batista, posterior ao de Leandro:


Srs. no século vinte,

Tudo nós temos de ver:

Os progressos da sciencia

São tantos, que fazem crer

Que não se esgota o invento;

Pois temos agora um Bento

Que nos livra de morrer!!



Não quero dizer com isso,

Que êle nos faça imortal,

Apenas digo e afirmo

Que a todo e qualquer mal;

Com água fria êle cura;

E se um doente o procura

Não gasta nem um real!



(...)



O General Dantas Barreto

Tinha uma filha doente,

Que todo o recurso medico

Foi p’ra cural-a impotente.

Com um frasco d’agua do Bento

Tem saude atualmente !


Os medicos de Pernambuco

Estão procurando um meio

De processarem de Bento;

- Dizem que êle de permeio,

Meteu-se na medicina,

E que, trazer a ruina

A’ mais de cem medicos veio.



Depois que Bento chegou

Medico não viu mais dinheiro:

As coisas ficaram prêtas,

O cobre ficou vasqueiro...

Ninguem mais se receitou

Farmacia a porta feixou;

Porque Bento é verdadeiro.



(...)



Nos hospitaes do Recife

Não entrou mais um doente

Porque se adoéce alguem,

Bento cura de repente

Seja a doença qual for,

E’ despensado o doutor

Só Bento é sufficiente.



(Chagas Batista, 1913).



* A Cigarra abria espaço para mostrar aspectos regionais do Brasil, priorizando narrativas visuais.Nessa edição, destaca-se uma reportagem sobre um culto religioso em Recife demonstra o interesse de Pierre Verger por essas manifestações culturais. "Adoradores de astros da várzea do Recife", mostra o culto a um homem chamado Bento Milagroso, ou Bento do Beberibe. Uma das fotos indica uma ovelha designada para o sacrifício, não exposta nas fotografias de Verger. (Fonte: http://fotosite.terra.com.br)



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