Os "milagres" de BENTO DE BEBERIBE e o enterro da MEDICINA Por: ARIEVALDO VIANA (Poeta popular e folclorista)
Em 1912 Leandro Gomes de Barros lançou o folheto “Bento, o milagroso de Beberibe”. O endereço do poeta continua sendo a Rua do Alecrim 38-E, onde funcionou a primeira gráfica especializada em cordel, a Typografia Perseverança. Esta é uma fase muito produtiva na obra de Leandro, levando-se em conta a grande quantidade de poemas onde consta esse endereço.
Bento é um dos tipos populares do Recife antigo biografados por Eustórgio Vanderley. Usando água mineral de um poço que havia nas imediações de sua residência passa a obrar “milagres” atraindo uma grande massa de doentes, fanáticos e curiosos. O poeta, irônico e irreverente não se deixar levar por essa conversa e satiriza as “curas milagrosas” desta maneira:
Pernambuco é um Estado
Aonde tudo se apóia
E quase todos os anos
Vem de novo uma pinóia
Este ano, em Beberibe,
Milagre já está de bóia.
(...)
Com almas de dez caboclos
E um frasco d’água fria
Cura erisipelas, lasthma (sic)
Reumatismo e anemia,
Dor de cabeça, enxaqueca,
Bexiga e dispepsia.
O curandeiro, que dizia servir-se apenas da água milagrosa da fonte e dos conselhos de alguns “caboclos” (almas de índios já falecidos) foi alvo de muitas reportagens, inclusive na revista A Cigarra, com imagens feitas pelo fotógrafo francês Pierre Verger*. Existe outro poema sobre o Milagroso de Beberibe, escrito pelo poeta Francisco das Chagas Batista.
Trechos do poema de Chagas Batista, posterior ao de Leandro:
Srs. no século vinte,
Tudo nós temos de ver:
Os progressos da sciencia
São tantos, que fazem crer
Que não se esgota o invento;
Pois temos agora um Bento
Que nos livra de morrer!!
Não quero dizer com isso,
Que êle nos faça imortal,
Apenas digo e afirmo
Que a todo e qualquer mal;
Com água fria êle cura;
E se um doente o procura
Não gasta nem um real!
(...)
O General Dantas Barreto
Tinha uma filha doente,
Que todo o recurso medico
Foi p’ra cural-a impotente.
Com um frasco d’agua do Bento
Tem saude atualmente !
Os medicos de Pernambuco
Estão procurando um meio
De processarem de Bento;
- Dizem que êle de permeio,
Meteu-se na medicina,
E que, trazer a ruina
A’ mais de cem medicos veio.
Depois que Bento chegou
Medico não viu mais dinheiro:
As coisas ficaram prêtas,
O cobre ficou vasqueiro...
Ninguem mais se receitou
Farmacia a porta feixou;
Porque Bento é verdadeiro.
(...)
Nos hospitaes do Recife
Não entrou mais um doente
Porque se adoéce alguem,
Bento cura de repente
Seja a doença qual for,
E’ despensado o doutor
Só Bento é sufficiente.
(Chagas Batista, 1913).
* A Cigarra abria espaço para mostrar aspectos regionais do Brasil, priorizando narrativas visuais.Nessa edição, destaca-se uma reportagem sobre um culto religioso em Recife demonstra o interesse de Pierre Verger por essas manifestações culturais. "Adoradores de astros da várzea do Recife", mostra o culto a um homem chamado Bento Milagroso, ou Bento do Beberibe. Uma das fotos indica uma ovelha designada para o sacrifício, não exposta nas fotografias de Verger. (Fonte: http://fotosite.terra.com.br)