
Postado por ARIEVALDO VIANA em 27/04/2006 09:42
MATÉRIA NO DN
PARTE II (Continuação do post anterior)
O rigor gramatical é levado em conta no Projeto “Acorda cordel na sala de aula”. “A gente tem a preocupação de revisar todos os folhetos, para evitar erros de concordância, de vírgula, de acentuação. Mas sem tirar a vida dos versos”, explica Viana. Os cuidados com a correção da escrita já são verificados nos versos originais de alguns cordelistas estudados dentro do Projeto, como Leandro Gomes de Barros e José Pacheco da Rocha. “Não é todo folheto que serve para ser usado na escola. A gente seleciona os autores e os temas mais adequados”, avisa.
Dentro do que recomenda a educação moderna, a escolha recai sobre temas transversais. Os folhetos da coleção do “kit-educação” tratam de ecologia, prevenção de doença, combate ao preconceito e outros temas considerados politicamente corretos. São histórias como a do caçador João Mendonça que, depois de muito aprontar na floresta, tem que enfrentar um tribunal, tendo suas vítimas no júri. “Alguns bichos debatiam/ Se o perdoavam, ou não,/ Pois tantos crimes cruéis/ Não mereciam perdão”, narra o poeta Klévisson.
Para despertar o interesse dos alunos pela leitura, os folhetos podem ganhar uma roupagem mais moderna ou comparações com ídolos da juventude atual, como Gabriel O Pensador. “O rap dele é um cordel urbanizado”, compara Viana. Segundo ele, é comum a música se apropriar da riqueza da poesia popular. “O que o Jackson do Pandeiro fazia era cordel puro: ‘Meu pai me disse: meu filho tá muito cedo./ Eu tenho medo que você case tão moço./ Eu me casei e vejo o resultado./ Estou atolado até o pescoço’. Esta canção tem a métrica que é o fundamental do cordel. E tem um começo, meio e fim, outra característica da poesia popular”.
Um dos folhetos de Arievaldo Viana, “A Didática do Cordel”, feito em parceria com Zé Maria de Fortaleza, ensina muitos segredos de um bom cordel. São noções de rima, métrica e orações. O livro-base do Projeto abriga um questionário que permite ao aluno exercitar o que aprendeu no folheto didático. Isso leva o estudante não só a praticar a leitura, mas, também, a se aventurar, como autor, no universo da literatura de cordel. E, quem sabe, descobrir-se um poeta popular. “Isso aconteceu com um aluno da cidade de Salitre”, informa o poeta.
A idéia de alfabetizar e incentivar a leitura por meio do cordel, segundo ele, vem sendo usada com sucesso em Palmas, no Tocantins; em Mossoró, no Rio Grande do Norte; em Campina Grande, na Paraíba; e em várias cidades do Ceará. “Em Canindé, a gente já distribuiu 350 kits para a capacitação dos professores do município. O objetivo é fazer com que cada um deles saiba aproveitar o potencial do cordel no desenvolvimento dos alunos”, diz.
O contista e poeta Ribamar Lopes, pouco antes de morrer, em janeiro deste ano, deixou registrado, no prefácio do livro “Acorda cordel na sala de aula”, a importância da literatura popular para a educação, especialmente do nordestino. “A curiosidade pelo conteúdo dos simpáticos livrinhos, despertada tanto pela natureza de suas histórias quanto por sua identificação com elementos da nossa cultura popular, levava as pessoas a aguardar com ansiedade o momento em que alguém lhes viesse ler os raros folhetos trazidos do mercado ou das feiras por algum parente ou conhecido”.
A leitura de folhetos para grupos de pessoas não alfabetizadas, conforme Lopes, sempre foi prática comum desde que a literatura de cordel se fez difundida entre nós. “Foi a curiosidade pelas histórias versadas no folheto popular que começou a despertar, principalmente na zona rural, o interesse das pessoas pelo aprendizado informal da leitura”. Com o cordel, portanto, muitos nordestinos carentes de alfabetização aprenderam a ler. Um caminho que, com o Projeto “Acorda cordel na sala de aula”, pode voltar a ser percorrido por um número bem maior de nordestinos.
Comentários (2):
Em 27/04/2006, às 10:32:21,
Edna Feitosa
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página pessoal
disse:
Acho fantaástico esse projeto, Poeta Ari! Tomara que a maioria das escolas o adotem.
Um abração.
Edna
Em 30/09/2007, às 12:15:09,
Virlene (Sorocaba)
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e-mail
disse:
Arievaldo estou fazendo meu artigo acadêmico voltado para a literatura de cordel como ferramenta de ensino, em minhas pesquisas encontrei este lindo projeto e gostaria de saber mais informações e como adquirir o kit Acorda Cordel na sala de aula.