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ACORDA CORDEL

Postado por ARIEVALDO VIANA em 26/05/2006 09:15

ENTREVISTA EM TOCANTINS - PARTE II
Ascom - Qual era o nome de sua avó?

Arievaldo - Ela se chamava Alzira de Souza Lima. Ela me influenciou em muitas coisas, mas nessa questão do cordel, principalmente. A vovó era uma pessoa do sertão. Aquelas mulheres de fibra que teve 12 filhos, que costurava. Lembro que ficava sentado no chão, perto da máquina de costura dela lendo os meus folhetos quando tinha dúvida, lia em voz alta e ela me corrigia. Ela tinha uma memória fabulosa.

Ascom – O cordel é uma modalidade de comunicação que agrada crianças e velhos?

Arievaldo - É verdade. O cordel é aceito em todas as faixas etárias. A minha primeira experiência de levar o cordel para a sala de aula é justamente na Educação de Jovens e Adultos e tive uma receptividade maravilhosa, foi no município de Canindé, que adotou pela primeira vez, em 2002. Canindé naquele ano ganhou o prêmio Darci Ribeiro da Comissão da Câmara Federal, justamente, porque foi destaque. Tinha mais de 300 municípios do Brasil desenvolvendo o projeto, mas Canindé foi destaque porque os alunos estavam lendo realmente, isso é que é importante. Era um processo de alfabetização relâmpago, depois de três meses de alfabetização as pessoas recebem alguns livros como incentivo para começar a montar uma biblioteca em casa. Eu vi municípios indicarem para recém-alfabetizados a leitura das obras de Machado de Assis, de Augusto dos Anjos, de Carlos Drummond de Andrade, quer dizer são autores maravilhosos, mas para quem aprendeu a ler ontem, é uma leitura que não vai despertar o interesse das pessoas. O folheto de cordel tem 8, 16, 32 páginas no máximo e é barato, custa R$ 1,00 a R$ 1,50.

Ascom – A aceitação do cordel está relacionada ao fato de ser uma leitura fácil de entender e retratar o cotidiano?

Arievaldo – Exatamente. O cordel tem esse papel também de ser informativo. Era uma época em que não havia jornais no sertão e o rádio era coisa rara, só algumas famílias possuíam. Televisão nem se sonhava com isso. O cordel era quem trazia as notícias. Suicídio de Getúlio Vargas foi o folheto que mais vendeu. Foram mais de 50 mil exemplares em uma semana, quer dizer como se fala no sertão o poeta “enricou” com o folheto. Lampião em vida foi constantemente biografado, não teve um feito de Lampião que não fosse registrado pelas crônicas dos cordelistas. O ataque de Lampião a Mossoró tem dezenas de folhetos. A visita de Lampião a Juazeiro do Norte teve dezenas de folhetos, descrevendo inclusive, as roupas dos cangaceiros, o tipo de armamento que eles utilizavam, eles estavam mais municiados do que a própria polícia, como ainda hoje é assim. Só que o cangaço tinha a questão social, a revolta social, a resistência e a bandidagem de hoje, é asquerosa, ninguém pode fazer apologia a isso. Já o cangaço não, é visto de uma forma mais romântica.

Ascom - Pelo que você está contando o cordel traz características da história que os livros não conta?

Arievaldo - Perfeitamente. Qualquer pesquisador sério que quiser escrever a história do Nordeste e até do Brasil, se ele não pesquisar no cordel, estará sendo omisso. Porque o cordel é imediato. Lampião atacou Mossoró em 1926, 10 dias depois já tinham folheto circulando sobre o feitos. Quer dizer, os livros só foram contar essa história 20 anos depois. O cordel contou isso de imediato.

Ascom – Então, com isso não se perderam detalhes da realidade?

Arievaldo - Todos os acontecimentos importantes foram registrados em cordel. O cordel na Península Ibérica, precisamente, na Espanha e Portugal e região do Sul da França, também fez esse papel jornalístico. E no século XVI e XVII, o cordel fazia esse papel, só que o cordel europeu era feito em quadras. O cordel Nordestino é feito em sextilha, setilha, em ‘galope à beira mar’, em ‘martelo agalopado’, quer dizer, nós temos 72 modalidades diferentes, ao passo, que na Europa se limitava a três ou quatro. O cordel existiu em mais de 50 países, mas é no Brasil que continua vivo.

CONTINUA...
Fonte: www.seduc.to.gov.br



Comentários (2):

Em 26/05/2006, às 19:57:31, Edna Feitosa | fotolog disse:
Perfeito!
Vá sempre em frente, Mestre! É maravilhoso esse projeto! É cultura pura.
Um forte abraço.
Sucesso!
Edna
Em 23/09/2008, às 22:28:45, ANDREIA | e-mail disse:
EU ADOREI SOBRE ESSA CULTURA NORDESTINA SOBRE A ENTREVISTA EM TOCANTINS
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