
Postado por ARIEVALDO VIANA em 29/05/2006 09:24
ENTREVISTA EM TOCANTINS - FINAL
Ascom - Essas variedades de rimas de uma certa forma não dificulta a produção do cordel?
Arievaldo - Aí é que está, ela é atrativa, já que quando você faz uma coisa repetitiva, cansa o leitor. Quando escrevo uma peleja de cantadores, uma peleja imaginária, de Zé Limeira com Zé Ramalho, por exemplo, eu uso 10 modalidades diferentes, eu uso ‘cantador de vocês’, uso ‘gabinete’, uso o ‘beira à mar’, o ‘martelo agalopado’. Quer dizer no mesmo folheto, vocês vão ter contato com seis ou setes estilos diferentes da literatura de cordel.
Ascom - Quando teve início o trabalho do cordel na escola?
Arievaldo - Eu escrevo cordel desde os 10 anos de idade, mas nunca tinha publicado nada, mas escrevia e fazia tiragem em xérox limitada de 50 exemplares só para a família e para os amigos. Eu costumava ir nas feiras do Ceará para comprar folhetos, principalmente, em Canindé e Juazeiro do Norte. Sempre que tinha uma festa de Padre Cícero, eu ia lá para comprar folhetos.E um dos últimos poetas que eu vi comercializando esses folhetos, foi Lucas Evangelista, que é um poeta muito famoso no Ceará, Eu ainda diria que ele, é o poeta mais pirateado do mundo. Toda cidade que você chega tem CD pirata de Lucas Evangelista. Se ele conseguisse os direitos autorais do que já vendeu, ele seria rico. Só que ele anda num carro caindo os pedaços, porque os seus CDs estão sendo pirateados e ele nem está preocupado com isso. E aí eu cheguei para o Lucas e perguntei pelos folhetos. Ele me disse “não poeta, morreu... isso não existe mais não. A literatura de cordel acabou, não tem mais ninguém produzindo”. E saí muito triste com isso, porque eu era fã, gostava desse tipo de leitura. Cheguei para um amigo meu e disse: ‘Pedro Paulo vamos fazer uns cordéis para publicar’. Ele disse ‘bora’. Nós fizemos uma caixa com 10 folhetos de cordel. Antes, os folhetos eram vendidos no chão, pendurados nos cordões ou numas maletas, nos locais mais populares possíveis. Eu coloque os folhetos dentro de uma caixinha, dei um tratamento gráfico mais elaborado, procurei tornar o material mais atrativo possível e coloquei a caixa no aeroporto de Fortaleza, consegui colocar a caixinha na maior livraria de Fortaleza, consegui levar a caixinha para a Feira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, para as livrarias do Recife, para as livrarias de Salvador. Quer dizer, eu criei um novo público para o cordel. Eu pensei, tenho que assegurar esse público para que no futuro, eu tenha assegurado e sobrevivência do cordel. Que público é esse? Depois de pensar, imaginei a criança. Se você levar para a escola, a criança vai gostar do cordel, e daqui a 40 e 30 anos ele ainda vai estar comprando cordel onde tiver para vender. Uma forma de manter o cordel vivo.
Tudo tem uma contrapartida, atendendo os meus interesses: o de manter o cordel vivo, eu de alguma forma estava contribuindo para a educação. Eu fiquei impressionado com a receptividade disso. Eu estou vindo a Palmas pela segunda-vez, na primeira vez, vim a convite do Sesc, mais ou menos 70 pessoas participaram das minhas oficinas e hoje, essas pessoas vieram me reencontrar aqui, como é o caso do professor Milton Félix, que já está usando o cordel há mais de seis meses com grande resultados.
Ascom - Como está o cordel hoje?
Arievaldo - O cordel hoje está atingindo um público muito diversificado. Não é mais aquele público tradicional, composto em sua maioria por trabalhadores da periferia ou o sertanejo. Hoje o cordel está nas universidades, nas escolas, nas feiras, a gente está ocupando todos os espaços inclusive, a Internet.
A Internet é um veículo formidável, você pode pegar um trecho do folheto, digamos, 30% joga lá e diz assim, se ‘você quiser saber o resto da historia compre os folhetos’.
Leandro Gomes de Barros nasceu em 1865, na cidade de Pombal, na Paraíba e começou a publicar os seus primeiros folhetos, mas ou menos em 1889, ele é considerado o pioneiro da literatura de cordel. Num folheto de 1909, ele coloca um anúncio
Comentários (2):
Em 29/05/2006, às 09:26:17,
ARIEVALDO VIANA
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fotolog
disse:
Num folheto de 1909, ele coloca um anúncio na contra-capa alertando sobre a pirataria. Os folhetos dele já estavam sendo pirateados, já tinha editoras de Belém pirateando, editoras de Fortaleza pirateando e ele morreu com 53 anos revoltado com a pirataria das obras dele. Quer dizer, isso prova a grande aceitação do cordel, ele não tinha, talvez, estoque suficiente para abastecer esse mercado do norte do Amazonas, Pará. Também teve o lado positivo, a editora de Belém, além de piratear, estimulou novos poetas, pessoas que moravam em Belém passaram a produzir. Chamava-se Editora Guajarina
Em 16/05/2008, às 16:57:50,
Francisco Batista
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e-mail
disse:
Sou cearense de Nova Olinda e moro em Tres Rios -RJ, DESDE 1988. Gosto muito da Literatura de Cordel e vejo nela uma das maiores manifestações culturais do nosso povo. Conheci pessoalmente o Patativa do Assaré e sempre que posso faço palestra nas escolas sobre os cantadores do Nordeste.