
Postado por Marinho em 26/09/2009 12:40
A revolta de uma mulher
Montevidéu, 02 de outubro de 1985.
Patrícia e Renata
Este álbum é de caráter particular, exclusivamente para vocês, nossas queridas filhas. Nele pretendo, através de pesquisas, procurar saber o nome das organizações subversivo-terroristas que atuaram na época, de outubro de 1970 a dezembro de 1973, período em que o pai de vocês comandou o DOI/CODI de São Paulo. Os atos de terror destas organizações, como assassinatos de pessoas inocentes, atentados a bombas, assaltos a bancos, a quartéis, seqüestros, depredações e todo tipo de terror daquela época. Pretendo mostrar-lhes, se conseguir, com pesquisas em jornais, o caos que se tentava implantar no Brasil. Tentarei saber o que cada organização terrorista fez, os atos que praticou e a guerrilha urbana e rural que se implantou no país.
Estes terroristas obrigaram as Forças Armadas a se lançarem às ruas e aos campos, contra o inimigo
desconhecido que se escondia na clandestinidade.
Os militares, para evitar danos maiores a inocentes, lutavam contra o tempo e o desconhecido. Eles,
terroristas, lutavam contra o claro, o conhecido.
Deste combate participou o pai de vocês e lutou com honradez, honestidade e dentro dos princípios
de um homem bom, puro e honesto, assim como muitos outros. Só quem passou pelo martírio de ter
entes queridos envolvidos em uma luta que não iniciaram, nem procuraram mas que apenas cumpriram com seu dever de manter a ordem no país, pode saber, como eu, os momentos de medo, incerteza, terror que uma família passa. Só estas podem compreender a dor e o desespero de uma mãe e de uma esposa.
Telefonemas anônimos, perseguições, ameaças, morte de amigos em combate, a dor dos entes queridos que, como nós, não tiveram a sorte de conservar com vida aqueles que amavam.
Sei e lamento que outras pessoas também passaram pelos mesmos sofrimentos de perder entes
queridos, mas estes entes queridos, fanatizados, terroristas, começaram a guerrilha e os atos de terror.
Houve a guerra, e em uma guerra há mortos e feridos de ambos os lados, mas os militares não a queriam nem a iniciaram. Eles foram e são preparados para defender o Território Nacional. Foram chamados a agir e acabaram com o terrorismo no Brasil.
O terror era tanto que quando tu, Patrícia, foste para o Jardim de infância, eu passei todo o ano, no
horário escolar, dentro do carro, na porta do colégio, pois não tinha condições psicológicas de ir para casa. Recebíamos ameacas de morte, de seqüestro e todo tipo de guerra de nervos. Tive amigos mortos e feridos em combate!
Assim mesmo, nos “porões da tortura”, como eles chamam, onde “se ouviam gritos e se mostravam
presos mortos à pauladas” como eles dizem, participei e tu também, Patrícia, ainda que pequenina (3 anos) de uma pequena “obra assistencial” a algumas presas, mais ou menos seis, uma inclusive grávida.
Íamos quase todos os dias. Tu brincavas com algumas enquanto eu, com outras, ensinava trabalhos
manuais como tricô, crochê e tapeçaria. Passeávamos ao sol, conversávamos (jamais sobre política),
levava tortas para o lanche feitas pela minha empregada. Enfim, as acompanhávamos.
Fizemos sapatinhos, casaquinhos, mantinhas para o bebê e com uma lista feita no DOI pelo“torturador” Ustra compramos um presente para o bebê. Ele nasceu no Hospital das Clínicas, se não me engano em outubro de 1973 ou 1972 (verificarei depois), tendo o “centro de torturas” mandado flores à mãe, e eu e tu, Patrícia, fomos vistá-los. Era um homenzinho lindo e forte.
Minhas filhas, os aniversários delas eram sempre comemorados com bolos e festinhas. Os Natais e
Anos Novos jamais passamos em casa, durante os quatro anos que o pai de vocês comandou o DOI,
sempre foram passados lá (o pai, eu e tu, Patrícia, Renata não era nascida). Tu, Patrícia, às vezes a
pedido das presas, ficavas sozinha com elas.
Comentários (2):
Em 26/09/2009, às 12:41:25,
Marinho
disse:
Extraído do livro "Rompendo o silêncio do Cel Brilhante Ustra".
Em 29/09/2009, às 21:16:40,
Sun Tzu
disse:
Concordo com você e penso que a história precisa de ser ouvida pelos dois lados, inclusive oficialmente, para que os erros do passado jamais sejam cometidos. Penso que os guerrilheiros do Araguaia foram “vibradores” e imaturos na medida em que deveriam perceber que enfrentariam uma luta muito mais dura à qual estavam preparados, isto porque não leram Sun Tzu, A Arte da Guerra e não fizeram o devido preparo para enfrentar o aparato do Estado brasileiro, logo se lessem o Sun Tzu e suas recomendações, a guerrilha do Araguaia não teria acontecido. Mas já que aconteceu, que sirva de lição também ao Estado brasileiro e suas forças armadas, de que não cometam o mesmos erros, com execução de prisioneiros, torturas e mentiras pois no final das contas todos saem perdendo e ressentidos. Sobretudo, que as forças armadas brasileiras sejam guerreiras e dignas, para manter o moral e que considerem os suboficiais igualmente como os oficiais, pois suboficiais mortos e feridos no Araguaia não tiveram o mesmo nível de condecoração e promoção que oficiais, logo não foram devidamente considerados, o que parece um segregacionismo. Estou falando sério quando recomendo que você leia a obra de Sun Tzu, pois leva-nos a refletir profundamente e paralelamente você vai recebendo seus cursos e instrução no EB e perceberá que na obra de Sun Tzu encontrará correspondente, coisa que poderá colocar em seus exames escritos e mostrará interesse e vontade de aprendizado o que te destacará na turma. Tenha o livro de Sun Tzu na cabeceira e sempre que puder imagine a mente de um guerreiro há 2.500 anos, sem as tecnologias atuais disponíveis, mas perceberá e adaptará para o atual quadro. Sun Tzu começa o livro dizendo: “a arte da guerra é vital para o Estado, um caminho tanto para a glória como para a desgraça, portanto o governante criterioso saberá escolher seus comandantes”. E termina: “o governante criterioso não relevará nenhum aspecto da arte da guerra, pois estará ciente de que falhou” Boas energias