
Postado por Agnaldo Rodrigues em 21/04/2005 16:23
As portas da percepção I
Acordei alguns minutos mais cedo. Quero passar pelas mesmas ruas, porém com uma visão mais viva - buscando a esperança para meus dias.
Meus passos firmes nas calçadas desniveladas fazem a colher batucar em minha marmita. Arroz e feijão vão se misturando ao ovo frito, as casas ainda estão iluminadas pelas luzes dos postes. A madrugada é o cenário do passeio dos meus olhos, meus sentidos vão entrando no ritmo do som da marmita e da sola do meu sapatão, lembra algo chamado bossa nova.
Chegando mais perto do centro da cidade o sol mostra um dia quente, sei que hoje é véspera do meu aniversário, isso me faz lembrar dos meus pais que deixei no sertão.
Vejo as lojas fechadas, os moradores das ruas acordam e recolhem suas riquezas, alguns restos de papelão, cobertas rasgadas e livros velhos. Não consigo entender o nome de algumas lojas, acho que é francês ou inglês, será alemão? (o Papa é)
Uma parede branca desperta a atenção, a porta aberta me faz duvidar do horário, por um instante acho que estou atrasado. Passo sem olhar para dentro, minha curiosidade quer saber que loja é essa.
Volto, entro sem muito pensar, olho para um lado, para outro, nada vejo. Só existe parede branca, uma voz me diz: Posso ajudar?
- Sim, me ajude entender o que você vende neste local.
- Vendo o que você procura. (diz um senhor de cabelo longo e muita idade)
- Mas o que eu procuro? Como sabe que procuro algo?
- Todos procuramos, só não estamos acostumados a encontrar.
- Procuro sim, mas não sei o que.
- Olhe aqui neste mostruário, tenho o que você quer.
Minhas pernas tremeram, um frio correu em minhas veias, sentei em um banco que antes não tinha visto. As paredes estavam cheias de televisores, em cada um passava uma cena de minha vida.
Na primeira fileira um monitor mostrava a minha família trabalhando no chão seco, lembrei dos meus dias no sertão. Meus olhos não acreditavam. Lá estava eu criança manejando a terra.
Cada televisor remetia para um passado não muito distante, meu pai, minha mãe e meus irmãos - todos que deixei em busca de um sonho - estavam ali naquelas imagens.
Um único televisor estava desligado, minha curiosidade era enorme, mas o medo de ligar a realidade era maior. Senti que naquele monitor havia algo estranho e eu não queria ver.
Voltei os olhos para outra parede. A voz do velho entrou em meus ouvidos como um projétil disparado de pouca distância.
- Não tenha medo de ver além das telas. Você é a soma das imagens.
- Medo? Não é medo. É pavor.
- Mas o monitor desligado é o mais importante. Fixe seu olhar no incomum, olhe dentro do inexistente e ele existirá.
- Tento olhar, mas não vejo.
- Então deixe de olhar e veja. Ver é diferente de olhar, abra as portas da percepção e deixe a luz entrar. A vida precisa de portas para impor barreiras. Nem sempre as portas abertas leva ao melhor caminho.
Levantei, caminhei até aquela televisão desligada, olhei através do vidro e notei que dentro da linearidade das linhas verticais e horizontais existia um espaço vazio.
Dentro de cada espaço imaginei uma cor, afastei o olhar e a imagem estava formada. Ela tinha movimento. Ouvi alguns sons, eram sons de flautas e órgãos.
Uma sensação nova tomou a minha mente, a realidade daquela imagem é tão forte quanto ao êxtase que senti.
Sai daquela loja sem ver o velho, corri para o arranha-céu onde eu trabalhava, subi até o último andar e olhei para baixo. Procurei a loja de onde eu havia saído, ao avistar a quadra não vi a loja. No local só um terreno vazio esperando um novo edifício.
O sol começou a brilhar entre as janelas dos outros prédios. Arremessei minha bolsa com meu alimento, olhei até ela chegar ao chão. Pensei em alguns momentos que passei e resolvi naquele instante saltar. [...]
(Continua na parte II)
Comentários (3):
Em 22/04/2005, às 20:03:01,
Agnaldo Fernando Rodrigues
|
página pessoal
disse:
Continuação nos próximos dias.
Em 22/06/2005, às 01:25:26,
Dona Carô
disse:
Falando do texto ... Uma mistura de Matrix com o clip do Rappa. Saca?
Por mais detalhadas, algumas cenas não consigo imaginar. Só que, ouço claramente vc falando esse texto pra mim, com todos os seus vícios gestuais e tudo mais :)
É gostoso ler texto seu. É sempre surpreendente. Beijo!
Em 27/07/2005, às 22:40:19,
daniela
disse:
que viagem maluca!!!!Quando vc começou a escrever assim? - Dani C.