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Brisa do Brasil

Postado por Klécius Leão em 29/10/2009 01:17

São Tripas À Portuguesa
Na nova reforma ortográfica - deu no jornal virtual - “estreia, plateia e paranoica perderam os acentos”. Entendamo-nos o que já não é surpresa: a novíssima ortografia da Língua Portuguesa altera a acentuação dos ditongos abertos das paroxítonas: do "ei" e do "ói" que aparecem na penúltima sílaba das palavras. O Brasil, como é de praxe, é louco por novidades, não importa se isso é bom ou ruim. Felizmente, o tempo do brasileiro é implacável também com os cognomes – eu não escrevi “codinomes”, ok? – pois até esses apelidos preconceituosos aqui logo ficam velhos. Quem se lembra de “boiola”, por exemplo? Não tem mais graça nenhuma. E “mariposa” para designar “prostituta”? Em Portugal, desde sempre, "bicha" é apenas uma fila. É normal e aceitável que certas palavras percam a força ou a utilidade posto que o tempo é dinâmico, mas as novas regras ortográficas, de qualquer forma, são um absurdo. E não há quem me convença de que é assim mesmo, de que temos de unificar o idioma. Pergunte a um lusitano ortodoxo se ele quereria adaptar a sacrossanta Língua de Camões se fosse para absorver nossos “barbarismos”. É lamentável saber que teremos de jogar fora dicionários e gramáticas, que não custaram nada barato, e ainda ter de comprar as atuais edições e, o que é pior, ter de desaprender as regras antigas e engolir as atuais.
O caso de palavra “centopeia”, porém, merece destaque: certa vez, descobri que ela nunca teve acento agudo. Obviamente, sempre chamaram a bichinha (ops!) de “centopéia” (sic) quando, desde sempre, deveriam chamá-la de “centopêia” (sic) – com a pronúncia fechada, correta segundo o dicionário Antenor Nascentes, editado pela Academia Brasileira de Letras. Tenho três exemplares aqui na estante para confirmar – e o risco nenhum de perdê-los é quase zero, porque não estão nem no “hd”, no “pendrive”, nem na pátria que os pariu.
Insatisfeitos em cutucar onça com vara curta, sem ter no que mais mexer, mais uma vez eles reescreverão a Odisseia: a palavra “centopeia”, que chamavam incorretamente de “centopéia” (sic), até que enfim, será grafada corretamente. Mas a pronúncia, senhoras e senhores, tenham certeza disso, continuará errada, ou seja, continuará aberta, assim: “Centopéia” (sic).
Nesse caso, e em vários outros casos semelhantes, para que servem as novas regras? Servem apenas para confundir, irritar e enlouquecer mais ainda aqueles que se preocupam em escrever e falar corretamente. Em resumo, agora não teremos mais a prova inequívoca da pronúncia correta de certos vocábulos como esse – que o velho programa Word ainda insiste em acentuar. Mas, logo logo, corrigirão a falha, pois o brasileiro detesta parecer atrasado embora a cada dia só pareça regredir; detesta velharias mas continua a roubar ou receptar antiguidades das igrejas e levar para casa; detesta ficar por fora da moda, mas aceita pratos requentados. Comida de marmita. Que, de a palavra parecer tão estranha ao povo semi-analfabeto, falam “malmita”.
O problema é que, a partir de agora, Léia terá de virar Leia. Leia-se: Léia não leva mais acento. Para escrever um texto cujo título seja “Leia, Minha Querida”, teremos de colocar uma explicaçãozinha ao lado, do tipo: “Atenção, neste título não se pede para Minha Querida ler alguma coisa. É uma homenagem a uma fulana chamada Leia.” É assim que terá de ser, tudo “simples”, “rápido” e “fácil”. São as novas regras ortográficas.
É a paranoia da plateia na estreia da centopeia. Um dia, provavelmente, tudo será sem acento. E sem assunto.



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