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Viva de maneira simples, para simplesmente morrer.

Postado por Paulinho Bragadah em 02/05/2006 14:56

Você é o que você tem. Primeira parte - SAÚDE PÚBLICA EM SÃO BERNARDO DO CAMPO
Sexta-feira, 28 de abril de 2006 - 8:50h da manhã. Chego ao Pronto-Socorro do Taboão, bairro onde resido em São Bernardo. Sinto uma dor nas costelas há aproximadamente um mês. Na noite de quinta, essa dor aumentou e eu não conseguia respirar direito.
Atendimento na recepção:
- Pois não, o que você quer? - diz o recepcionista do pronto-socorro, me deixando em dúvida se o local não seria um armazém.
- Gostaria de ser atendido por um médico! - disse eu, já indignado
- RG, endereço, telefone. Se não for de São Bernardo, nem adianta fazer ficha. - disse o recepcionista, pelo fato do bairro ser divisa com a cidade de Diadema.
Entreguei meu RG, dei o endereço e telefone. Quando assino a ficha, olho para o lado e vejo um senhor de avental branco (de médico) pegando as fichas para atendimento. Abaixo do avental aberto, vejo a camisa da "Cachaça Oncinha". Nada contra a cachaça, mas um médico trabalhando com uma camiseta dessa não passa nenhuma confiança.
Retomando a peleja - 11:25h, hora do meu atendimento pelo "Doutor Cachaça Oncinha":
- Pois não, Paulo. O que o senhor tem?
- Estou com uma dor no peito, nos ossos...
- Tomou porrada, é? Mexeu com a mulher dos outros?
- Não.
- Então... Não posso te ajudar, vá até o Pronto-Socorro Central. Lá eles te atenderão melhor.
Chego ao Pronto-Socorro Central às 12h. Pessoal uniformizado, oferecendo ajuda. Achei estar no paraíso, sala de espera vários atendentes. Errado.
Sou atendido somente às 13:25h. Daí em diante, começa um verdadeiro martírio.
Exames de sangue, raio-x e eletrocardiograma (pelo menos isso foi bom, mostrou preocupação do doutor – esse devidamente uniformizado). Sangue coletado (14h). E o resultado só sai às 17h.
Aguardei, não tinha outra alternativa, já que o médico me disse que só poderia ir embora quando recebesse alta. Segue abaixo algumas das coisas lamentáveis que vi até às 19:30h - o horário que recebi meu exame de sangue:
- Um jovem aparentemente com 20 anos, não mais que isso, estava com apendicite, ou seja, precisava de uma operação de emergência. Esse jovem que chegou um pouco antes que eu, foi obrigado a esperar uma ambulância para levá-lo ao hospital até às 19:45h. Tudo isso, porque o pronto socorro não pode liberar nenhuma ambulância antes desse horário. Por quê? Eu não sei responder, nem os enfermeiros que diziam "São normas";

- A sala de observação é cheia de poltronas reclináveis, e lá ficam pessoas com diferentes doenças (dentre elas, doenças transmissíveis como a tuberculose), sendo observados por um enfermeiro;

- Pessoas tomando soro no meio do corredor, pois não havia lugar na enfermaria. O mesmo problema da sala de observação acontece no corredor;

- Outro jovem, esse com pinos na perna aguardando atendimento. Detalhe: Os pinos estavam expostos e ele começou a me mostrar sua perna em decomposição. Um cheiro insuportável. E ninguém pra dar prioridade ao atendimento do rapaz;

- Medicação? Eu esperei meia-hora pra tomar a injeção. Imagina quem tinha que tomar soro e outras coisas mais.

Infelizmente não lembro de tudo agora. Meu emocional foi tão castigado, que se tivesse escrito tudo que vi no mesmo dia, daria várias páginas de sofrimento. Não meu, mas desse povo que não reclama, que sofre calado e ainda diz "É de graça, vou reclamar de quê?", não levando em consideração a quantidade absurda de impostos que paga para tem esse direito básico de saúde nesse país.
Nessas horas vejo que as pessoas fazem-se reféns das regras capitalistas. A saúde é um exemplo forte: Ou você contrata um convênio, que, quanto mais se paga, mais direito, conforto, prioridade tem, ou se contenta com um serviço arcaico e desumano nos pronto-socorros e hospitais da rede pública.
Eu suporto tudo isso na saúde pública hoje, mas e os idosos e pessoas com problemas mais graves que uma inflamação nas costelas por falta de exercícios?

Em breve a segunda parte - Um filho de desembargador.

Braga Saudações,

Paulinho Bragadah



Comentários (4):

Em 2/05/2006, às 16:22:43, Fernanda: http://www.fotolog.com/pitel_pitel disse:
Braga, a primeira parte esta entre um texto excelente e uma realidade absurda....Agora aguardo a segunda parte, em que vc disserta sobre os que têm tratamento no Einstein e por isso saem pela rua pedindo para apanhar...
Em 7/05/2006, às 21:16:46, Brise disse:
Lindo... infelizmente esta é a realidade do nosso Brasil, que só conseguimos acreditar quando nós mesmo presenciamos...
Não desanime... continue a sua luta! Continue acreditando nos seus ideais, mas faça o que o médico falou: suspenda o uso da mochila por um mês... faça exercícios, se cuida!!
beijos
Em 13/05/2006, às 17:30:07, ju | página pessoal | e-mail disse:
tô aqui, painho, rs!!!
hahahaha
me liga quando quiser!
bjão
Em 15/05/2006, às 11:42:13, Rafael Ned disse:
Bom, vou dizer algo que a Fabrise sempre fala que na minha opinião também pode ser usado para este seu relato: MUITA COISA E NADA !
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