
Postado por Bira Dantas em 14/12/2005 07:54
PRAÇA TERMINAL VIADUTO CURY (TEXTO HERINGER)
"Nem sempre ela foi assim: tão hermética e feia. Houve época – e os mais antigos campineiros irão se lembrar – em que a praça, onde hoje está situado o terminal de ônibus, era linda, encantadora... Os turistas que visitavam esta agradável Campinas paravam sobre os viadutos para fotografá-la. Lagos, jardins, canteiros, flores, tudo ali era muito organizado e belo. Talvez a fúria do crescimento, que sempre traz consigo a necessidade absurda de se abrirem ruas e avenidas, talvez ela tenha sido o seu carrasco. O que restou ainda desta idílica beleza? As palmeiras... e elas – testemunhas destes acontecimentos - cresceram, tornaram-se adultas.
Posicionada num local estratégico – a confluência de várias artérias importantes, sendo que uma delas, a João Jorge, vem a ser a principal via de se entrar na cidade pra quem chega da capital do Estado – tinha mesmo que ser cobiçada. Assim, nada mais natural que olhassem-na com volúpia extremada. Que os ônibus e as gentes necessitem de um terminal decente e bem localizado é fato, mas não precisavam destruir a praça – eu já ia dizer “pracinha” mas ela era bem grandinha! Agora não há como vê-la direito. Alguns olhares não podem abarcá-la, pois que a construção que ali se fez é um grande mostrengo de ferro e lata. É preciso estar no céu: de avião, helicóptero ou, bem mais fácil, subir ali no edifício ao lado, cujo letreiro luminoso, além de clamar por lucros ao banco a que pertence, avisa também aos paulistas que é tempo... tempo de correr, que São Paulo tem pressa!
A mesma pressa levou a praça; e a praça levou consigo o verde, a calma, o espelho d’água, as aves... e todos voaram pra longe. E se não ficou deserta é porque, hoje, por ela, circulam milhares de pessoas em busca do trabalho, do lazer ou do descanso justo a que têm direito. E ao passar por lá nem sabem da beleza que o lugar ostentou um dia. As ruelas que dão acesso ao terminal Cury estão completamente dominadas pelo comércio de quinquilharias – um legítimo (sic) Paraguai! Em meio ao afã o povo ainda pára para comprar e se divertir... e tem de tudo! Cereais, afrodisíacos, carne, hortigranjeiros...tem loja grande de roupas e sapatos. Tem bares... por ali bebe-se e canta-se muito. Joga-se a capoeira e outros jogos nem tão transparentes assim. E joga-se, sobretudo, o jogo da vida. Ali, vale tudo pela sobrevivência.
Os muitos veículos que saem e chegam no lugar se encarregam de manter viva a corrente humana, mas é na justamente hora do rush que o local se eletriza e se transforma num inacreditável formigueiro de pessoas. O cheiro inconfundível da carne suspeita exala e denuncia o churrasqueiro suado e esbaforido; os grupinhos que o circundam atestam a importância deste tipo de comércio, os fast-foods tupiniquins, da população mais pobre, de gente que dificilmente freqüentaria um Mc’Donald.
O entorno vive deste frenesi que se estende ali por perto com tentáculos feito um grande polvo domesticado. Hotéis baratos, bares, botequins pé-de-chinelo e neles, elas, as mariposas... as moças que dão sabor e sustança à noite. Mas não só a noite ali tem vida, o dia é repleto de acontecimentos e de emoções passageiras.
A pracinha, se ainda ali estivesse, talvez nem abrigasse tanto tempero e mistério, eu tenho que admitir...mas ela era tão bonita!"
Comentários (5):
Em 14/12/2005, às 07:55:08,
Bira Dantas
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fotolog
disse:
AVENIDA MORAES SALLES
Bira Dantas
Quando fui desenhar o viaduto Cury, minha idéia era pegar a perspectiva do olhar do Heringer da janela de seu prédio, aquele logo atrás do Mirante (onde mora outro amigo dos traços, Ricardo Quintana da Escola Pandora), na esquerda do Cartum. Mas Heringer, recém-chegado de Manhu-Mirim, estava batendo pernas pela cidade, visitando os amigos. A chuva caía fina, mas persistente, naquela tarde de dezembro. Saquei de algumas folhas, e do canteiro central da avenida peguei um ângulo rasteiro, exatamente o que os pedestres vêem ao perambular pelos cruzamentos movimentados perto do terminal, na lateral do Palácio dos Azulejos, já retratado por mim, nestas páginas campineiras. E assim, entre um pingo e outro, foi se delineando a avenida que vem do alto do viaduto Cury...
Luiz Carlos Heringer é escritor, poeta, chargista e gosta de fotografar o que vê e acha bonito. Bira sai por aí desenhando e tocando gaita. Até na chuva.
Em 19/12/2005, às 09:54:36,
Edna Feitosa
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fotolog
disse:
Falar o quê? Vc me deixa sem palavras, mas cheinha de admiração, Bira.
Sou sua fã.
Edna
Em 19/12/2005, às 10:48:47,
Mauro Souza
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página pessoal
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e-mail
disse:
Oi Bira,
Maravilhosos estes desenhos de Campinas. Isto vira um livro facil. Adoro desenhos de cidades e você matou a pau. Como você mesmo disse, por não ser arquiteto, sua visão da cidade é muito mais intuitiva e interessante. Parabéns.
Em 5/09/2007, às 14:51:47,
camila
disse:
achei legal + acho q teria q ter mais cores
Em 5/09/2007, às 14:51:49,
camila
disse:
achei legal + acho q teria q ter mais cores