
Postado por ARIEVALDO VIANNA em 07/10/2009 09:37
Poesia de corpo e alma
Rogaciano Leite: muitas homenagens ao jornalista e poeta popular e erudito em seus 40 anos de "encantamento"
Há 40 anos morria, no Rio de Janeiro, Rogaciano Leite. Homenageado da VII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco e em Itapetim, sua terra natal, o poeta que viveu e foi sepultado no Ceará deixou um importante legado poético, resgatado em "Cabelos Cor de Prata", livro que Waldy Sombra lança na próxima quinta, 15, no Espaço Cultural Faustino
Vila Umburanas, Vale do Pajeú, Pernambuco. Tal como a Serra do Teixeira, na Paraíba, ou o Cariri cearense, um terreno sagrado da poesia. Da vila originaram-se as cidades de Itapetim e São José do Egito. Nesta parte de Umburanas, vieram ao mundo João Batista de Siqueira, o Cancão (1912-1982), os irmãos Batista, Lourival (1915-1992), Dimas (1921-1986) e Otacílio (1923-2003). Na outra, Itapetim, Jó (Job) Patriota (1929-1992) e Rogaciano Leite (1920-1949), Rogaciano Bezerra Leite, filho dos agricultores Manoel Francisco Bezerra e Maria Rita Serqueira Leite, nascido no sítio Cacimba Nova, em 1º de julho (ou 30 de junho) de 1920.
Certo é que Rogaciano era mesmo de Itapetim, cidade do sertão pernambucano, a 420 quilômetros de Recife. No entanto, até aquelas primeiras décadas do século XX, a Comarca de Itapetim pertencia a São José do Egito. Já o pesquisador Saulo Passos, sobrinho-neto de Rogaciano, garante que quase todos, inclusive os irmãos Batista, são mesmo de Itapetim. Há que se registrar ainda as cidades, também do Vale, de Monteiro e de Ingazeira, a primeira berço de Pinto do Monteiro (1895-1990), a outra, de Antônio Marinho (1887-1940), segundo Saulo Passos (embora o poeta tenha até um busto em São José do Egito, então distrito de Ingazeira). Enfim, uma região por onde também andaram poetas de muitas outras partes do Nordeste, de muitos outros tempos do Nordeste. Onde a valorização da palavra estava muito distante dos silêncios e dos améns pregados pela mídia. Onde ainda hoje a poesia desafia os "novos tempos".
Se é verdade que a poesia estava sempre por perto de Rogaciano, não é já tão óbvio que ela devesse ficar aprisionada no Vale. Muito menos restrita às formas ditas populares. Afinal, ganhar mundo e ampliar perspectivas é uma das missões dos vates que se desdobram entre a viola, o cordel ou o verso declamado a palo seco. Considerado discípulo da Cascavel do Monteiro, Pinto do Monteiro, Rogaciano começou sua jornada poética aos 15 anos, em uma peleja com Amaro Bernadino, em Patos (PB). As leituras de Fagundes Varela, Casimiro de Abreu e Castro Alves começam a fazer diferença. Desloca-se para o Rio Grande do Norte, onde conhece Manoel Bandeira. Aos 23 anos, ganha um programa de rádio diário em Caruaru, de volta ao torrão natal.
Fortaleza, Rio e homenagens
Em 1943, vem para Fortaleza, torna-se bancário e jornalista da Gazeta de Notícias. Suas pelejas com Cego Aderaldo ganham fama nacional, e ambos viajam para o Sul do país, ainda com Domingos Fonseca. Em 1947, lança "Acorda, Castro Alves" (prefácio de Jorge Amado) e promove, no Theatro José de Alencar, o I Congresso de Cantadores. No ano seguinte, o evento chega ao Teatro Santa Isabel, em Recife. Conclui, em 1949, seu bacharelado em Letras Clássicas pela Faculdade Católica de Filosofia do Ceará. Entre 1950 e 1955, Rogaciano viveu em São Paulo e Rio de Janeiro, onde lança, em 1950, "Carne e Alma" (Editora Pongetti, prefácio de Câmara Cascudo). Quatro anos depois, casou-se com Maria José Ramos Cavalcanti, com quem teve os filhos Rogaciano Filho, Anita Garibaldi, Roberto Lincoln, Helena Roraima, Rosana Cristina e Ricardo Wagner. Neste mesmo ano, trabalha no "Última Hora", a convite de Samuel Wainer. Em 1955, retorna ao Estado, tornando-se relações públicas do Banco do Nordeste. Em uma caravana capitaneada por Assis Chateaubriand, viajou pela Europa em 1968.
Ver matéria completa no Diario do Nordeste de hoje (07-10)
Comentários (2):
Em 7/10/2009, às 09:39:06,
ARIEVALDO VIANNA
disse:
Minha opinião, publicada no CADERNO 3 do DN...
"Na minha opinião, o grande mérito do poeta Rogaciano Leite foi ter um pé no popular outro no erudito. O ouvido na cantoria e o coração no soneto, forma poética que abraçou de forma magistral, chegando mesmo ao extremo de fazer sonetos de improviso em suas palestras e conferências. Coisa de bom repentista que progrediu nas letras, como o mestre Dimas Batista, que também tinha essa facilidade espantosa com a métrica e com rima. Herdeiro de Castro Alves, Rogaciano nunca negou o seu amor pelo cordel e a cantoria, buscando sempre aproximar-se dos verdadeiros poetas do povo. Um de seus amigos pessoais foi o genial Cego Aderaldo, com quem realizou diversas cantorias. Os apologistas de cantoria contam duas cenas bem interessantes a esse respeito. Na primeira delas, Rogaciano censura o mestre por haver criado mais de 20 filhos alheios e nunca ter casado (o cego precisava de guias e para tanto recrutava crianças abandonadas, os primeiros meninos de rua do Ceará). Após ouvir a provocação de Rogaciano, Aderaldo saiu-se com esta:
De casar tive o desejo
Essa vontade eu não nego
Mas com minha experiência
Batata quente eu não pego
Passam chifre em quem tem vista
Que dirá em quem é cego!
A segunda... Rogaciano disse, numa estrofe, que Aderaldo era um velho muito besta. O cego vingou-se dessa maneira:
Andei procurando um besta
Porém um besta capaz
E procurando esse besta
Encontrei esse rapaz
Mas não serve pra ser besta
Porque é besta demais!
Essa era a forte ligação de Rogaciano com a poesia popular, sua grande paixão."
Em 15/10/2009, às 13:58:46,
ARIEVALDO VIANA
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página pessoal
disse:
Sobre o livre trânsito de Rogaciano entre o popular e o erudito, é interessante ler o trecho desse artigo do professor Batista de Lima, publicado no Diário do Nordeste em 2003:
"A sextilha com rimas xaxaxa é bem característica do cordel. Nessa mesma situação limítrofe entre o clássico e o popular há casos como Catulo da Paixão Cearense, Rogaciano Leite e Patativa do Assaré. É comum se encontrar em Patativa sonetos clássicos ao lado de poemas populares nos moldes do cordel. E o que dizer de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto?
Esse meio termo entre o popular e o erudito sempre foi alvo dos críticos. Uns reclamando padronizações clássicas, outros, paradoxalmente, exigindo mais identidade com o popular. Essas críticas levam a uma reação dos poetas, como é o caso de Patativa em Cante lá que eu canto cá, e principalmente de Catulo da Paixão Cearense quando afirma:
´Zoilos! Parvos! Aretinos
Criticóides pequeninos!
Passadistas refratários!
Futuristas - legionários!
dos maiores desatinos!
Poetastros retardatários!
Reis e Príncipes cretinos!..."