
Postado por ARIEVALDO VIANNA em 14/10/2009 10:42
CANCIONEIRO DO DESTEMOR
Bandido famélico, sujo de poeira da terra seca, a ameaçar a paz de propriedades rurais e pequenas cidades ganhou novas. Um dia, assim foram descritos os cangaceiros. O fenômeno social, que teve o sertão nordestino por palco, logo chamou a atenção de ficcionistas, e terminou sendo transformado por eles.
Na literatura, o banditismo foi tomado por uma "questão de classe", como na letra de Chico Science. Virou o herói do regionalismo de estética naturalista, dos homens bestializados lutando para sobreviver num mundo hostil.
O cinema o transformou em herói moderno, da saga nordestina - e, em alguns casos, fez dele uma versão brasileira dos bravos e heroicos caubóis de Hollywood. Na poesia, a aventura do cangaço seguiu ininterrupta, mesmo após o declínio e o desaparecimento dessa figura, convertido em personagem arquetípico da literatura de folhetos (cordel).
Nessa outra aventura, a da recriação do cangaceiro, ficam lacunas, e o objetivo de "O cangaceiro na poesia brasileira" é ajudar a suprimir uma delas. Organizado pelo poeta e ensaísta Carlos Newton Júnior, professor da Universidade Federal de Pernambuco, o livro traz uma mostra da presença do cangaço na poesia "erudita", que não poucas vezes dialogou com a tradição popular para recriar o universo do cangaço.
"Eu sou um curioso sobre essa questão de cangaço. Leio sobre o tema desde os 14 anos. Não sou um pesquisador no cangaço, mas sou um leitor de pesquisadores", se apresenta o organizador. Também poeta, Carlos Newton Júnior escreveu sobre o tema, em seu livro "Canudos: poema dos quinhentos" (1999). Seu poema "Os cangaceiros" integra a coletânea.
Foi quando deu seus primeiros passos como poeta, na década de 80, que Carlos Newton Júnior atentou para essa tradição esquecida, dos poetas eruditos que escreveram sobre o cangaço. "Quando se falava nisso, o normal era pensar logo romance de 30, e na literatura de cordel. Como acompanhava a poesia brasileira, encontrava esses poemas. Percebi que o tema também tinha apaixonado vários poetas eruditos. O livro nasceu daí, de uma ´pesquisa´ que fiz ao longo de muito tempo, como um leitor curioso. De repente, percebi que tinha um material razoável, e organizei em menos de um ano. Costumo trabalhar assim: vivo encaminhado projetos que vão sendo construídos com o tempo, em minhas visitas a sebos", conta.
Desregionalizar
Em "O cangaço da poesia brasileira", encontram-se autores heterogêneos. O primeiro contraste é o que separa escritores que romperam as barreiras locais e regionais, que conseguiram entrar para o cânone nacional, e outros que tornaram-se célebre em territórios restritos. De um lado, os pernambucanos Ariano Suassuna ("A cantiga de Jesuíno"), João Cabral de Melo Neto ("Por que perderam o ´Cabeleira´" e "Antonio Silvino no Engenho Poço") e Bráulio Tavares ("Virgolino não morreu"); de outro, os cearenses Sânzio de Azevedo ("Vida, proezas e morte de Jesuíno Brilhante") e Jáder de Carvalho ("Nordeste de Lampião"), o capixada Dorian Gray Caldas ("O Cabeleira") etc.
Não que haja uma hierarquia, baseada na fama. E são exatamente esses poetas de expressão local que fazem o livro valer. Afinal, é importante que Suassuna e João Cabral estejam lá, mas seus poemas são mais facilmente localizáveis. "É um prazer resgatar certos poetas ´desconhecidos´. Gosto muito do Paulo Bandeira da Cruz (1940 - 1993). Vocë só encontra seus livros em sebos. E olha que ele teve edições nacionais, pela José Olympio, mas depois que morreu quase não se fala nele", lamenta Carlos Newton Júnior.
Para o organizador, o cangaço é a grande "epopeia do Nordeste", referindo-se ao gênero da poesia épica, protagonizada pelos heróis de um povo. "O cangaceiro representou para o Nordeste mais ou menos o que o samurai representa para o Japão", compara.
Ver matéria completa no DIARIO DO NORDESTE (Caderno 3)
Imagem: xilogravura de João Pedro do Juazeiro
Comentários (3):
Em 14/10/2009, às 10:43:41,
ARIEVALDO VIANA
disse:
Link para a matéria:
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=679680
Em 14/10/2009, às 21:14:55,
carla
|
e-mail
disse:
Seu Arievaldo,
a minha professora de língua portuguesa me pediu para fazer um cordel e que eu escolheria o tema, então escolhi sobre a reforma ortográfica. Gostaria de saber se o senhor ficaria chateado se eu usasse a estrutura do seu cordel sobre a reforma.
obrigada
Em 15/10/2009, às 10:11:42,
Arievaldo Viana
disse:
Carla, o folheto sobre Reforma Ortográfica não é de minha autoria. Deve ser de outro autor. Eu só publiquei trechos do mesmo no blog.