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CORDEL NA ESCOLA

Postado por ARIEVALDO VIANNA em 21/10/2009 15:25

CEGO ADERALDO NA REVISTA "O CRUZEIRO"
O Cruzeiro - 3 de outubro de 1959
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O cego Aderaldo

Às três horas da tarde, no pátio da fazenda, o sol é tão forte que encandeia; por sôbre o mato zarolho sobe para o céu um brilho trêmulo, feito da luz devolvida que bate no chão e volta para onde veio, como se a terra fôsse um espelho.

O jipe freou defronte à cancela, espantando uns pintos e a cachorra Baleia com o seu filho Trairi. E do banco da frente do carrinho se levantou um velho alto, de peito largo, chapéu desabado sôbre os óculos escuros. Segurando-o pela mão, um môço moreno, de bigodinho, foi-lhe dirigindo os passos, como quem traz um menino.

Saltaram tôdos das rêdes onde cochilavam ao mormaço e, com emoção e alvoroço, correram a receber aquêle que chegava. Pois o homem que atravessava o terreiro, sorrindo e saudando com sua grande voz de peito, era uma espécie de príncipe, talvez o último sobrevivente dos grandes cantadores - o cego Aderaldo.

Pelas casas dos moradores a notícia da visita se espalhou com incrível rapidez, - parecia até, Deus me perdoe, que pousara em cima do meu alpendre uma estrêla de Natal. Os homens largavam a enxada nos roçados, as mulheres deixavam o milho no pilão, esquecendo o pão e a hora da janta. E foram-se chegando de mansinho, homens e velhas, môças e meninos, e quando se deu fé, o terreiro e o alpendre estavam cheios de gente, e Aderaldo, sentado na cadeira de lona, dava a sua grande risada e contava causos e desfiava motes e depois pegava no grande violão e cantava e rememorava desafios, e fazia, como é de praxe, a louvação dos presentes. Foi aí que êle comprou para sempre o coração da dona da casa, porque enxergando-a apenas com os espirituais olhos de cego, disse, num remate de sextilha, que ela era “maneira como uma abelha...”

* * *

O povo da cidade grande não pode fazer idéia do que é o renome e a grandeza de um cantador. Êle é a voz cantadeira de tôda uma gente que não tem outra forma de expressão própria, que não lê nem escreve e, na sua necessidade de poesia e comunicação, fala e se entende pela bôca do cantador. Êle é o lírico, o épico, o noticioso, o cômico. Não são o jornal nem o rádio que informam o povo da morte de Lampião, da guerra na Europa, do suicídio de Getúlio, da subida ao céu do Padre Cícero. Ou antes, o rádio e o jornal informam, mas as gentes só dão crédito e importância depois que o cantador confirma. Ano passado os poetas populares já estavam explicando nas feiras as proezas do sputinik, e agora já estarão pondo em versos o bombardeio da Lua, para o povo acreditar.

O povo lhe dá crédito, como lhe dá amor, porque o cantador é um dêles, é a sua testemunha, ao mesmo tempo que o seu poeta - a sua consciência lírica, a sua voz de protesto ou de queixa. As mulheres choram quando o escutam, os homens ficam pensativos. E só se entende que o cantador viva pobre e morra pobre porque a sua gente só tem para repartir com êle a mesma pobreza, também. Sendo que o pouco que podem dar lhe permite viver vestido e calçado, - e para êles isso já é abastança.

Aderaldo canta de si e dos outros, conta a infância, a mocidade, a cegueira. Perdeu a luz dos olhos aos dezoito anos de idade, a trabalhar numa máquina que de repente lhe lançou no rosto uma lufada de vapor quente. Depois de cego, recusando-se a pedir esmola, como outros cegos fazem, lembrou-se de que carregava um poeta dentro do peito, arranjou uma viola e se fêz cantador. E cantando continua até agora, desde aquêles fatais dezoito anos até os oitenta e um de hoje em dia. Vive ambulante, igual a Homero, também como êle cego, poeta e cantor. Não tem mulher, - diz que mulher e cego não são boa combinação. Já criou mais de vinte filhos alheios, transformando as velhas relações do cego com o seu guia numa paternidade adotiva que lhe vai preenchendo os vazios do coração.

Leia esta matéria na íntegra: http://www.memoriaviva.com.br/ocruzeiro/03101959/031059_6.htm



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