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Fragmentos, by Cris

Postado por Cristiane em 08/11/2009 21:12

A vida: de se morrer dela
"A vida, meu amor, é uma grande sedução onde tudo o que existe se seduz!" (C.L.)


Não sei por que agora volto, depois de mais de um ano sem postar aqui, e não sei por que agora volto com essa frase simples (vá lá, curta) tirada de uma comunidade qualquer do orkut, e com essa imagem divina desse momento divino que é a interpretação divina da Beth Goulart sobre Clarice (e aqui não uso divina, que seria pouco e inconsciente e inconcluso).

Um ano é tempo demais. É tempo de apaixonar-se e ver tudo medrar, é tempo de ver medrar o que era ainda maior, é tempo de sofrer pelo que medrou e para o que ainda se quer resgate. É tempo de até já não querer resgate, de querer a sedução do novo, ou de querer a sedução de novo no que já estava e que já era parte. É tempo de escrever um conto, de reger palavras, de plantar hortensias em jardim bem raro. De acompanhar o sol a ser por dourado no testemunhar do prédio de arquitetura branca. É tempo de contruir um amor e um templo, de devotar-se, de mudar de religião. É tempo de operar milagres, de ver alguém fazer 100 anos, de ver nascer um filho. É tempo de mudar de planos, de desfazer enganos, de persistir no erro. É tempo de, sobrehumanos, deixar para trás as bagagens cheias, aprender as fazer as malas, de deixar partir. É tempo de amar uma canção e tempo de se cansar dela, e entao amar outra a ponto de chorar por ela. É tempo de receber um presente, é tempo de, sob noite alta, por os pés em areia úmida e só ser feliz. É tempo de amedrontar-se, de tentar de novo, de arriscar perder. É tempo de produzir um filme, é tempo de deixar um outro com final suspenso até reencontrar. É tempo de procurar, de sofrer a falta, de cansar de estar. É tempo de relembrar as fotos, relembrar os fatos, querer voltar. De descobrir uns laços, de romper uns outros, de se fartar.
É tempo de apanhar chuva, de atrasar tarefas, de reencontrar. De buscar as saídas, de dizer os bastas, de aceitar saltar. É tempo de lembrar a pele, de tocar os dedos, de tangenciar. De lembrar os olhos, de afastar cabelos, de descabelar. Talvez tempo de ainda querer e de, por querer assim, de renunciar.

Ai fico pensando no que tem a ver isso com Clarice, com a peça. O fato é que, desde há tempos e feito sexta, a estética das coisas me seduz. Me seduz a estética do cenário, perfeito em creme e branco e preto e vermelho e um só manto em cinza chumbo, nada de outras cores tais. Me seduz a palavra potencial, me seduz a atriz em sedução de arte, só ali, em meia lua feita de cascatas, fitas brancas em cetim de paz. A atriz em palavra e gesto, alma toda sobre o piso branco; a atriz, fora dali, talvez de louça e éter, morando num arranha-céu, as paredes todas em giz.

Eu? A andar com os pés no chão, a não andar com os pés no chão, na dor de ser feliz.

De volta. Um ano: um tempo muito, um tempo nada.



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