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Ela na Janela

Postado por Ela em 27/07/2006 00:50

Do lugar onde estou já fui embora
Quando ele virou a esquina, Cecília teve certeza de que era preciso desacelerar. Sua predileção pela pressa, sua vocação para a agonia, desceram a rua, de mãos dadas, como a tentar segurá-lo pelo braço. Em vão. Mas partiram, enfim, e ela sabia que não voltariam mais, mesmo que sozinhas. A presença dele, que também partia, desregulava sua metafísica. E Cecília deixava de estar. Era apenas. E, se fosse vista no metrô, o que se via era sua ausência de estar, sua presença de ser. Ela tinha inveja dos que estavam, dos que dormiam entre uma estação e outra, dos que podiam dar-se ao direito de permanecer. Cecília, porém, não estava. Era como um corpo delicadamente vazio, mas pleno. Um silêncio aos gritos.
E foi quando ele virou a rua, quando ele já não mais estava (era desses que só estão, quase não são), que Cecília despediu-se de Cecília. Deram-se adeus as duas, uma indo, olhando para trás, agitando a mão; a outra fixa na calçada, com o corpo trêmulo e o rímel discretamente a escorrer. Quando Cecília já não via mais Cecília, porque Cecília tinha virado a esquina oposta à dele, Cecília descobriu a vocação para o mar.
Mar de marola, ela pensava. Não havia de ser mar de onda grande. O mar só era, não estava. E cada gota dourada era também a gota azul e também pintada de verde e também de cor de ar. Toda gota só era. Nunca estava ali. E, se estivesse por uma fraçãozinha de segundo sequer, estaria de partida. Cecília e o mar eram. E, portanto, agora, por onde Cecília andava, levava consigo o mar. Arrastava corais e seus peixes vermelhos pelas ruas, trazia nos passos conchas, daquelas bonitas, que iam ficando pelas avenidas, pelas calçadas, que faziam qualquer tolo, sem vocação de mar, tropeçar. Cecília passou a desacelerar o mundo. Descobriu que, com os quadris, fazia ressaca, desarranjava os prédios, invadia as casas, inundava as cidades. Tinha de fazer movimentos sutis e, ainda assim, qualquer nuance de seu quadril eram peixes que corriam e prédios deitados.
Naquela noite de maré alta, Cecília decidiu caminhar. Andou pelas avenidas principais da cidade carregando consigo um mar de marola, desta vez agitado porque era quase oceano. E era, não estava. E Cecília, olhando o céu, resolveu subir o prédio mais alto, todo espelhado. A água já vinha alta e Cecília subia, subia, subia. De lá do alto, sentia-se no seu mirante. E via, de cima, toda a cidade submersa.



Comentários (6):

Em 27/07/2006, às 12:55:27, soraya disse:
Ah, que saudade de Cecília! Das duas, juntas e separadas.
Em 27/07/2006, às 14:58:09, degradê disse:
ao se separar, cecília descobriu que a outra tem uma força que ela apagava pela sua autocrítica
Em 4/08/2006, às 21:03:44, o homem de costas disse:
eu amo uma amiga sua. mas amo em silêncio
Em 4/08/2006, às 22:22:04, [Borboleta] | página pessoal disse:
chorei...
um choro de saudades...
saudades do que jah nao eh...
do que tambem jah nao sou...
dos planos que a gente fazia...
enquanto o sol dourava a pele...
lembro sempre das dancas ao luar...
das conversas doces ou dificeis...
dos medos, dos sonhos...
as duvidas...
??????????????
eles estao sempre em mim...
como voce esta????

beijos e saudades.
amo voce.
sempre.
a menina francesa...
do cinema que ainda gosto de querer ver.
Em 5/08/2006, às 19:05:28, berga disse:
É...


Em 10/08/2006, às 23:36:05, ::a.c:: disse:
menina cecília, vire a esquina também. para o outro lado, desça e suba escadas, pontes, visite seus lugares escondidos. você vai ver que não importa mais nada: as suas esquinas e arredores garantem a felicidade constante...
;-*
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