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Ela na Janela

Postado por Ela em 30/11/2006 23:55


Ela consegue ser apaixonante com gestos de mão que imitam os de uma criança no café da manhã. E pode ser detestável quando telefona até que se atenda o celular, sem pausa, compulsiva e nervosa - personagem de Woody Allen. Ela não aceita não. E quer se convencer de que o amor não se convence. Planeja longas fugas e acaba escondida dentro de si mesma. Ela promete dia após dia que será a última ligação, o último pensamento, a última carta virtual, a última lembrança. Ela garante que está enterrado. E, na manhã seguinte, quase desenterra. Ela coloca sal demais na pipoca.
Ela se vale dos feitos da infância: adianta-se em contar que estudou música desde menina ou que ganhou a primeira Olivetti aos seis ou sete anos. Costuma lembrar, em mesas de bar, a coleção de canetas, o apreço pela enciclopédia e os furtos charmosos de livros da biblioteca da escola aos 11. Não sabe guardar segredos. Se os guarda, é porque são reais demais. Resta o caderno de poesias.
Ela ensaia as frases antes de dizê-las. Quer falar em verso. Preocupa-se com as estampas - gosta de poucas. Quando vê, já está vestida de preto - ou branco. Descobriu que prefere o silêncio aos 17, deixou a casa aos 22, mudou de si mesma para outro lugar aos 20, quando se apaixonou, talvez, pela primeira vez. Ela sonha escrever um livro, e sabe que, provavelmente, só o fará depois dos 30. Em Paris.
Ela não dá conta de seus sentimentos. Chora por pouco, tem trejeitos de criança-adulta. Prefere correr a andar - quando se corre, as mãos se resolvem por si mesmas; quando se anda, estão lá, entre o corpo e o nada. Gosta de pensar que será gato na outra encarnação. Ela faz promessa para o anjo, que anda, vez ou outra, de empréstimo aos amigos, para esquecer que pode lembrar. Ela, infelizmente, tem boa memória para números, em especial, os de telefone. Aliás, se pudesse apagaria a agenda involuntária que fornece os números quando se pensa nos personagens. Ela é uma grande invenção de si mesma. Está perdida na fantasia. E consegue ser apaixonante tentando se encontrar.

À ela, neste Natal, meu presente é uma janela.



Comentários (6):

Em 1/12/2006, às 10:56:26, le français disse:
je souhait ecrire como toi, un jour

Em 1/12/2006, às 13:52:54, amiga da di disse:
uma grande invenção de si mesma, sempre. nem sempre boa, nem sempre ruim, mas invenção, sempre, como tudo.
Em 1/12/2006, às 15:30:18, ::ana.b:: disse:
e que venha 2007, com suas janelas escancaradas e as belas paisagens que nem todos enxergam, apenas os que tiveram, algum dia, o coração machucado.
;-)
Em 9/12/2006, às 12:02:40, Latifundiário disse:
A tonga da mironga!
Em 30/12/2006, às 01:15:03, gábi | página pessoal | e-mail disse:
virei sua fã.
Em 6/01/2007, às 19:39:01, Mana que mora atrás da porta de vidro. disse:
Uns dos resumos mais leais. Das sinopses mais instigantes. Menina, curta sua janela, use os números. Não precisa contar as lágrimas, em quantidade para si, nem em qualidade para os outros, porque sabe a resposta. Na verdade, as estampas sempre pesam, e não alongam a silhueta. Na verdade, viveu muito mais que eu lembre já ter vivido. Ainda não prefiro o silêncio, não saí de casa, não sonhei ter gato, nem tenho dom para música. Afinal, eu nem mesmo já tive 20.
Que os trinta não tadem, porque preciso de um autografado, já que insiste em não decidir pelo a quatro mãos.
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