
Postado por Ela em 30/01/2007 00:47
Agora ela tinha entendido. Não ria porque não gostava do som de sua risada. Estava sempre quieta, Amaranta, entre as estantes da biblioteca da escola. Não ria para que ninguém percebesse que, debaixo do uniforme, naquele corpo sem forma, estava o livro de Gullar, o primeiro que carregou, o ar preso nos pulmões, passos pequenos, do colégio até seu quarto.
Não ria porque preferia estar debaixo da cama, atrás da porta, ou sentada na prateleira de cima do armário, no escuro, imaginando como seria incrível poder ler sem acender a luz, sem abrir aquela porta. Não ria porque não tinha lágrima no riso. Amaranta gostava de silêncio, quartos escuros, armários, prateleiras e de água salgada.
Seu primeiro sorriso saiu aos nove, talvez oito. Mas sem som. Riso contido. Tinha feito um rabisco atrás da porta. Com tinta nanquim e bico de pena. Escreveu bem miudinho, do tamanho que só as formiguinhas pudessem ler: silêncio. Estavam todas avisadinhas, pensou. Entendiam-se, então. Amaranta e suas formigas com tinta preta nas patas.Todas quietinhas.
Quando era grande, e as formigas já sabiam que não podiam falar alto e ela já não precisava mais esconder os livros junto ao corpo, decidiu que estava para gargalhadas. Reeducou uma formiga e, com ela, ria bem alto a fim de acordar as outras. Fez amizade com três passarinhos, voltou a correr bem forte e procurar descidas para perder os braços no ar, girando, girando, girando.
Era desespero. Amaranta, rodeada de formigas, cansou-se. Deu para andar pela casa, matando-as uma a uma, dedo em riste nos lábios, a pedir que se calem. Já jogou pela janela o açucareiro. E chorou quando as viu caindo, sorrindo, tão tolas, como quem pensa poder voar. Ela queria seu silêncio de volta. Amaranta cansou-se. E, agora, vive enfiada nos cantos da casa a escrever na parede, em letras miudinhas, ora silêncio, ora saudade.
Comentários (5):
Em 30/01/2007, às 08:19:26,
uma formiga
disse:
Mantenha alguns torrões de açúcar no bolso, você pode precisar. (alguns formigas podem buscá-los em silêncio)
Em 30/01/2007, às 13:11:30,
outra formiga
disse:
melancólica, mas sempre bela.
Em 30/01/2007, às 21:44:12,
O Sol
disse:
Ela, lá na janela, me encanta.
Em 1/02/2007, às 23:23:43,
Berga
|
página pessoal
disse:
Sobrou a formiga diabética, que não estava no açúcar. Até hoje tenta entrar no frasco de adoçante.
Em 14/02/2007, às 17:14:56,
[Borboleta]
disse:
saudade...
isto está escrito em tudo que tenho...
nas coisas que tinha,
no que era e fiz...
saudades de você...
beijos...