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Ela na Janela

Postado por Ela em 06/03/2007 16:33


Meus olhos ficam verdes quando eu choro. Verdes como os da minha mãe. Herdei os olhos dela para chorar. Os do pai, castanhos, para o dia-a-dia. Sendo assim, posso decidir se uso os olhos claros ou escuros. Não que sejam verdes para a tristeza e castanhos para a alegria. Não. Bem longe disso até. Porque felicidade também chora.
Tem dias em que eu perco os olhos. Não ficam verdes nem castanhos. Só da cor do pensamento. O pai diz que é quando a gente vai embora e esquece de levar a gente junto. Então, imagino eu-olhos-verdes acenando para eu-olhos-castanhos, que, do outro lado da rua, já vai. Feito mãe e pai quando ele ia fazer viagem comprida, ela se despedia na garagem, e ele, a mala de couro cinza, voltava mais velho, a mão cheia de chocolate diferente que a gente esperava uma vida pra ganhar.
Por que é que, no meio de tudo, eu volto a ser pequena? Talvez a adulta, olhos castanhos e concentrados, esteja parada do lado de lá, acenando para a pequena, olhos verdes de chorar - choro de medo, não de triste -, que insiste em se enfiar no meio das palavras de todo texto. Se eu contasse a ela, à de olhos verdes, que agora eu queria que só ficasse a outra, de olhos castanhos do pai, esta aqui choraria - de medo de ser sozinha - e as duas teriam os olhos verdes, feito os da mãe. Olhos de chorar.
Tem dia, assim de triste e de medo, que eu queria só os olhos claros dela. O que eu herdei (esqueci de contar) são verdes para chorar com luz acesa - ou luz do dia. Se eu os tivesse claros sempre, talvez assim, o moço tivesse percebido que, enquanto beijava meus ombros, eu chorava no travesseiro. E se fosse um beijo no pôr-do-sol, eu vestiria os olhos verdes, ele notaria e deixaria de beijar porque eu não queria nada aquele beijo.
Herdei os olhos da mãe e os do pai para dias de sentir-tudo. Olhos misturados. A avó dizia que os meus, os meus olhos, eram duas esmeraldinhas na caixinha de jóias de veludo preto. A pedra ficava verde-braveza com aquele fundo. Era bonita, mas o veludo... o veludo era tão mais macio de a gente perder os dedos nele e deixar a esmeraldinha de lado.
Herdei os olhos verdes da minha mãe para chorar. Os do pai, castanhos, para quando os dias seguem. No fim, faço olhos de verde-escuro, daquela cor mais sozinha da caixa de lápis.
É verde-saudade.



Comentários (7):

Em 6/03/2007, às 16:45:02, Sara disse:
Little princess..
só uma palavra:

LINDO!

Texto suave como vc. Suave e profundo ao mesmo tempo. Intenso. LINDO!

bjsss
Em 6/03/2007, às 17:02:26, [Borboleta] disse:

meus olhos são de saudade também.
e meu sorriso já é tão raro que nem me lembro a cor.
meus cabelos sei... são negros como a noite sem estrelas...
ou como o silêncio de dormir.
Tenho saudades...
dos seus olhos multi.

sempre.
na música dos Beatles.
aqueles passos que nunca mais fiz.

furta-cor.

Em 7/03/2007, às 10:21:11, lidenovo disse:
depois da ação das nuvens, vem outro demais de bonito, e muito bom. continue com essa coragem, audrey olhos lindos!
Em 12/03/2007, às 01:30:19, [Borboleta] disse:

escrevi algo...depois de tanto tempo...

no viagensdaximia

saudades...

beijos...

Em 27/03/2007, às 16:23:50, Elanajanela - portuguesa do SOL | e-mail disse:
Este é um dos mais belos textos que já li...e já li tantos!
Meu nick no Sol é igual ao seu. Meus olhos também. Verdes, numa mistura algo estranha de azul com castanho. Azul de pai, castanho de mãe. Castanho da mãe dolorosa que amei e já morreu. Azul do pai, com cara de anjo, que encontra sempre horizonte no abismo...
Um forte abraço para Ela D'outra que também está à janela!
Em 23/04/2007, às 15:30:12, Alegria disse:
Olhos verdes,

São uns olhos verdes, verdes ,
Como duas esmeraldas,
Iguais na forma e na cor,
Têm luz mais branda e mais forte,
Diz uma - vida, outra - morte;
Uma - loucura, outra - amor.
Mas ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi.

Antonio Gonçalves Dias

Alegria


Em 3/05/2007, às 22:55:31, Danilo disse:
Esse brog morreu??? Atualiza aê pô!
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