
Postado por Ela em 22/06/2007 01:40
janeiro
Saudade de o pai me emprestando os braços na rodoviária, de a mãe à porta com o rosto marcado de edredom, tão manhã. Saudade de eu-oito-anos, de o Thiago com o gato cinza-branco pra mim, de o Jean estourando a caneta outra vez no lençol de estampa azul que era desde a casa da avó. Saudade de aquele bilhete escrito para Juliana, de a noite levar Mariana no carro, ela cantando "te avisei que a cidade era um vão". Saudade de o coturno marrom novo em folha, de a Marina ensinar que minha pele branca gosta de vestido vermelho. Saudade de as fotos no álbum da terceira gaveta, de o armário de doces, de o pai abrir a lata de leite condensado só minha, de o som que a vida fazia quando nem passava.
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A mãe disse: "Não vejo a hora de você aqui". Eu pensei: "Não vejo a hora de eu aqui". Eu devo estar na casa de alguém. Devo estar fazendo pose com as mãos em fundo colorido. Devo estar rindo bem alto vestindo óculos de grau roubados e calçados de outro tamanho. Devo estar com o cabelo solto. Devo não ter telefone porque ninguém precisa me achar. Devo estar lá.
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My Funny Valentine é a música mais cheia de ontem. Combina com duas da manhã e eu deitada no chão de madeira. É bom quando a lágrima vai até o pescoço. E fico com os olhos verdes dela. Mas sem triste. É só de fazer saudade.
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Na televisão, o homem sério disse: "Foi decretado estado de atenção em São Paulo". Eu pensei devia ser: "Foi decretado estado de desatenção em São Paulo". Ia ser tudo a gente sentindo, feito janeiro.
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Tem dia eu queria ter essa idade aqui. Tem dia não. Eu gosto de o tempo de eu criança. Eu gosto de o gato cinza-branco sem nome de pompa. É só Fifi. Tem dia eu sou de manhã, o pai trazendo o copo de leite morninho, eu enrolando o dedo num pedaço de cabelo de gostoso que dá.
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Líquida devia ser só feminino. Assim escorrendo. Nome de mulher, nem mais menina. É eu lua alta. Quando a gente fica à noite, é líquida.
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Você me devolve amanhã cedinho?
Comentários (1):
Em 22/06/2007, às 09:54:35,
Juliana
disse:
Saudade de escolher a roupa nova no brechó para a próxima festa.