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ELIANE POTIGUARA / METADE CARA METADE MÁSCARA

Postado por Eliane Potiguara em 12/02/2005 22:58

"CUNHATAÍ, A MENINA SAGRADA CONTRA O SUICÍDIO"!
Cunhataí, a menina sagrada contra o suicídio!
Texto de ELIANE POTIGUARA
http://www.elianepotiguara.org.br
http://groups.yahoo.com/group/literaturaindigena

Quando Cunhataí era criança, ouvia os espíritos da mata, ela via a mãe das águas. Os sonhos eram o seu direcionamento. Sua clarividência era ancestral. Cunhataí tinha o poder da cura. Onde colocava as mãos, o bem se fazia. Sua mãe, insatisfeita com as invasões dos estrangeiros, tomou erva má, para que a semente que ouvia o espírito da mata, morresse. A erva fez muito mal à pequena Cunhataí; não a matou, tirou um pedaço dela... A mãe desesperançada com sua aldeia, não queria mais as coisas do espírito, negava a terra e a raiz. Ela queria o suicídio. Mas a avó da menina era mais guerreira. A mãe ficou cega e muda. Tempos depois a mãe renasceu da mudez e da cegueira por uma prova divina e se tornou pajé, sacerdotisa das águas. E a triste avó, cansada das dores, do peso do tempo e do sacrifício, morreu. Mas sua essência permaneceu. O homem branco, naquela época ria e incutia maus valores em alguns membros do povo... A semente ferida e mutilada nasceu triste e com uma estrela no olho direito. Era Cunhataí. Foi o lado direito que quase morreu. Só ficou roxo como uma marca, um sinal e... Sobreviveu para ouvir os espíritos, os antepassados e as velhas mulheres enrugadas pelos séculos. Sobreviveu para compreender o significado das três velhas, cujas seis mãos se transformam em cobras. O velho espírito disse a Cunhataí: Vai ave-menina e mulher! Cria asas e enxergue, um dia, quem sabe, seremos livres! Ela foi pra longe sofrer. Por isso quando ela retornou à sua aldeia de origem, o cacique, a pajé e os segmentos do povo a reconheceram, porque ela já era esperada por decisão dos ancestrais, há muitos séculos. O seu olho direito roxo_ o espiritual_ foi identificado pelos líderes conectados com a ancestralidade e pelo pitiguary, o pássaro que ANUNCIA. Os que não reconheceram estão muito além, mas muito além de qualquer tipo de compreensão do que seja essência, transcendência indígena. Estavam cegos, por isso traíam seus próprios conterrâneos e incentivavam a discórdia, a inveja, a mentira, a intriga, a luta pelo poder e desconheciam o verdadeiro sentimento de paz, solidariedade, amor ao próximo, companheirismo e cooperação, por isso muitas meninas sofriam. Foram contaminados pelo poder dos neocolonizadores. Só vislumbravam o materialismo, por isso não podiam perceber os sinais dos deuses, dos ancestrais, do Grande Espírito_ a Poderosa Força Cósmica_ existente dentro de todas as boas almas. Mas Cunhataí, em toda a sua vida seguiu o boto e as ordenações de seus sagrados ancestrais. Muitas mulheres indígenas que ouviram a história de Cunhataí, desenvolveram um útero sadio, porque entendiam que a cosmovisão indígena estava sagradamente vinculada a Mãe-Terra. E começaram a trabalhar e a lutar para melhorar as condições de vida do povo. Ninguém mais se suicidou, porque o amor e o respeito prevaleciam nas famílias, entre o homem e a mulher. A palavra fome nunca mais se ouviu naquele povo, quando também os homens perceberam o mal que haviam adquirido.
Cunhataí deixou a mensagem para que todos os homens e todas mulheres prestassem bem a atenção nos seus sonhos e deles fizessem seus caminhos a partir do respeito pelos velhos e velhas e pelos ancestrais e pelas boas relações de igualdade e respeito entre homens e mulheres!

Texto de ELIANE POTIGUARA do livro "METADE CARA, METADE MÁSCARA" Global Editora
http://www.elianepotiguara.org.br

http://www.fotolog.terra.com.br/elianepotiguara

*Eliane Potiguara é escritora e professora indígena, 54 anos, conselheira do Inbrapi (Instituto Indígena Brasileiro para a Propriedadde Intelectual).Coordena o Grumin/Rede de Comunicação Indígena.

Autora do livro “METADE CARA, METADE MÁSCARA” editora Global, Série Visões Indígenas, coordenada por Daniel Munduruku, escritor indígena.



Comentários (12):

Em 13/02/2005, às 02:57:46, Giovana disse:
muito bonito o texto.. bastante inspirador
Em 13/02/2005, às 22:42:50, daniel disse:
Olá Eliane,
parabéns por mais essa forma de comunicação que vc encontrou para nos encontrar.
Bjs
Daniel Munduruku
Em 19/02/2005, às 19:06:54, Moína | página pessoal | e-mail disse:
Mamãe, parabéns pelo trabalho literário que vem desenvolvendo sobre a questão indígena.
Vc é uma grande guerreira, sempre lhe disse isso, né? Tenho muito orgulho de ter uma mãe tão corajosa como vc.

Te amo,
Moína
Em 19/02/2005, às 19:49:46, Glaucia | e-mail disse:
Eliane

Parabéns pela expressão que representa na literatura e na ação das causas indígenas. Gostei muito de seu livro.
Um grande Abraço

Glaucia


Em 25/02/2005, às 13:17:44, helayne disse:
olá mamãe, tudo bem com vc? estou morrendo de saudades suas, não se esqueça de quando passar por aqui em brasília vir me visitar na funai, estou anciosa para te ver novamente, beijos de sua filha helayne!!!
Em 25/07/2005, às 18:58:03, ana | e-mail disse:
muita emocao ao ler seu texto. é lindo e faz-me lembrar as lendas que lia em meu primeiro livro escolar e a vontade de me transformar em uma das personagens ali retratadas. uma escola rural,uma menina de 8 anos e muitos sonhos.la ja se vao 52 anos. um abraco amigo. agora queroler o livro todo.
Em 1/08/2005, às 23:58:42, Ôróra... | e-mail disse:
gostei...
Em 13/08/2005, às 11:55:32, jovan disse:
aew linda sua atitude para com os indios o mundo precisa de pessoa como vc aew sucesso e muitas felicidades !!! bye bye!! www.flogao.com.br/jovemjovam
Em 1/09/2005, às 10:46:00, denise | página pessoal | e-mail disse:
hoola
Em 21/09/2005, às 00:02:32, sharian | e-mail disse:
Hola me parece genial el trabajo, soy de peru de pueblo indigena awajun peru-estudio literatura UNMSM-PERU
Em 17/11/2005, às 13:43:53, Rosa | e-mail disse:
Eliane Potiguara,
Parabéns pelo texto-poema maravilhoso e pela mensagem inspiradora que inspira e encanta todos os povos de qualquer origem e língua, com certeza!!
Que o Grande Espíritu continue guiando teus passos em cada uma das trilhas da vida, assim semeando e ressuscitando os sonhos ancestrais, mana potiguara!!
Luz e força, guerreira!!
Um abraço afetuoso,
Rosa, Manaus.AM
Em 1/01/2006, às 21:36:55, ROGÉRIO D BOCCHINO | página pessoal | e-mail disse:
OI AMIGA ELIANE
TENHO UMA IDEIA EM MENTE PARA AJUDAR AS CRIANÇAS GUARANIS DE JARAGUA AQUI DE SÃO PAULO E DE SÃO SEBASTIÃO SP
SE VC PODER ME LIGUE 11 38652402 ,9438 8524
um grande 2006 pra vc com muita saude e paz ROGÉRIO D BOCCHINO
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