ELIANE POTIGUARA / METADE CARA METADE MÁSCARA

Postado por Eliane Potiguara em 27/01/2005 16:29
Brasil e suas Mulheres Maravilhosas (Entrevista por: Sandra Baldessin / ABRALI
SANDRA B.: “As mulheres compõem a história violentada sob o decreto da exclusão da mulher”; essa premissa defendida por Márcia Tilburi define muito bem o cenário histórico-social no qual a mulher brasileira atua, sempre em luta para “existir” no espaço público como ser político que na verdade é; a situação da mulher indígena é agravada por pertencer às minorias étnicas. A senhora poderia nos falar sobre a sua luta no sentido de transformar essa situação?
Eliane: Os homens e mulheres indígenas devem encontrar, juntos, caminhos concretos que viabilizem atitudes responsáveis com relação aos seus direitos humanos, e, fundamentalmente, à Saúde e Direitos Reprodutivos, para que possam desenvolver uma relação de gênero mais consciente, mais democrática baseada no conceito sobre sexualidade, conceitos que foram perdidos ao longo da colonização e neo-colonização. Nesse processo, novos conceitos dominantes e opressores foram impostos à relação de gênero que necessitam ser mudados. Homens e mulheres devem desafiar as relações desiguais de poder não só no campo da ação, como organizativo e institucional, objetivando a justiça social de gênero. O fortalecimento do poder das mulheres indígenas deve ser promovido dentro das organizações indígenas para que todos, principalmente os homens, possam ter mais clareza sobre suas atitudes, comportamentos,responsabilidades e empenhos.
A participação política das mulheres indígenas está muito aquém ainda, justamente por razões culturais. Sabemos que na colonização portuguesa os homens, para defenderem suas mulheres e crianças, as colocavam na retaguarda comunal, e lá esse segmento ficou até hoje. É preciso resgatar a funcionalidade inicial das mulheres indígenas adotada antes do processo colonial. Ela tinha a decisão sobre problemas políticos, decisão sobre as assembléias, era venerada e tinha a última palavra. Quando os homens não suportaram mais ver suas mulheres escravizadas, decidiram pelo suicídio em massa de um povo, numa tentativa de se posicionarem contra essa escravidão e colonização. Tratava-se de um ato de protesto onde todos eram atirados de cima de um penhasco! A solidão e o sofrimento das mulheres indígenas começaram com a migração, por ação violenta perpetrada contra os seus povos. Marina , esposa de Sepé Tiaraju, em 1756, ao ter seu marido assassinado pelos estrangeiros, iniciou sua caminhada sozinha. Assim muitas mulheres indígenas, como a esposa de Galdino, de Marçal Tupã-y, a esposa de Hibes Menino, a esposa de Ângelo Kretã e muitas outras esposas anônimas, guerreiras como nossas avós e mães potiguaras que vem construindo e dando continuidade à cultura indígena, seja nas aldeias ou empurradas, violentadas para o lixo da sociedade envolvente, porque elas, pobres, analfabetas, indígenas, nortistas ou nordestinas só encontrariam espaço de sobrevivência nesse lixo e na miséria. É uma grande vitória, a daquelas que conseguiram criar seus filhos e fazê-los dignos.
As mulheres foram alvo de perseguição masculina no processo de colonização. Elas eram arrancadas do seio de seu povo para servirem de concubina e escravas aos estrangeiros. Um desesperado líder indígena Kaiapó, do Pará, atualmente contou que sua jovem esposa havia partido com um homem branco, abandonando a família . Ela, anestesiada em sua consciência por ação neocolonizadora, queria os coloridos das cidades, os bens de consumo alheios à cultura indígena. Ela tem culpa? Não.
A responsabilidade é da política integracionista que paternalizou os povos indígenas até hoje. Mas, quando nosso movimento pela conscientização do papel inicial da mulher indígena começou a causar polêmicas a partir de 1986, houve resistência de todos os lados.
Continua no próximo post.
Comentários (1):
Em 25/02/2005, às 13:26:41,
helayne
disse:
mãe vc ficou lindona como sempre te amo muito...