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Categoria: Adulto
Postado por ellegua.com em 23/12/2007 21:09

>>> O candomblé da Bahia na década de 1930 <<<
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>> 9a. PARTE

Não se percebe, aí, a possibilidade do "salto de gerações" ou da "simplificação seletiva", comuns na evocação das genealogias históricas não documentadas. Certos que algumas perguntas ficam, aqui, sem resposta. Mas os claros da cadeia de informações se explicam como "as coisas de que não se deve falar" e são tratadas nos candomblés sempre com reserva e discrição.

Iniciada, muito cedo, Aninha, depois dos estágios rituais e pela sua já reconhecida capacidade de liderança, e ainda com o apoio de velhos tios e tias a quem se ligara, começou sua vida de sacerdotisa, de ialorixá. Com pouco mais de trinta anos já iniciava, com a ajuda de Bamboxê, seu babalaô, sua primeira filha-de-santo, no Engenho Velho. Desse período da vida de Aninha, a melhor fonte escrita é, certamente, o livro Axé Opô Afonjá, já referido, de Deoscóredes Maximiliano dos Santos, único filho da falecida ialorixá Senhora, Maria Bibiana do Espírito Santo, portanto, "neto" de Aninha, a quem, de resto chamava, devidamente, de "minha avó". Didi, como é tratado por toda a gente, conheceu Aninha desde menino e cresceu na intimidade do terreiro de São Gonçalo, onde sua mãe, Senhora, ao tempo de Aninha, tinha o posto de Ossi Dagã.

O livro foi baseado nas lembranças pessoais do autor e nas informações acumuladas e recorrentes, de sua mãe Senhora e de outras tantas ebomes da casa, irmãs e filha-de-santo de Aninha, que lhe transmitiram datas, fatos e histórias dos primeiros tempos de sua "avó". Tudo isto, é claro, com as naturais reservas de episódios e impressões que toda liderança forte e duradoura provoca no plano dos conflitos intragrupais, das restrições pessoais e das "pequenas histórias" que o candomblé, como todo grupo organizado, apresenta na sua dinâmica cotidiana. Um exemplo característico dessa atitude - da discrição, a que me referi acima, e da redução eufemística de fatos que melhor seriam esquecidos, é a maneira como D.M. Santos se refere, no seu livro, à saída de Aninha, do Engenho Velho:

Daí aconteceram certos desentendimentos lá pelo Engenho Velho. Aninha reuniu então todo o seu pessoal e foi para uma roça do Rio Vermelho chamada "Camarão", onde funcionava o terreiro de tio Joaquim Vieira (Oba Sãiyá), filho de Xangô, conhecido também como Essa Oburô, um dos maiores conhecedores das seitas africanas na época, e que era amigo inseparável de tio Bamboxê.

D. M. Santos refere-se, ainda, no capítulo "Os primeiros tempos do Axé", à movimentada vida religiosa de Aninha, nesse período de formação e afirmação sacerdotal: aos primeiros filhos-de-santo que fez, com a ajuda de velhos tios e tias ligadas ao Engenho Velho, que eram, de certa forma, seus parentes-de-santo, especialmente Bamboxê Obiticô, um dos oficiantes de sua iniciação; bem como às transferências de seu terreiro, do Camarão, no Rio Vermelho, para o alto da Santa Cruz, àquela época, nesse mesmo bairro, hoje, em Amaralina, e à mudança definitiva, em 1910, para a roça do Ano de São Gonçalo do Retiro.

Ali fundou Aninha o seu terreiro, a casa de Xangô Afonjá, com Tio Joaquim, seu amigo e, de certa maneira, irmão-de-santo, que morreria pouco depois em 8 de setembro de 1910, deixando na Casa sua mulher Isidora. Em São Gonçalo, Aninha, uma mãe-de-santo jovem para os padrões da época - aos quarenta e um anos de idade, já era conhecida e respeitada por todos. Em 1911, conta D. M. Santos

[...] Iyá Obá Biyi já estava com 23 pessoas iniciadas por suas mãos (sem contar com as que foram iniciadas em casas particulares e outras dentro do Axé, cujos nomes não chegaram ao conhecido público por motivo ignorado) e vinte homens entre Alabês, Axoguns, Ogans etc. Existia também grande quantidade de pessoas sem posto na casa, que faziam parte e acompanhavam todo o ritual do Axé.



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