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Postado por ellegua.com em 11/03/2008 02:52
>>> O candomblé da Bahia na década de 1930 <<<
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14a. PARTE
No dia 3 de janeiro de 1938, às nove horas, Iyá Obá Biyi reconheceu a hora da morte, uma vez que, devido aos seus conhecimentos, estava ciente do seu fim e tinha até roupas preparadas para o enterro.Chamou, então, seu neto,o Assobá (eu próprio),o Obá Aré, Miguel A de Santana e a Ossi Dagan, Senhora. Chegaram imediatamente e se apresentaram ao lado da cama onde ela se encontrava, em um quarto da atual casa de Ossanhe.Iyá Obá Biyi (Mãe Aninha),já com a fala um pouco incompreensível disse: "Obá Aré, Obá Abiodun fica como Presidente da Sociedade,e você eu quero que fique ao lado de Ossi Dagan, Iessé orixá (nos pés do Santo)"
Logo em seguida, ela virou língua e falou em iorubá, dizendo algumas coisas que nenhum deles entendeu.Então ela disse: "Não sabem o que perderam".Foi então que ela pediu para ser levada para a casa de Iá,onde faleceu às três horas da tarde.Quanto às últimas palavras ditas por Aninha, na língua sagrada de sua nação-de-santo - e que as pessoas que a assistiam não puderam entender - foram a derradeira afirmação de seu poder,de sua autoridade no terreiro que criara e onde reinara de modo absoluto.
O corpo de Aninha foi transferido,à noite, para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no Pelourinho, de onde sairia o cortejo fúnebre,no dia seguinte 4 de janeiro, no começo da tarde, em direção ao Cemitério das Quintas dos Lázaros. Édison Carneiro e D. M. Santos (Didi) deixaram precisas descrições do sepultamento de Aninha. E o Estado da Bahia de 5 de janeiro publicou sobre o mesmo uma ampla matéria, em cinco colunas e com três fotografias.Segundo a mesma, mais de duas mil pessoas compareceram e acompanharam a pé, o cortejo,até as Quintas; o comércio das imediações da Igreja do Rosário no Taboão e na Baixa dos Sapateiros, cerrou suas portas em homenagem a Aninha, muito querida e respeitada na área e dela moradora,por longos anos em casa vizinha à Igreja onde foi velado o seu corpo.
Diz ainda a reportagem, que "o Cônego Assis Curvelo, na capela do cemitério, fez a encomendação do corpo,seguindo-se o sepultamento em cova recém-aberta".Falaram na ocasião, vários oradores, entre estes o Sr. Álvaro MacDowell de Oliveira,em nome da União das Seitas Afro-Brasileiras da Bahia o escritor Édison Carneiro, além de representantes do Centro Cruz Santa e da Irmandade do Rosário. Por fim, terminada a cerimônia, duas marinettis levaram grande número de amigos de Aninha para São Gonçalo,a fim de tomar parte nas cerimônias fúnebres preparatórias do axexê da querida mãe-de-santo" Devendo-se assinalar aqui, o fato de entre os oradores, por ocasião do seu sepultamento,haver também estado o velho amigo e irmão Martiniano do Bonfim.
As figuras de Martiniano e Aninha sobressaem, assim documentadas fartamente até certo ponto mitificadas pela lembrança coletiva das comunidades dos candomblés.
Por sua vez, D. M. Santos, no capítulo "Morte e sucessão de Aninha", do seu livro Axé Opô Afonjá,depois de contar, com pormenores,todas as cadências do enterro da ialorixá, incluindo mesmo certas obrigações rituais do candomblé, conclui:
Assim foi sepultada Iyá Obá Biyi, Eugênia Ana dos Santos, conhecida por Mãe Aninha, com as formalidades de praxe dentro da religião católica e do culto afro-brasileiro.Repousa, atualmente, num belo mausoléu oferecido pela Sociedade Beneficente Cruz Santa Opô Afonjá.
Define este último trecho as relações de Aninha com a Igreja Católica de cujos ritos e sacramentos ela participava com devoção:uma coexistência doutrinária e ritualística,sem maiores conflitos em sínteses de caráter teológico, que era esta, afinal, a atitude dominante nas antigas mães-de-santo da Bahia,que sabiam conciliar as duas tradições religiosas para além das contradições dos dois sistemas.Aninha, a poderosa Mãe de Terreiro do Opô Afonjá era, também,Priora das Irmandades do Senhor Bom Jesus dos Martírios e de Nossa Senhora do Rosário e Provedora Perpétua de Nossa Senhora da Boa Morte da Barroquinha.
====CONTINUA
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