Terra Terra Fotolog
* Página do Elleguá *

Categoria: Adulto
Postado por ellegua.com em 20/06/2008 21:41

>>> A FUNDAÇÃO DO TERREIRO DO ALAKETO <<<
>>>
>>
3a, PARTE

Estas explanações mais gerais podem ser proveitosamente complementadas com o simbolismo dos números 6 e 16 na área cultural de onde vieram os fundadores do Alaketo. Bernard Maupoil, na sua obra de referência sobre o oráculo de Ifá, salientou a “excelência” ou a “eminência” do número seis na cultura jeje-nagô: “O número seis, já
vimos, é perfeito. Quando se contam as nozes [do Ifá] dizendo b• lu, b• y, b• cE, contam-se seis por seis [...] Seis evoca a idéia de equilíbrio, de paralelismo, de articulação [...] Encontramos freqüentemente esta concepção de seis como sendo a cifra perfeita”. Ou, em outra fórmula, “o número simples e perfeito”; em oposição, por exemplo, ao imperfeito número nove, símbolo de desperdício de energia.

5 Por outro lado, dezesseis também é um número sumamente importante no simbolismo jeje-nagô. Foram dezesseis os companheiros de Odudua que fundaram a nação iorubá em Ifé, dezesseis também é o número dos orixás mais importantes do panteão nagô- iorubá, sendo igualmente o número dos grandes signos do oráculo de Ifá, que regia, naquele período histórico, tanto a vida ritual e política, quanto a vida cotidiana do povo daquela área cultural.

6 No projeto estratégico de defesa do império de Oyó, o maior e mais poderoso de todos os Estados iorubás, o território era dividido em quatro “cantos”, cada um responsável pela segurança da sua área, um em cada ponto cardeal, os quais, por sua vez, subdividiam-se em outros quatro, perfazendo dezesseis, o número da estabilidade política. Neste contexto intelectual, por conseguinte, a contradição entre “seiscentos anos”, “1616” e “1636”, não tem grande peso, pouco importa.

5 Bernard Maupoil, La géomancie à l’ancienne Côte des Esclaves, Paris, Institut d’Ethnologie, 1981 (orig. 1936), pp. 367-369 e 475. B• lu, b• y, b• cE, conforme as convenções do Alfabeto Fonético Internacional.

6 A expressão “nagô-iorubá” vem sendo usada na literatura antropológica como se fosse uma evidência, mas exige explicação. No final do século XIX, com a divisão da África pelas potências ocidentais, o território iorubá foi dividido ao meio, ficando a maior parte na Nigéria, sob dominação inglesa, e a menor parte na atual república do Benin, sob dominação francesa, sendo os primeiros, a partir de então, chamados de iorubás, e os últimos chamados de nagôs. A expressão nagô-iorubá, introduzida no Brasil por Pierre Verger, é principalmente usada pelos franceses para designar a etnia como um todo e, embora não totalmente satisfatória, por falta de melhor será adotada neste artigo.

No Brasil escravocrata, o termo nagô designava a etnia como um todo. Uma explanação sobre a gênese dos termos iorubá, nagô e anagô pode ser encontrada em Pierre Verger, Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo, São Paulo, Corrupio/Círculo do Livro, 1981, pp. 12-15. Afro-Ásia, 29/30 (2003), 345-379 349 tando que nessas datas ainda não existissem nagôs de Ketu no Brasil, e mesmo, no primeiro caso, nem sequer Brasil. O que é valorizado aqui é que 1616 é composto por dois números 16, e a soma dos algarismos que compõem a data de 1636 é dezesseis. O depoimento de 1981 ao CEAO — Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia — segue mais radicalmente ainda esta lógica, pois a fundação do Alaketo teria acontecido em 1616 e as meninas teriam voltado à África aos 16 anos.

Dona Olga conta inclusive, em outra entrevista, que foi iniciada para Iansã aos 16 anos, em 1940, quando, na verdade, tinha quinze, nascida que fora em 1925, mas o fez justamente porque o número 16 é um foco de energia, atrai.7 Creio portanto que essas datas, antes de evocarem uma cronologia exata, documentada, para retomar a expressão usada por Costa Lima, representam, além naturalmente da valorizada idéia de antiguidade, a idéia de projeto perfeito, oportuno, de adequada adaptação aos princípios religiosos e aos fundamentos da tradição jeje-nagô.



=========


CONTINUA >>>>>>



Comentários (0):

Apenas usuários que estão nos favoritos deste fotolog podem comentá-lo. Se você está na lista, identifique-se abaixo:
Username:
Senha: