ENCICLOPÉDIA NORDESTE
Categoria: Celebridades

Postado por Ivan Maurício em 19/10/2007 12:19
MARIA BETHÂNIA (1)
Em 1966, ela era a baiana que saiu de Santo Amaro da Purificação e foi ao Rio de Janeiro substituir Nara Leão no show Opinião. Em 2005, comemorava 60 anos de vida e tantas décadas de carreira de braços abertos para o público em Salvador, na mesma Bahia onde nascera e aprendera a cantarolar. "Ela sempre dizia que ia ser artista. Sempre. Mas na escola não deixavam ela cantar no coral, porque achavam a voz dela muito grave", revela dona Canô, a mãe. "E hoje todo mundo gosta dessa voz". Pois é: o mito se constrói em cima de contradições também. E das imagens que resgatam dois instantes específicos da carreira de Maria Bethânia; lançado agora pela Biscoito Fino, um DVD duplo traz Pedrinha de aruanda - Maria Bethânia, documentário de Andrucha Waddington feito em 2006, e Bethânia bem de perto - A propósito de um show, de Eduardo Escorel e Júlio Bressane, registrado em 1966.
As quatro décadas que separam os dois retratos de Maria Bethânia servem para perceber como a tímida baiana dos anos 60, à vontade em casa com oirmão Caetano, a amiga Rosinha de Valença, com sotaque nítido e acentuado e um sorriso cativante, já carregava uma força que extravazava no palco. E já dialogava bem com a câmera, com a perspectiva de se deixar invadir por uma lente que a acompanhava de perto. Escorel e Bressane (o primeiro é um montador e pesquisador famoso, o segundo é um dos mais seminais cineastas brasileiros) optam por permanecer com Bethânia em foco na sala, no camarim, num passeio pelas ruas de um Rio de Janeiro que não existe mais. O preto e branco reafirma um certo tom saudosista, que, no entanto, não contamina o média-metragem.
E a razão é a própria Bethânia e o fato de que, hoje, ela é o mito, ou a entidade, como preferem outros, que é. Naquela época, já era decidida. Reclamava, por exemplo, porque as pessoas só queriam que ela cantasse Carcará. As imagens interessam, têm uma conotação antropológica, fazem o espectador querer saber como era a mulher que, já em Pedrinha de aruanda, é uma confluência de rituais, de estilos musicaisque canta com o mesmo fervor, da herança melódica da mãe, com quem canta ao lado de Caetano, e do desejo de ser "artista" desde garota. O som e os negativos de Bethânia bem de perto foram submetidos a um tratamento que erradicou as impurezas do tempo; o apuro técnico de Pedrinha de aruanda é percebido desde a primeira seqüência, quando ela aparece no camarim, tira as sandálias para entrar no palco onde se apresentará depois e, horas mais tarde, é recebida com entusiamos pelos soteropolitanos ao cantar Gita, de Raul Seixas.
Em 1966, ela é o objeto que Escorel e Bressane cortejam com a câmera; em 2005, ela é quem conduz Andrucha Waddington. A atmosfera de flagrante que havia no primeiro filme desaparece no segundo. A intimidade está lá, sim, mas os rituais de Bethânia não mais parecem indevassáveis. Afinal, nessas quatro décadas, ela se transformou numa grande intérprete, talvez a maior intérprete do país. Pedrinha de aruanda soa menos como o documentário que Andrucha queria fazer e mais como aquilo que Maria Bethânia queria ver na tela. Mas há espaço para momentos de muita ternura, tanto quando ela canta em cima do dedilhado do violonista Jaime Alem (Motriz, por exemplo), como ao comandar um sarau com Caetano, dona Canô, sobrinhos e amigos, lembrando as canções que a eternecem, como Felicidade e Gente humilde.
Serviço
Bethânia bem de perto - A propósito de um show, de Eduardo Escorel e Júlio Bressane (1966, 34'), e Pedrinha de aruanda, de Andrucha Waddington (2006, 60'). Biscoito Fino.
Quanto: R$ 54
(preço médio)
http://www.pernambuco.com/diario/2007/10/19/viver1_0.asp
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