ENCICLOPÉDIA NORDESTE
Categoria: Celebridades

Postado por Ivan Maurício em 27/11/2007 11:36
FRANCISCO JULIÃO (2)
FRANCISCO JULIÃO E A ORIGEM DAS LIGAS CAMPONESAS
ENTREVISTA AO JORNALISTA GONDIM DA FONSECA PUBLICADA NO LIVRO “ASSIM FALOU JULIÃO...”, EDITORA FULGOR, 1962:
GONDIM DA FONSECA - Como é que você imaginou a fundação das Ligas Camponesas?
JULIÃO – Eu não imaginei nada, Gondim. Não fundei as Ligas Camponesas. (...) Trata-se de uma distorção da realidade. O primeiro organismo desse gênero surgiu na região de maior densidade demográfica de Pernambuco- densidade superior à de vários países europeus - na zona úmida. Jesus Cristo era galileu. Pois bem: ele brotou na Galiléia, no município de Vitória de Santo Antão.
GF – Com caráter revolucionário?
JULIÃO – Nada disso. Eu lhe conto, Gondim. Dois problemas preocupavam, entre outros, os camponeses da Galiléia: obtenção de uma escola primária e de um cemitério... Queriam seus filhos alfabetizados e desejavam que, ao menos depois de mortos, repousassem decentemente. Então, fundaram ali, no dia primeiro de janeiro de 1955, a “Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco” com sede e fôro no Recife e jurisdição em todo Estado. Cumpre observar que os camponeses são muito honestos e muito apegados às coisas legais. Elaboraram um estatuto, nomearam tesoureiro para receber contribuições (destinadas precipuamente à fundação de uma escola e de um cemitério) e elegeram como presidente o dono da propriedade, sr. Arruda Beltrão. (...) Mal souberam disso, os vizinhos latifundiários e a turma “cristã e conservadora” de Pernambuco entraram a azoiná-lo, pretendendo convencê-lo de que caíra num “golpe comunista”. Beltrão acabou mesmo convencido e bufou raivoso querendo desfazer a sociedade. Mas aí os camponeses se ergueram. Tinham o Estatuto nas mãos. O tal do Código Civil. Código Civil! Aquilo era sério! Principiou o entrevero.
GF – Eu ignorava tudo isso...
JULIÃO – Pois foi assim. Ora, convirá lembrar que se haviam fundado, anteriormente, umas ligas de assalariados da terra, logo pulverizadas, desaparecidas, sob o fogo das cruzadas anti-comunistas. “Desafio à Civilização Ocidental!”, “Desrespeito à Família Cristã!”. Você sabe como os reacionários agem. Ora, diante da rixa travada entre os camponeses e Beltrão, o “Diário de Pernambuco”, para queimar a Sociedade Agrícola e Pecuária estabelecida na Galiléia, principiou a combatê-la, hidrófobo, apelidando-a de nova “liga camponesa”. O apelido pegou. Foram eles, os agentes pagos pelo latifúndio, que criaram as “ligas camponesas” atuais. Não eu. Beltrão mostrava-se possesso. Colérico. Havia fundados receios entre os seus íntimos que acabasse explodindo algum dia, como bomba, no meio da rua. Determinou aos camponeses o abandono de suas terras. Eles não o atenderam. Procuraram o general Cordeiro de Farias, odioso reacionário, e pediram-lhe proteção. Cordeiro, então governador do Estado, repulsava tudo quanto lhe cheirasse a progresso social. Mandou sacudir os camponeses para fora do palácio e abriu o verbo, condenando aquela atitude “sediciosa”. Resignados, mas firmes, eles procuraram a Assembléia Legislativa e ali os aconselharam a ajustar um advogado, pois se tratava de caso jurídico. Fui eu esse advogado. Eis como me envolvi na questão...
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