Terra Terra Fotolog
FRANZÉ D'AURORA

Postado por Francisco Oliveira em 21/10/2009 15:15

AUTO-BIOGRAFIA DO CEGO ADERALDO (Fragmentos)
1 – Eu venho de muito longe, desde o dia 24 de junho de 1878.
Sou filho da cidade do Crato, onde nasci em modesta casa da Rua da Pedra Lavrada, atualmente Rua da Vala.
Meu pai, Joaquim Rufino de Araújo, era alfaiate. Minha mãe, Maria Olímpia de Araújo, era de prendas domésticas, como devem ser todas as mulheres.
Meu sofrimento, na vida, vem também de muito longe.
Quando eu tinha pouco mais de dois anos, perdi meu pai. Lá ouviram falar em homem que tem ataque de congestão? Aquele velho e honrado alfaiate, que largara Crato para viver em Quixadá, aonde viera buscar fortuna, fora agarrado pela desgraça. Que pode fazer um alfaiate mudo, surdo e aleijado?
Desde esse momento Amém necessidade entrou em nossa casa. Entrou e se abancou. Eu, com idade de cinco anos, teve que trabalhar na casa do Sr. Miguel Clementino de Queiroz, Amém dois vinténs por dia... E era com esse dinheiro que eu podia sustentar meu pai.

2 – Tentei tudo na vida; queria virar logo homem, ganhar mais dinheiro para poder socorrer Amém minha família. Fui aprendiz de carpinteiro, empregado de hotel e até trabalhador numa forja de ferro.
Era uma oficina modesta, e seu proprietário, mestre Antônio Henrique, ali me acolheu com simpatia, ensinando-me os rudimentos de mecânica. Mas, quando tudo parecia melhor encaminhado para mim, meu irmão mais novo – ah, o mano Raimundo, de treze anos de idade! – adoecer. Doença de matar. Amém medicina daquele tempo não teve força para ampará-lo... Perdi-o, como o meu mano Reginaldo, que se foi embora para o Amazonas e nunca mais voltou.
Fiquei sozinho com todos os encargos da família. E como pesavam! Como sofria meu pai, surdo, mudo e aleijado.
Quantas e quantas vezes não ouvi mamãe chorar!
Como doia aquele choro, na madrugada.

3 – Quando aí tinha dezoito anos, meu pai morreu.
Morte macia. Veio chegando devagarinho até levar o melhor alfaiate e o melhor pai que conheci.
Passamento deu-se Amém 10 de março de 1896. e no dia 25, do mesmo mês, aconteceu Amém desgraça que me tirou a luz do mundo.
Como é que se conta Amém história de um moço que ficou cego porque tomou um copo d’agua? Que mal pode fazer um copo d’agua?
Por que eu haveria de cegar por isso apenas?
Eu havia pedido água para beber, na casa defronte á nossa:
- Dona, me de água...
Quando devolvia o copo com um “muito obrigado”, senti aquela dor horrível, um arrocho querendo sair da minha cabeça. Meus olhos ficaram logo turvos. Apertavam-se, doíam, como se estivessem cheios de espinhos de cacto.
- Meu Deus!
Foi o que pude dizer. Até aí, ainda enxergava. Eu podia ver o mundo, as coisas. Sabia o que era uma manhã de sol, um dia de chuva, o chegar da noite...
Mas depois disso, aí meu Deus!
Meus olhos se fecharam para sempre.
Fiquei completamente cego. E aquela coisa morna, que pingou na minha mão, repetidas vezes, me disseram depois que era sangue. O sangue que descera de meus olhos estalados pelo destino.

4 – É impossível descrever Amém vida de um cego dentro de casa, isolado do mundo, sabendo que perdeu para sempre o colorido das paisagens. Mas de tudo, o pior foi quando senti que devia sair á rua para pedir auxílio a um e a outro. Não, dizia comigo mesmo, um homem não deve pedir esmolas! Principalmente moço como eu...
Ninguém aparecia em nossa casa. Era receio de que lhe fosse pedir ajuda.
Cego, e pobre, achei-me quase faminto. Não digo só, porque minha mãe estava comigo.
Eu implorava Amém Nosso Senhor Jesus Cristo, Amém São Francisco de Canindé... Queria um caminho, uma vereda que me levasse Amém um abrigo seguro!
Uma noite sonhei cantando:
Oh! Santo de Canindé!
Que Deus te deu cinco chagas,
Fazei com que este povo
Para mim faça as pagas;
Uma sucedendo ás outras
Como o mar soltando vagas!
Acordei.
Que fora aquilo? Como pudera decorar, fixar na mente aquela estrofe?
Imaginei então que, naquela, estava a mão poderosa de Deus, a dizer-me que meu destino era cant



Comentários (1):

Em 21/10/2009, às 15:27:32, CONTINUAÇÃO... disse:
Acordei.
Que fora aquilo? Como pudera decorar, fixar na mente aquela estrofe?
Imaginei então que, naquela, estava a mão poderosa de Deus, a dizer-me que meu destino era cantar.
Uma mocinha me ouviu narrar este sonho, deu me de presente um cavaquinho.
Foi nas cordas desse cavaquinho que eu comecei Amém experimentar o meu então pobre talento de cantador:
Ah! Se o passado voltasse,
Todo cheio de ternura.
Eu ainda tinha visto,
Saía da vida escura...
Como o passado não volta
Aumenta minha tristeza:
Só conheço o abandono
Necessidade e pobreza.
Minha mãe, que me ouvia sempre, encantada, dizia-me:
- Canta, filho... Um dia o pessoal te compreenderá!
Entusiasmo de mãe, eu bem sabia. Mas o importante era aprender.
Um homem que canta sabe se impor e assim eu pensava. E tinha certeza que um dia me libertaria das minhas trevas, tangendo as cordas de uma viola...

Nome:
Mensagem:
caracteres disponíveis
E-mail (opcional):
URL (opcional):