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Categoria: Negócios
Postado por Gilson Schwartz em 20/10/2008 12:23

O reino dos consumidores
Há poucas semanas, um doido armado com faca atacou vários cidadãos em plena luz do dia em Tóquio. Em São Paulo, mobilizando novamente o país numa onda de sensacionalismo em torno da violência, morre uma adolescente sequestrada pelo ex-namorado. Nos EUA, nos países nórdicos, adolescentes em armas entram disparando em escolas, matando professores e colegas.

Há algo de podre no Reino dos Consumidores. Especialistas de várias formações são chamados para preencher páginas e páginas de sensacionalismo entremeadas por ofertas, econômicas e políticas, de um mundo melhor.

A crise financeira global e a recessão em curso não modificam, apenas aprofundam o desespero ético em que chafurda a humanidade.

Hoje passei em Tóquio, em Shibuya, por uma das milhares de lojinhas incrustradas no subterrâneo da maior metrópole do planeta. Alguns milhões de adolescentes cruzam a mais famosa esquina da cidade mais carregada de mídia e apelo ao consumo da história do capitalismo.

Tudo isso gera empregos, renda, poupança e investimento, dirão talvez alguns leitores da obra "freakonomics" que, diante do vazio planetário de valores comuns sustentáveis, tudo justificam pela lógica da economia.

Mas se a economia não funciona, que "lógica" é essa que leva apenas à frustração, ao medo e à morte de si mesmo no desespero de acabar com o Outro?

Já não gritam mais pelas ruas que "um outro capitalismo é possível". Mas dentro do próprio capitalismo não há outro, o Outro, apenas a repetição da Morte empacotada para viagem, para presente ou para consumir no próprio local da compra.

A lojinha em Tóquio, um pixel a mais nos bilhões de mensagens que circulam na hiperdigitalizada população urbana japonesa, funciona como uma espécie de altar ao círculo vicioso de uma economia que não gera valores, apenas "rankings".

"Ranking, ranqueen" é um estabelecimento que seleciona e muda, toda semana, os produtos (tipo R$ 1,99) mais procurados pelos consumidores. Mas eles são mais procurados porque são os que mais vendem ou são os que mais vendem porque nos dizem que são os mais procurados?

A juventude (principalmente mocinhas) japonesas que entram e saem freneticamente dessa loja, como os investidores que acompanhavam "racionalmente" o ranking de empresas, bancos, países produzidos por agências que vivem do próprio movimento, sabe muito pouco do que faz, pois gozam ao se suicidarem como cidadãs. Curiosa mistura de hiperconsumismo e tradição kamikaze no templo do novo capitalismo global.

Os trens chegam na hora. Alguns policiais agora circulam, tentando adivinhar quem será o próximo adolescente a pular no pescoço do seu próximo para tirar-lhe a vida. Nesse reino de consumidores, o gozo é procurado com recorrência infinita, sem que nunca se saiba exatamente qual o sujeito e qual o objeto desses desejos, manipulados pelos ícones que ordenam, em prateleiras coloridas, os produtos mais consumidos pelos "outros", outros que são eu mesmo, reduzido agora a uma miragem num espelho quebrado.

Há uma lógica nesse circuito de acumulação de capitais e gozos fictícios. Mas é uma lógica da morte, da fustração e do medo, no mínimo o medo de estar consumindo algo que já saiu da moda ou comprando uma ação na Bolsa que ninguém mais vai querer.

Valores? No reino dos consumidores, vale mais quem pensa menos, lógica suicida que de tempos em tempos vira desemprego, desespero e terror, diante da angústia de não saber onde está o próprio desejo.



Comentários (8):

Em 20/10/2008, às 16:39:19, Ricardo Silva disse:
A cada dia que passa percebe-se claramente que o ser humano se "enrolou no cabelo das pernas". Criamos um "bando" de coisas materiais e só nos encalacramos. Vire e mexe e o planeta está pior e o dia a dia uma b. Tenho 59 anos e, sempre materialista, fui confrontar um Livro antigo que sempre olhei de soslaio. O nome do Livro? E a Bíblia tinha razão...não me lembro mais o autor, mas as respostas estão lá.TODAS.
Em 21/10/2008, às 00:38:27, thais | e-mail disse:
pois é Gilson, o mundo com olhos, corações e mentes grudados nas listas dos 10+ que alimentam a profunda insatisfação da falta - não aquela que sustenta o desejo, mas a que empurra para uma inatingível tentativa não só de ter a griffe da vez, mas de estar na melhor posição - sobretudo, parecer/mostrar que está lá: gente sendo "rankeada" de maneira institucionalizada (nas empresas,
nas escolas...e por aí vai)
Em 21/10/2008, às 10:25:31, Leandro Sartori Molino | e-mail disse:
Apregoar que o capitalismo chegou ao seu limite pode, em parte, ser correto. Contudo, jamais podemos esquecer da nossa natureza humana, errante e sempre aflita, em busca do "novo" ou de algo que traga significância às nossas vidas. O Capitalismo tornou-se um mito. E como todo ícone mitológico, consagrou inúmeros admiradores e outros tantos críticos. Segundo creio, o problema não se encontra no Capitalismo ou no Socialismo. Todos somos vendedores e compradores. O cerne da atual questão guarda estreitíssima relação com um fato inexorável: os Tempos, hoje, são outros; e o "capitalismo de mercado", assim como o "socialismo utópico" não encontra mais guarida no atual palco social. Há duas semanas, escrevi aqui, em meus comentários, que Sarkozy poderia propor algo de "diferente", que fosse capaz de transformar o atual sistema capitalista. Hoje, com surpresa, me deparo com notícias exatamente nesse sentido. O Iluminismo francês até hoje repercute Mundo afora. E embasado nesse fato, Sarkozy, também como Presidente da UE, ousa afirmar ser necessário um novo "modelo capitalista". Acredito, e reafirmo, que o que necessita mudar não é a nomenclatura do sistema, mas sim seus métodos, valores. Não é possível que em pleno Séc. XXI pessoas morram de fome. Exagero na questão? Sim. Mas é um demonstrativo de alguns dos absurdos que ainda preponderam em razão de um sistema pouco eficaz e quase nada inteligente de gestão do Planeta e, mais, das vidas de seus habitantes. É utópico imaginarmos riqueza para todos. Mas é útópico imaginarmos riqueza cultural, Judiciários efetivos, educação e saúde de qualidade, condições sanitárias, moradia minimamente digna e ecologicamente adequada para todos os habitantes do Globo? Não é. Dinheiro há para isso. E se associarmos essas "conquistas" (que absurdo...) a uma mínima renda, conquistada pelo Trabalho, e não pelo "Bolsa-Sei-Lá-O-Quê", expandiríamos ainda mais o "mercado consumidor", ensinando, ainda, sobre o valor, a ética do Trabalho, do esforço.
Em 21/10/2008, às 18:16:49, Diego Remus | página pessoal | e-mail disse:
Concordo que isso é um ciclo vicioso. Entretanto, bem além disso, creio que um ciclo virtuoso de conhecimento e cidadania pode ser avivado, impulsionado e mantido - a exemplo dos Arranjos Criativos Locais. Gilson, cheguei ao seu perfil no LinkedIn de forma meio "serendipity", e gostei muito dos dois links encontrados lá (o da Cidade do Conhecimento e este aqui). Vou passar a acompanhar e participar, porque vivo valores parecidos. A propósito, estou montando uma base de dados e um blog para "ativar a ciberdemocracia" (digamos). Www.ciclovirtuoso.blogspot.com e http://sites.google.com/site/ciclovirtuoso. Fico feliz se pudermos interagir. Abraços e parabéns pelas duas iniciativas!
Em 21/10/2008, às 19:27:50, hidden disse:
quando o seromano decidir por reverter seu conhecimento (e o poder + $$$ dele derivado) para melhorar a qualidade de vida do seromano... BINGO !!!

ai estamos prontos pra virar bichos...rsrsrs

George Orwell e Darwin e que estavam certos, o ser humano é uma equação insolúvel (ou seria insolvivel)???

aver
Em 22/10/2008, às 10:59:00, Maurente_ADM | e-mail disse:
Os gurus do mundo dos negócios dizem que "na crise, está a oportunidade", muito bem, possivelmente com a falta de bom senso generalizada em meio a essa crise, essas manchetes fatalistas estão vendendo muito jornal, páginas e mais páginas de sangue vivo, fresquinho para o deleite dos consumidores, cujas mentes não veem o genocídio e nas guerras em torno do globo como notícia nova. Esperamos que a quebradeira generalizada não produza tantos orfãos...
Em 24/10/2008, às 08:01:20, d'affonseca, herval | e-mail disse:
Caro Economista. Mas do que critica, queria, se puder, duas respostas por e-mail: uma sobre acoes e suas divisoes e a questao do voto. A segunda pergunta, por exemplo: Os problemas do Wachovia têm boa parte de sua origem na aquisição da companhia hipotecária Golden West Financial em 2006, por cerca de US$ 25 bilhões, para onde vai este $.
Em 25/10/2008, às 14:17:07, Rodrigo | página pessoal | e-mail disse:
O mundo sempre passou por diversos acontecimentos que mexeram com a sociedade com um todo. Acho que a única coisa que podemos fazer é buscar a face de Deus, procurar aprender com ele, sobre o que é melhor para nossas vidas e acima de tudo o que é melhor para o nosso próximo, estamos caminhando a passos largos para o fim trágico de uma geração que só pensa em si mesmo e odeia quem está do seu lado.
Consumir, Consumir, Consumir,
esse capitalismo que influencia o consumismo está gerando pessoas cada vez mais egoístas e sem coração.
Que Deus tenha compaixao de todos nós, por que nós mesmos somos os culpados
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