
Postado por Ivan Maurício em 22/04/2008 13:05
A MULA DE PADRE POR ASCENSO FERREIRA
Um dia no engenho,
Já tarde da noite
Que estava tão preta
Como carvão...
A gente falava de assombração:
— O avô de Zé Pinga-Fogo
Amanheceu morto na mata
Com o peito varado
Pela canela do Pé-de-Espeto!
— O cachorro de Brabo Manso
Levou, sexta-feira passada,
Uma surra das caiporas!
— A Mula de Padre quis beber o sangue
Da mulher de Chico Lolão...
Na noite preta como carvão
A gente falava de assombração!
Lá em baixo a almanjarra,
A rara almanjarra,
Gemia e rangia
Oue o Engenho Alegria
É bom moedor...
Eh Andorinha!
Eh Moça-Branca!
Eh Beija-Flor. . .
Pela bagaceira
Os bois ruminavam
E as éguas pastavam
Esperando a vez
De entrar no rojão...
Foi quando se deu
A coisa esquisita:
Mordendo, rinchando,
As pôpas e aos pulos
Se pondo de pé
Com artes do cão,
Surgiu uma besta sem ser dali não...
— Atallia a bicha, Baraúna!
— Sustenta o laço, Maracanã!
E a besta agarrada
Entrou na almanjarra,
Tocou-se-lhe a peia
Até de manhã ...
E depois que ela foi solta
Entupiu no oco do mundo!
Num abrir e fechar d'olhos
A maldita se encantou...
De tardinha.
Gente vinda
Da cidade
Trouxe a nova
De que a ama
De seu padre
Serrador
Amanhecera tão surrada
Que causa compaixão!
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Na noite tão preta como carvão
A gente falava de assombração
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ASCENSO FERREIRA
O poeta Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira nasceu no município de Palmares, zona da mata de Pernambuco, em 09 de maio de 1895 e morreu em Recife em 05 de maio de 1965. Filho único do comerciante Antônio Carneiro Torres e da professora Maria Luiza Gonçalves Ferreira, ficou órfão aos 13 anos e muito cedo começou a se dedicar à poesia. Em 1911 publicou seu primeiro soneto, Flor Fenecida, no jornal, A Notícia de Palmares.
Em 1927, saiu à primeira edição do livro Catimbó com ilustrações do poeta Joaquim Cardoso.
Em 1939, é publicado Cana Caiana com ilustrações do pintor Lula Cardoso Ayres e em 1951, lança, no Rio de Janeiro, o livro inédito Xenhenhém em edição de luxo, reunindo os dois livros já publicados anteriormente.
Autor de uma obra ímpar, figura reconhecida pelos escritores do seu tempo, amigo de Manuel Bandeira e Mario de Andrade, tem sua obra estudada por grandes nomes da Literatura brasileira e da crítica.
Poeta da primeira geração do modernismo, marcou época com a recitação dos seus poemas tendo gravado, no ano de 1959, um álbum duplo de discos “64 Poemas Escolhidos e 3 Historietas Populares”, primeiro escritor brasileiro a utilizar esse recurso para divulgar a sua poesia, o que demonstra o quanto o poeta do chapéu era adiante do seu tempo.
Recentemente, a Prefeitura do Recife inaugurou um Circuito de Escultura de artistas pernambucanos, dentre elas a de Ascenso, localizada no Cais da Alfândega onde o poeta está sentado a contemplar o Rio Capibaribe.
http://www.interpoetica.com/figura_da_vez7.htm
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TÉCNICA DA ILUSTRAÇÃO: Tinta acrílica sobre Eucatex.
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DATA: 2003.