ANA CRISTINA CESAR Ana Cristina Cesar é revisitada no aniversário de sua morte
Juliana Krapp, Jornal do Brasil
RIO - Quando deu seu salto mortal, há 25 anos, Ana Cristina Cesar deixou, gravada em uma das obras mais originais da literatura brasileira, a própria silhueta: a de moça loura, refinada e linda, identificada por José Castelo como “A Deusa da Zona Sul”. Deixou, sobretudo, a imagem de jovem suicida, o susto biográfico coabitante do estilo inusitado, trapaceiro, que representa sua escrita. Desde então, a perplexidade persiste, indelével, nas leituras de seu legado poético: ajudou a cristalizar, nestes anos, a mística e a fascinação que rondam sua fortuna crítica.
Hoje, nas palavras do poeta Armando Freitas Filho, Ana C. está mais viva do que nunca. É objeto de culto e alvo de um sem-fim de teses, ensaios e artigos. Tanto que a pesquisadora argentina Luciana di Leone a nomeia “santa pós-moderna”: fugidia e adorável. Sua linguagem, um quarto de século depois, ainda é inovadora. E o mito que a tem consagrado – para o bem e para o mal – começa a ser revisto. Freitas Filho tem razão: Ana C., viva, insiste em ser atual.
Prova disso é que chegam agora às livrarias dois volumes que ajudam a passar a limpo o legado poético da escritora. E que, sobretudo, tendem a derrubar velhos clichês. Antigos e soltos (Instituto Moreira Salles. 480 pág., preço a definir) organizado por Viviana Bosi, reúne prosa e poesia inéditas de Ana, trazendo a lume os fac-símiles de rascunhos, textos inacabados, bilhetes, cartas, frases soltas, desenhos, material que é reproduzido aqui antecipadamente. Revela de forma surpreendente o processo criativo da poeta que, longe de ser espontaneísta – clichê dos mais persistentes – era quase obsessivo. Já o ensaio Ana C.: as tramas da consagração (7Letras, 116 pág., R$ 25), de Luciana di Leone, ocupa-se de analisar como o fetiche do suicídio, as edições de seus textos inéditos e a própria porosidade vida/obra de seu estilo marcaram o processo de consagração da poeta. Reivindica, principalmente, a consciência de que, após sua morte, foram construídas muitas versões da mesma Ana, algumas delas contraditórias entre si – mas todas dotadas de verdades parciais.
RIO - Após a morte de Ana Cristina Cesar, seus manuscritos e demais inéditos ficaram a cargo de Armando Freitas Filho, poeta que teve sua própria produção literária marcada profundamente pelo desaparecimento da amiga. Nas cinco caixas cheias de papéis que seguiram para a casa dele estava ausente, no entanto, uma peça fundamental: uma pasta rosa, do tipo arquivo. Dentro dela, Ana fizera divisões como “prontos, mas rejeitados”, “inacabados” e “rascunhos/primeiras versões”. Seu conteúdo incluía cartas, bilhetes, frases soltas, relatos de viagens, desenhos, poemas e prosa curta. São textos que vão desde os tempos de colegial até seus últimos dias de vida.
Apenas em meados dos anos 80, a mãe de Ana, Maria Luiza Cesar, descobriu a pasta, em uma mala de roupas. Esta passou a integrar, mais tarde, o arquivo da poeta, no Instituto Moreira Salles (IMS), na Gávea. A pesquisadora Flora Süssekind chegou a usar alguns de seus textos em um ensaio. Mas a descoberta tardia permaneceu ainda um tanto obscura até que Viviana Bosi, professora de teoria literária da USP, fez uma visita ao arquivo. Ao encantar-se com o conteúdo da pasta, recebeu o convite para editá-lo.
Foi assim que nasceu Antigos e soltos (Ana Cristina Cesar. Org. de Viviana Bosi. Instituto Moreira Salles. 480 pág (...)