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Blog do Caboge

Postado por Jorge Carneiro em 22/03/2008 22:15

Cultura periférica: as festas deles e as nossas - Parte 2
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A questão, caro leitor, é que festa de pobre na periferia é tratada como caso de polícia. Quando o público é de classe média e de bairros centrais, o tratamento é outro. Vou contar um caso que evidencia isso. Tem uma balada que rola toda sexta-feira à noite (às vezes de dia também) nas imediações da Universidade Mackenzie, no centro da cidade. Reúne centenas de estudantes. O pessoal ocupa duas esquinas, obstrui ruas e incomoda os vizinhos. A trilha sonora é variada: rock, MPB, samba, axé e, até mesmo, o Pancadão, dependo do estado de embriaguez. Os jovens universitários consomem muita bebida alcoólica e usam drogas à vontade. Na hora de fazer sexo, o chamego rola dentro de seus carros de vidros escuros, estacionados no local. A polícia quando vai lá, segundo testemunhas, é para retirar do recinto sujeitos maltrapilhos, pouco condizentes com o perfil social dos freqüentadores. E na Periferia? Ah, polícia na quebrada não tem meio termo. Chega para acabar com a alegria da rapaziada que se diverte na rua.
Os jovens universitários do Mackenzie estão se divertindo. E têm mais é que curtir o fim de uma semana de estudo e, para muitos deles, de trabalho. Esse direito nunca lhes foi negado e devem continuar exercendo-o, sem desrespeitar a coletividade. Mas estou do lado dos que foram historicamente desfavorecidos, e que se amontoaram nas bordas da cidade. Por que essas pessoas também não podem se divertir na rua? No Parque Primavera não existem equipamentos públicos de lazer, nem praças, como relata a própria reportagem do JT. Será que não resta outro destino ao povo preto e pobre da periferia, senão a condenação irremediável ao desencanto? Se a própria rua, que serve de pista para seus embalos de sexta-feira à noite, lhes é retirada, o que vão fazer? E se esses jovens viessem “invadir” a balada do Mackenzie? A rua é deles tanto quanto dos universitários. Será que a PM viria retirá-los, estando eles aos montes?
O dramaturgo e poeta alemão, Bertold Brecht, falava o seguinte: “Dizem violentas, as águas do rio, mas não dizem violentas, as margens que o comprimem”. Essa analogia do rio de margens comprimidas é perfeita para pensar o processo de amontoamento das pessoas nos fundões da periferia. Nesses mais de 500 anos de história do Brasil, a violência contra os pobres foi, muitas vezes, justificada pelo incômodo que a própria existência dessa gente causa aos ricos que sempre estiveram no poder.
O Racionais MC’s em seu belíssimo DVD 1000 trutas, 1000 tretas, traz um documentário que mostra como os negros foram expurgados do centro e empurrados para a periferia, em São Paulo. No vídeo, Mano Brown lê um texto retirado de relatório assinado por Whashington Luiz, em 1919. O então secretário de Segurança, depois governador de São Paulo e presidente da República falava o seguinte, referindo-se aos negros e miscigenados que ficavam na Várzea do Carmo, atual Parque Dom Pedro: “É aí que, protegida pelas depressões do terreno, pelas voltas do Tamanduateí, pelas arcadas das pontes, pela vegetação das moitas, pela ausência de iluminação, se reúne e dorme e se encachoa, à noite, à vasa da Cidade, numa promiscuidade composta de negros edemaciados pela embriaguez habitual, de uma mestiçagem viciosa, de restos inomináveis e vencidos de todas as nacionalidades, todos perigosos. É aí que se cometem atentados que a decência manda calar, é para aí que se atraem jovens estouvados e velhos concupiscentes para matar e roubar como nos dão notícia os canais judiciários, com grave dano à moral e para a segurança individual, não obstante a solicitude e a vigilância de nossa polícia. Era aí que quando a polícia fazia o expurgo da cidade, encontrava a mais farta colheita”.



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