Mestre Gedeone se foi, mas ficam sua arte e ensinamentos - I E vejam alguns deles, publicados em conversa no antigo fanzine GIGANTE, NºS 11 E 13, do ano 1989. Editei a conversa, eliminando uns assuntos que não eram atuais.
Na imagem, desenhos de 1989, do Gedeone e do Emir, em preto e branco.
" Há alguns meses participamos deste bate-papo com o mestre dos quadrinhos nacionais, Gedeone Malagola, que estava em visita a João Pessoa,
Saiu uma coisa muito descontraída e se falou sobre muitos assuntos relacionados com os quadrinhos. Das duas horas de falação em. fitas. selecionamos as partes ai em baixo.
EMERSON – Gedeone, qual a tendência, em sua opinião, dos quadrinhos modernos ?
GEDEONE - Álbuns grossos para adultos e as mini-séries de 4, 5 ou 6 números, para a juventude. Antigamente, a garotada comprava e juntava até 200 números das revistas. Hoje não. Compra-se 3, 4 exemplares, se encaderna e guarda. (...)
Acho que com a televisão, o vídeo e cinema, o quadrinho acabará morrendo. Já está morrendo...
DIOMEDES - É duro ouvir isso...
GEDEONE - Mas é verdade. E aqui no Brasil é pior porque o desenhista de HQ não tem as condições que o dos EUA tem. Aqui não temos arquivo de fotos. O artista tem de fazer tudo de cór. Lá, o roteirista. quando escreve a HQ já manda para o desenhista o modelo do automóvel que vai aparecer, casa, prédio. Tudo o que e1e pode, ele manda. E inclusive com um vídeo junto, além de fotos, e tudo o que o desenhista precisa para fazer a história.
PEDRO - Isso era muito usado, no início; com exceção do vídeo.
GEDEONE - Era. Mas, hoje em dia,todos usam. Hoje é tudo fotografado. O Milton Caniff no seu tempo de sucesso, fazia um filme. Contra tava artistas, os modelos e filmava tudo numa fita de 20 minutos. Depois escolhia as me lhores cenas, fotografava, para depois fazer
as HQs.
EMERSON - Um cineasta francês fez o contrário: quadrinizou todo o filme antes de passar à película.
GEDEONE - Os americanos todos fazem isso. A produção do filme é esboçada antes das filmagens.
EMERSON - Você nunca teve vontade de passar para a tela os seus personagens ?
GEDEONE - Uma vez, a Embrafilme estava com um projeto para TV, de desenhos animados nacionais. Cheguei a fazer alguns roteiros do Raio Negro, inclusive uns esboços. Mas, o negócio não foi para frente. Tudo por causa da troca de direção da empresa. Foi quando a Globo havia montado um estúdio em Campinas e até colocou um amigo meu lá, para tomar conta. Pretendiam também fazer desenhos animados, colocando selinho da Globo, claro. Pretendiam distribuir para o mundo inteiro. Mas, não funcionou. Tinham até adquirido equipamentos sofisticados e moderníssimos.
PEDRO - Parece que o Maurício de Souza é o único que se deu bem.
GEDEONE - É. Mas ele perdeu muito dinheiro com desenho. Investiu muito e não recuperou o que esperava. Deu prejuízo. Está sempre passando esses desenhos em festivais e outras entidades, para recuperar o dinheiro. Não compensou a produção de curta-metragens.
EMERSON - Dizem que a sorte do Mauricio foi a Cica, não é?
GEDEONE - Foi. E fui eu que levei o Maurício lá. Tinha um colega nosso, o Dagoberto, que era chefe de publicidade. Ele também desenhava gibis. Então, apresentei o Maurício, e ele o levou à Cica. E ele acabou dando um tombo na Cica, de muito dinheiro, e não tinha como pagar.
EMERSON - Como foi isso?
GEDEONE - A Cica tinha depositado uma verba de publicidade referente a um ano, e ele acabou essa verba em uma semana. A Cica pôs a mão na cabeça, e não tinha como cobrar do Maurício. Ele disse, então, que ia trabalhar para cobrir o rombo. A Cica teve de aceitar as ilustrações e campanhas pub1icitárias dele para não perder dinheiro. Isso custou o emprego do Dagoberto. Puseram e1e na rua.
EMERSON - E aquela história da Exposição que você chamou o Maurício e ele disse que não iria e queria uma exposição só para ele? "