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Fatos pouco conhecidos ou deturpados em nossa História, ilustrados por mapas antigos. Atualizado quando tenho tempo, ou seja, raramente. Seja bem-vindo!

Categoria: Ciência e História
Postado por Serqueira em 19/03/2007 17:04

DEITADO ETERNAMENTE (parte 2 de 4)
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(América do Sul, Ortelius, ano 1570)

Voltando ao papo do cunhado bêbado com a prima professora e ao risole amassado, o que se pode concluir é que os portugueses só construíram no Brasil aquilo que foi estritamente necessário para melhor explorar os papagaios, macacos, pau-brasil, cana-de-açúcar, ouro e diamantes. Nem uma pedrinha foi colocada que não se destinasse a gerar dinheiro. Se a lógica lusitana se limitasse a esta mentalidade extrativista e predatória, não teria sido tão mal. O problema é que se eles não nos traziam progresso, tampouco nos deixavam progredir.

Para piorar, o rei D. João V, impressionado pela cultura iluminista, planejou tornar a acanhada Lisboa num opulenta cidade equiparável às mais suntuosas capitais européias, e para isto contava com o suporte financeiro resultante do ouro, dos diamantes e de açúcar, fumo, couro e especiarias provenientes daqui. Não havia, portanto, o menor interesse no desenvolvimento brasileiro, mas somente nas nossas riquezas.

PAÍS TRANCADO

No início do século 18, o Brasil passou a transformar-se rapidamente por causa da descoberta de ouro e diamantes na Minas Gerais. Milhares de escravos, aventureiros, garimpeiros, tropeiros e comerciantes correram ao novo eldorado. A necessidade de produtos e serviços cresceu abruptamente e havia dinheiro para pagar por elas, mas o governo português não aprovava toda essa movimentação por achar que o progresso da colônia tornaria dispensáveis os produtos trazidos de Portugal. E tomou uma decisão drástica e perniciosa: isolar o território brasileiro e torná-lo dependente de Lisboa para quase todas as necessidades.

Nessa época, o Brasil não era mais que um imenso fornecedor de matérias-primas. Embora não existisse o termo "valor agregado", o conceito era bem conhecido, como se vê neste parecer de um conselheiro ultramarino: "A condução dos gêneros para o Reino deve ser na forma mais simples possível, sem mudar a espécie - o açúcar em grão, e não em doces; o cacau em grão, e não em chocolate; o tabaco em corda, e não em pó; o couro em sola, e não em sapatos; o ouro em barra, e não em moedas". O motivo para esta exigência estava claro: "Os gêneros nas suas formas mais simples, tem menos valor quando lhes falta de composição; e dão mais que obrar aos oficiais do Reino".

Entre várias medidas destinadas a manter o Brasil apenas como celeiro português, sobressaem a total dependência do comércio com Portugal e a proibição de compra e venda a países estrangeiros, de instalação de indústrias e de abertura de universidades. Nenhum navio estrangeiro podia aportar na costa brasileira a menos que estivesse em situação de emergência, como doenças a bordo ou necessidade de reparos na embarcação, e mesmo nestas condições os tripulantes e os passageiros eram proibidos de desembarcar. Durante quase um século, cidades como Salvador e Rio de Janeiro foram isoladas do mundo e seus portos proibidos a todas as nacionalidades, exceto a portuguesa (e a inglesa, extra-oficialmente).

(segue)

Celso Serqueira
Mapas Antigos & Histórias Curiosas
www.serqueira.com.br



Comentários (10):

Em 19/03/2007, às 17:36:55, derani | fotolog disse:
O interessante é que em um ponto da história o feitiço virou contra o feiticeiro.
Tão inábeis eram os que cuidavam da Economia em Portugal que, ao acharem tanto ouro no Brasil, inundaram toda a Europa deste metal, o que fez cair drásticamente o preço pelo excesso de oferta.
Assim tanta riqueza quase não lhes valeu, sendo preciso a intervenção de terceiros (agora não recordo se a Inglaterra ou o Marques de Pombal), para regular a oferta e recuperar um pouco do preço depreciado.
Em 19/03/2007, às 18:15:21, EDUARDO BERTONI | fotolog disse:
.
Fico imaginando se a gente tivesse tido uma colonização séria e honesta...
Em 19/03/2007, às 19:31:42, Luiz D´ | fotolog disse:
Acreditar em colonização séria e honesta é igual a acreditar em Papai Noel.
Em 19/03/2007, às 20:13:26, Rafael Netto | fotolog disse:
Tudo isso que o Celso está contando não é "mito derrubado", está em todos os livros de História. E se aplica, com poucas alterações, à América Latina como um todo.

A bola levantada pelo JBAN eu também ia sugerir: em uma outra série, discutir o "mito" do desenvolvimento dos países de clima frio. Tenho uma teoria sobre isso que nunca vi em nenhum livro de História.
Em 19/03/2007, às 22:20:40, Luiz D´ | fotolog disse:
Qual será a teoria do Rafael?
Em 19/03/2007, às 23:42:26, CONVIDADO | fotolog disse:

Meus patrícios irmãos portuguêses podem ter feito muita coisa boa na história.
Mas, decididamnte, em matéria de colonização não foram mais incompetentes por falta de espaço.
Na verdade, se um prego enferrujado tivesse tivesse varado o pé do pequeno Napoleão na escola militar e ele tivesse morrido de tétano, este país estaria em muito melhor situação; com calor ou sem calor.
Atribui-se a vinda da "família real" para o Brasil o grande salto de qualidade na vida da nação. Pois eu acho exatamente o contrário. Se aquela comitiva estapafúrdia, cheia de rainhas loucas e princípes devassos, tivesse ficado em Portugal, alguém por aqui tinha juntado uma meia dúzia de mosquetões e varrido daqui pra fora a padralhada que sustentava a colônia com seu terrorismo religioso.

Mas não, tivemos um Rei que voltou para Portugal deixando aqui um filho estroina que, um dia abdicou e voltou para Portugal para ser imperador que
Em 19/03/2007, às 23:55:44, CONVIDADO | fotolog disse:

(cont)

...que depois de fazer a independência do país, tornou-se imperador, e acabou voltando para Portugal para ser Imperador lá também. Portanto, voltou para ser imperador do país que ele acabara de trair. É ou não é uma pândega ?

E o filhote que deixou aqui, cresceu, aquiriu uma barba veneranda, granjeou admiração dos historiadores por gostar de ler (?), por se interessar por ciências (?) e passou à história como bonzinho.
O que quase nunca se diz é do absoluto desprezo pelo "seu povo" e pela sua cultura "mameluca". Por isso mesmo só falava francês no particular, só lia livros e jornais franceses, e só recebia em palácio diplomatas estrangeiros.

Exatamente ao contrário do que muitos pensam, a grande tragédia do Brasil é exatamente não ter sido descoberto por Portugal.
A palavra "descobrimento" é tão imprecisa como a de chamar o Lulla de presidente.
Em 20/03/2007, às 10:44:01, Serqueira | fotolog disse:
Rafael, esta série não tem coisas excepcionais para revelar, apenas pretende lembrar fatos esquecidos da história (o isolamento total do Brasil durante décadas, por exemplo) que demonstram estar na nossa raiz a causa da balbúrdia atual.

AG, você antecipou o comentário, que ficaria perfeito no último capítulo. Mas não concordo. Estou entre os que acham que a gente deveria celebrar Napoleão e não Cabral como o descobridor do Brasil. Adiante, isso fica mais claro.

Quanto ao Pedro II e seu francesismo, concordo. E hoje, mais de 100 anos depois, nosso provincianismo ainda é tal que, popularmente, para denotar cultura e status, ainda perduram o "absoluto desprezo pelo seu povo e pela sua cultura mameluca" e a idolatria à coisa francesa. Não progredimos.

Finalmente, AG, a história lusitana, incluída a colonização do Brasil, demonstra que o português foi um dos povos mais burros da Humanidade e os brasileiros os seguiram. Também foram crudelíssimos, tema que terá uma postagem em brev
Em 20/03/2007, às 14:27:35, derani | fotolog disse:
Quem for fazer por acaso alguma visita à Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói, vai dar uma tremenda razão ao Celso quanto à crueldade dos patrícios... principalmente quando o soldadinho-guia, explicar para que serviam os apetrechos que tem lá... e as técnicas de fuzilamento, cegueira de prisioneiros e crueldades diversas que nem a imaginação do mais cruel torturador pode realizar...
Pau-de-arara é coisa de "nenê" perto daquilo...
Em 20/03/2007, às 15:47:52, Chico Braun | fotolog disse:
Mapa maravilhoso.
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