Terra Terra Fotolog
Mapas Antigos

Fatos pouco conhecidos ou deturpados em nossa História, ilustrados por mapas antigos. Atualizado quando tenho tempo, ou seja, raramente. Seja bem-vindo!

Categoria: Ciência e História
Postado por Serqueira em 02/09/2007 23:48

DESCONSTRUINDO O RIO (parte 2/3)
¨
Plan de La Ville de Rio de Janeiro - Bilac, Passos & Bandeira, 1904

QUEM FEZ O QUÊ

"Reforma Passos". Soa bonito e imponente, mas as maiores obras daquela época, paradoxalmente, não foram responsabilidade do engenheiro Passos. Nem foi dele, mas da comissão federal de 1874, o projeto básico que ele usou para fazer a "sua" reforma do Rio, de 1903 a 1906, após ser nomeado prefeito da capital. O que Passos fez foi inspirar-se (copiar?) na Reforma Haussmann que viu na França. A intenção dele foi transformar a capital brasileira numa esplendorosa Paris, renegando os traços coloniais e a cultura nacional.

Também a criação da Av. Central (Av. Rio Branco), que consta como uma de suas maiores obras, não foi feita por Pereira Passos, mas pelo governo federal, a partir de uma proposta de Giuseppe Flogliani em 1884, aperfeiçoada por Bernard Savaget em 1890 e, finalmente, construída em 1906 pelo presidente Rodrigues Alves.

Aliás, as maiores e mais importantes obras - modernização do porto, construção das avenidas Central e do Mangue e saneamento - foram assumidas pelo governo federal. Para o prefeito Passos ficou a "maquilagem": demolição do casario, abertura de poucas ruas, alguns alargamentos de logradouros e embelezamento de praças.

Sem dúvida, o maior serviço executado pelo engenheiro foi derrubar mais de 1.600 prédios residenciais do Centro para realizar a reforma. Os moradores foram despejados e, sem opção, iniciaram o surto das favelas cariocas, instalando-se desordenadamente no Morro da Favela (hoje da Providência).

Nas palavras da comissão federal que apurou o escândalo social, o prefeito Pereira Passos forçara a população a "ter a vida errante dos vagabundos e, o que é pior, a ser tida como tal", indo abrigar-se numa "pujante aldeia de casebres e choças, no coração mesmo da capital da República, a dois passos da Grande Avenida". Lembra-se de que queriam mudar a paisagem e o povo carioca? Pois é. Fizeram!

METENDO A MÃO

Entre algumas curiosidades sobre o Prefeito Pereira Passos, sabe-se hoje que ele ganhou muito dinheiro com a reforma, pois os milhares de toneladas de madeira usados nas obras foram fornecidos com exclusividade pela serraria dele (só as fundações do Theatro Municipal levaram mais de 2 mil enormes toras de madeira).

Embora realizada sob a justificativa de limpeza (inclusive étnica) do Rio de Janeiro, de prevenção a doenças, de arejamento e de modernidade, a Reforma Passos teve o lobby de interessados poderosos na sua realização, como os bancos, governos e empresas ingleses e franceses, que financiaram e executaram a gigantesca e lucrativa obra, além de explorarem os meios de transporte e concessionárias de água, saneamento, energia elétrica e gás cariocas após a conclusão do projeto.

Empréstimos ingleses para esta reforma e, depois, para o desmonte do Morro do Castelo (quando outro prefeito, Carlos Sampaio, também levou a maior grana) oneraram ainda mais a nossa dívida externa. Os brasileiros vêm pagando a beleza carioca há mais de um século.

No episódio da construção do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, nem houve o cuidado de disfarçar. No concurso público para selecionar a melhor planta para a instituição, e saiu vencedora a proposta art-noveau de Arquimedes Memória e Heitor de Mello; entretanto, o projeto escolhido para construção foi o segundo colocado, uma arquitetura eclética, inspirada (de novo!) na Ópera de Paris, em nome de Francisco de Oliveira Passos - filho do próprio prefeito.

Sim, o projeto vencedor foi preterido para favorecer o filho do prefeito, que, comentou-se na época, apenas teria alugado seu prestígio familiar para gararantir a seleção da proposta. Realmente, chama a atenção que ele seja o único sobrenome brasileiro entre os demais envolvidos no projeto: Albert Guilbert, Antonio Raffin, Charles Peyreten, Emílio Bien e J. Personne, chefiados por René Barba.

(segue)

Celso Serqueira
Mapas Antigos & Histórias Curiosas
www.serqueira.com.br



Comentários (9):

Em 3/09/2007, às 07:39:42, Luiz D´ | fotolog disse:
A passo andava
o município
e por princípio
bem mal andava
A fedentina
já transandava
e a creolina
já não domava
Mas mestre Passos
qual salvador
mostrou os traços
do seu valor
Virou quiosques
cobrou a taxa
salvou os bosques
ou vai ou racha!
O que é verdade
é que o Prefeito
põe na cidade
tudo que tem
tudo treme
de tal firmeza
Homem ao leme
há com certeza.

O Paiz, 24.02.1903
Em 3/09/2007, às 09:03:34, Rafael Netto | fotolog disse:
Celsão Demolidor é parente do Pereira Passos?

Com ou sem conchavo, temos de convir que o Theatro Municipal é bonito. O projeto concorrente, pelo que soube, seria um pré-decô, mas o edifício construído é uma jóia eclética.

Claro, com certeza o Celso irá discordar da minha afirmação...
Em 3/09/2007, às 10:05:06, derani | fotolog disse:
Com roubalheira ou sem roubalheira, que ficou melhor, ficou...
Em 3/09/2007, às 13:11:02, Serqueira | fotolog disse:

Rafael, acho o Municipal realmente uma jóia, mas pesa para isto a finalidade do prédio (teatro clássico), que pede uma obra de tal porte e rebuscamento. Há coerência.

Luiz, belo resgate. Como diz no texto do seu comentário, Passos "cobrou a taxa", ou seja: lançou 25 porcento a mais de impostos para os cariocas, com a desculpa de saneamento da cidade. E com essa grana (e mais os empréstimos e mais os resultados da produção de borracha no Norte), comprou a madeira dele mesmo para "reformar o Rio".

Derani, concordo, o Municipal é lindo e também o Museu Nacional e a Escola de Belas Artes. Por isto acho que compará-los a uma peça desmontável de estande como o Monroe - um prédio sem destino e sem utilização definida - é incompreensível.
Em 3/09/2007, às 14:32:17, Andre Decourt | fotolog disse:
Passos foi importante, primeiro, porque ele, junto com Frontin era um dos idealizadores da reforma urbana pensada no Império, e talvez por sua posição política e idade, poderia ser o único a ser "queimado" caso tudo desse errado. Alguém que não tinha ambições políticas posteriores, Passos já era idoso e como pudemos ver depois não se candidatou a mais nada. Além disso o cara tinha peito e fazia cumprir o que ditava, coo na história da inauguração d Túnel Novo, onde multou a Cia de Construções Civis, quando em uma festa em sua homenagem soltou fogos de artifício que estavam proibidos pelo prefeito.

Fora as reformas urbanas, ele deu jeito no caos da cidade, seria como hoje um prefeito de peito desse fim nos camelôs, barraquinhas de sandubas no Centro, carro da pamonha, do ferro-felho, no jogo do bicho, no hábito da turma jogar lixo e entulho nas ruas etc.....
Em 3/09/2007, às 15:45:50, Luiz D´ | fotolog disse:

No seu "O Rio de Janeiro de Pereira Passos - uma cidade em questão", Giovanna Rosso Del Brennna faz uma interessante análise deste período.

Lá, após fazer um grande levantamento do dia-a-dia da cidade, comenta que a imprensa, tanto aquela "paga" como aquela "independente", fala de uma realidade urbana que é bem diferente da apresentada pela bibliografia oficial.

Diz que os problemas sociais, como o da habitação popular, são deixados conscientemente irresolvidos.

Comenta que o ano de 1906, que devia ser o ano da apoteose, é o ano dos desastres: desaba até o prédio do CLube de Engenharia, arrastando consigo o mito da engenharia nacional.

Fala, entre outras coisas, que o traçado da Av. Beira-Mar é interrompido na altura do Obelisco, de acordo com o Jornal do Commercio, devido à presença, na área de seu prolongamento, da serraria do Prefeito!!!

Sei não, mas acho que o Dr. Celsão, mais uma vez, está com a razão!
Em 3/09/2007, às 19:30:18, Gustavo do Carmo | fotolog disse:
O concorrente de preço mais próximo do Outlander é o Sorento, da Kia, que eu não citei, custa R$ 137.900 e tem motor 3.5 V6. Mas o Freelander, citado na matéria, é o concorrente mais famoso no segmento e ainda é mais barato. Agradeço por esse toque, pois percebi uma incoerência no texto. Tinha dito que o Outlander ficaria entre o Airtrek e o Pajero, mas esse custa mais barato. Deveria ter aberto um parêntese para esclarecer que o posicionamento foi no porte do carro. Obrigado pela visita.
Em 3/09/2007, às 19:51:17, Serqueira | fotolog disse:

André,

Pereira Passos, Frontin, Olavo Bilac, Arthur Azevedo e outros, como veremos na próxima postagem, faziam parte da "turma do mensalão" daquela época.

Passos foi muito hábil em granjear para si os louros de uma reforma que, na maior parte, foi executada pelo presidente Rodrigues Alves. Até na planta da reforma consta em letras garrafais o nome do prefeito e, em discretas minúsculas, um modesto crédito para um impessoal "governo federal", na verdade, o responsável maior pela execução do projeto.

Passos não se candidatou mais porque estava bilionário com a mamata da serraria. Aumentou em 1/4 os impostos pagos pelos cariocas, meteu a mão na verba da reforma e só deu contratos oficiais para seus apaniguados - mas multou a construtora por uns buscapés irregulares. Provavelmente esta autuação foi uma encenação pré-combinada com própria a construtora. O 'modus operandi' é mesmo semelhante ao de Lacerda, vixe!
Em 14/09/2007, às 10:52:26, Rouen | fotolog disse:
Celso eu gostaria de ver o mapa no quadro abaixo. Av Prof. Pereira Reis e se possível desta rua até o tunel João Ricardo. Dá ? , se tiveres, me enviar por email ?
Merci
Apenas usuários que estão nos favoritos deste fotolog podem comentá-lo. Se você está na lista, identifique-se abaixo:
Username:
Senha: