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MARCO HAURÉLIO LITERATURA DE CORDEL

A poesia popular do Nordeste do Brasil.

Categoria: Artes
Postado por Marco Haurélio em 23/10/2009 15:33

Doutor Aderaldo
Aderaldo Luciano, paraibano radicado no Rio de Janeiro, pesquisador, professor, músico e poeta, agora é, também, doutor. Doutor em Literatura. E, mais: sua tese vai na contramão dos estudos sobre o cordel, os antigos e os “mudernos”, ancorados em argumentos frágeis, pouco criteriosos, desrespeitadores da individualidade poética, responsáveis pelas paliçadas erguidas entre uma suposta literatura erudita e a – assim chamada – popular.

Parabéns, mestre, ou melhor, doutor!

Que fale o próprio Aderaldo:

Literatura de cordel: visão e re-visão

Sobre o cordel, minha tese retira as seguintes conclusões:
a) o nome literatura de cordel é de origem lusa, mas má empregada em relação aos nossos folhetos de cordel, visto que são fenômenos distintos, havendo mais divergências do que semelhanças entre eles;

b) não se sabe quem primeiro atribuiu esse nome aos folhetos. Alguns dizem ter sido Sílvio Romero, em 1879, mas as evidências contradizem a afirmação;

c) quem sistematizou a publicação de folhetos de cordel foi, sem dúvida, Leandro Gomes de Barros, embora Silvino Pirauá tenha sido o criador do romance em versos;

d) a literatura tradicional ibérica foi adaptada no amanhecer do século XX para o formato do cordel, mas não é o assunto principal do gênero;

e) a literatura de cordel não é a versão escrita do universo dos cantadores e repentistas nordestinos, é produto estritamente escrito, tendo inclusive, o cordel, influenciado as modalidades da cantoria;

f) as tentativas de conceituar o cordel foram sempre regidas pela sua apresentação material, nunca pela sua forma literária;
g) a literatura de cordel sempre foi tida como um subproduto popular;

h) o autor de cordel é um poeta como outro qualquer, escreve porque tem necessidade vital;

i) a literatura de cordel é literatura brasileira e como tal deve ser estudada;

j) os estudiosos do cordel foram incapazes de dar à literatura de cordel sua verdadeira dimensão literária;

k) as novas gerações de cordelistas consagram o cordel como o gênero de maior vitalidade na literatura brasileira.
Salientem ainda:

a) a literatura de cordel não tem cunho efetivamente rural. É fruto da confluência do mundo rural com o mundo urbano, do sertão com a cidade;

b) a cidade do Recife é o local onde nasce a literatura de cordel tal como hoje ela é, em sua forma e veículo de difusão;

c) quatro nomes contemporâneos são os responsáveis pela consolidação da literatura de cordel: Silvino Pirauá, Leandro Gomes de Barros, João Martins de Ataíde e Francisco das Chagas Batista.

d) Leandro Gomes de Barros é definitivamente o pai da literatura de cordel e seu maior escritor;

e) Estudiosos e pesquisadores desatentos ou preguiçosos foram os responsáveis por disseminar informações equivocadas, conceitos errados e enganos formais sobre a literatura de cordel.
Finalizamos:

a) Propomos uma nova classificação para a literatura de cordel, começando já pela abreviação do nome para cordel, por entendermos que esse termo já pressupõe pela tradição o seu produto literário;

b) O fazemos por entender que o cordel traz em si todos os elementos distintivos da literatura;

c) As classificações temáticas ou em ciclos não contemplam a autoria em cordel, agrupando temas e segregando os autores, sob a marca do folclórico;

d) O cordel é forma poética fixa complexa que requer subdivisões classificatórias;

e) O cordel, por nossa classificação, compreende o narrativo, o dramático e o lírico;

f) A nossa classificação é embrionária necessitando apreciações aprofundadas com o intuito de introduzir o cordel no todo literário brasileiro e na teoria dos gêneros literários como forma originalmente brasileira.

Fonte: http://adercego.blogsome.com/2009/10/09/literatura-de-cordel-visao-e-re-visao/



Comentários (7):

Em 24/10/2009, às 08:47:08, ARIEVALDO VIANA | página pessoal disse:
Este sabe o que diz. Doutor Aderaldo, como dizem aqui no Ceará: - Você tá no rumo!
Em 24/10/2009, às 13:05:08, Marco Haurélio disse:
.
Cordel também não é cultura popular, se entendermos esta expressão como sinônimo de folclore. O cordel se nutre da cultura popular, trazendo, por isso, rica informação etnográfica. Nesse pormenor, o livro HISTÓRIA DO BOI MISTERIOSO, de Leandro Gomes de Barros, é imbatível.
Em 24/10/2009, às 15:56:30, João Gomes de Sá disse:
Procure o Doutor:

Agora temos um doutor para
nos "receitar" preventivamente e medicar umas "meisinhas" para curar alguns delizes no universo cordeliano.
E aí vai: como uma manifestação literária genuinamente brasileira,
desprezada pela cultura acadêmica, denominada gênero nemor ou subliteratura ou ainda manifestação marginal em verso é tão popular?
Agora, requer, em verdade, um amplo debate, simpósio, fórum para aparelharmos com fundamentação as nossas ideias e teses.
Um abração para o Cangaceiro Doutor ou
Doutor Cangaceiro da Serra da Borborema!
Parabéns!
Em 24/10/2009, às 16:47:07, Carlos Alberto | e-mail disse:
Sou potiguar e um curioso sobre a literatura de cordel.Aliás, também colecionador. Já acompanhei Aderaldo Luciano em duas edições do programa "De Lá Prá Cá", da TV Brasil: Mestre Vitalino e Patativa do Assaré. Boas intervenções.
Espero que em breve, essa tese seja transformada em livro, para o devido acesso ao seu precioso conteúdo.
Parabéns!
Em 24/10/2009, às 20:21:25, Varneci Nascimento disse:
Aderaldo Luciano como simples aprendiz da poesia de cordel apenas quero lhe agradecer pela grande contribuição que você veio nos trazer. Certamente sua tese de doutoramento vem para corrigir muitas distorções sobre o cordel, pois não são poucos os equívocos que vemos por aí. Assistindo sua palestra, há um ano atrás em Guarulhos no primeiro Salão do Cordel, pude ver seu grande conhecimento, e sei que não é diferente a sua tese. Estou ávido por lê-la. Bem vindo poeta doutor, ou doutor poeta, saiba que você encontra em nós cordelistas verdadeiros irmãos. Parabéns por mais essa conquista!
Em 25/10/2009, às 02:48:15, Pedro Monteiro | página pessoal disse:
É o poeta Marco Haurélio sempre nos trazendo boas novas!

Passe para frente o seu
Valioso aprendizado.
Não retenha este poder
Pra não ser penalizado,
Com a dor na consciência
Vendo o povo atrasado.

Parabéns poeta Doutor.

Que os horizontes se alarguem, e até o debate se acalore! Mas a sede do aprender, possa ser saciada.

Em 28/10/2009, às 11:34:14, Moreira de Acopiara | e-mail disse:
Valeu, Aderaldo. Agora só me resta esperar o momento certo para ler a sua tese, que, espero, seja publicada em formato de livro, para que os mais atentos tenham acesso. Não vejo a hora.
Grande abraço desse seu admirador

Moreira de Acopiara
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