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no casulo

Postado por Ju Simonetti em 02/04/2008 01:05

Ela já sabia
Ela já sabia que o amor não existia. Por isso, tratou de inventá-lo.

Começou pelas pontas dos dedos. Pintou as unhas de laranja-desmaido, da cor de amor quando quer desmorrer. Assim que secaram, levou-as para ele ver. Durante a noite, desfilou as mãos cuidadosamente manchadas de tinta pelo corpo do moço. Pousou-as nas costas dele e mirou longamente o amor inventar-se ali nas pontas de seus dedos. O amor era laranja. Cor de laranja.


Ela já sabia que o amor não existia. Por isso, tratou de inventá-lo.

Também comprou uma porção de vestidos. Já sabia que tudo que não existe vem embrulhado em vestidos rodados. Encantados. Feitos os de princesa. Traje a rigor para encontrar o lugar-nenhum, lá no reino perdido do beleléu, onde mora o amor, bem ao lado do latifúndio do infinito. De rodado-encantado, dançou no corpo dele. O amor era de era uma vez. E agora, era a vez de ser feliz para sempre.



Mas, ela já sabia que o amor não existia. Mesmo.

E as pontas dos dedos já não alcançavam a sua melhor invenção. Tentou o vermelho. Rosa. Marrom. Laranja. Rosa. Vermelho. Vermelho. Roxo. Laranja. Durante noites, passou procurando o tom do amor. As mãos desfilando pelo corpo do moço sem rumo. Tateando sem encontrar. Cor de laranja? Rosa. Marrom. Laranja. Laranja. Unha. Vermelho. Unha. Vermelho. Unha. Unha. Unha. Unha. Unha. E ela nunca mais voltou à manicure.



Mas, ela já sabia que o amor não existia. Mesmo.
Depois de tirar todos os vestidos rodados, um a um em cima do corpo dele, conheceu o desencanto. Desembrulhou-se. Rasgou as fantasias. Emborralhou-se. Já não cabia no lugar-nenhum e nem transbordava no infinito. Sabia que nunca ninguém jamais estivera por lá, nem divinamente embrulhado em ouro.

Ela já sabia que o amor não existia. Mesmo. E nem achava mais graça em inventá-lo.

(E quem quiser, que invente outros).



Comentários (11):

Em 2/04/2008, às 01:28:34, 1953 | página pessoal disse:
lá, no instante-já de 1953, não se inventa: há sempre o susto.
é como ler "mãos cuidadosamente manchadas de tinta".

Em 2/04/2008, às 10:01:53, Ideumar G. Soares | e-mail disse:
Ju,

E você, lá, no Setão de Guimarães Rosa, na mulinha branca... a gente nem imaginava que ali, lencinho colorido na cabeça - vermelho, rosa, laranja, vermelho, branco, preto, vermelho, avermelhado, colorido, sei lá... estava você, hoje deixando-nos embevecidos com seus textos maravilhosos. parabéns! Beijão pra você!
Em 2/04/2008, às 15:19:38, Adriano H. S. Ferraz | e-mail disse:
Oi Juliana
Seus textos são maravilhosos!!

entre em contato, vou realizar uma semana de literatura e gostaria que você participe. Mandei um e-mail(jusimonetti@hotmail.com).
Um grande Beijo!!
Em 2/04/2008, às 22:08:55, Rogério disse:
o amor existe sim, mas é em outra dimensão.
Em 10/04/2008, às 07:32:57, thiago roque | página pessoal | e-mail disse:
amor... eu tinha a receita desse troço por aqui, mas acho que a empregrada jogou no lixo, junto aos sonhos despedaçados que ele encontrou em meu quarto... texto pra lá de lindo. beijo.
Em 12/04/2008, às 01:03:54, flávia Arielo - | página pessoal disse:
lindo de morrer, jé.
Em 13/04/2008, às 23:41:15, unhas descoloridas... | página pessoal disse:
texto acalentador...
inspirador...
dor de amor?
impressões sinceras em poucas e belas palavras...
Em 29/04/2008, às 11:26:34, Maria_B | página pessoal disse:
alo!! olha nossa foto em http://www.webkoala.com.ar, lindaaa!!
Em 4/05/2008, às 12:24:15, helena gozzano disse:
oi, ju, eu vim aqui, viu. E gostei muito, muito. Tanta poesia... Acho que sua alma tem um tanto de DNA da alma de Manoel de Barros.
Despois eu volto que quero ler TUDO!!
Em 20/06/2008, às 16:23:31, cacau | e-mail disse:
essa gente-diadorim bota a gente comovido como o diabo
Em 29/06/2009, às 22:06:42, roberta disse:
tinha lido esse texto incrível publicado numa revista do interior de SP (não sei se de variedades ou TV por assinatura). Ainda bem que o encontrei! Parabéns. É lindo!
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