O Cristo de Chocolate Uma notícia na "Folha de S. Paulo" de 30/03/2007 me chamou atenção:
"Uma exposição em Nova York, criada para o feriado de Páscoa, contendo uma escultura de chocolate de Jesus Cristo nu, foi cancelada nesta sexta-feira devido a ameaças de morte ao artista responsável pela obra, Cosimo Cavallaro, e aos massivos protestos da comunidade católica local, incluindo a intervenção do cardeal Edward Egan."(1)
Coisa similar já havia acontecido aqui no Brasil no ano passado quando uma obra Márcia X no CCBB do Rio de Janeiro foi retirada devido ao protesto de católicos resultando em grande polêmica entre religiosos, artistas e interesses econômicos do banco patrocinador.
Fico preocupado que estes ataques às obras de arte sinalizem não apenas uma manifestação contrária a uma expressartística e a liberdade de pensamento de um autor, mas que o poder de grupo religioso aumente ao ponto de não haver mais espaços de discussão abertos às opiniões divergentes. Temo pelo o que possa acontecer no futuro, desejando que não se repita o que aconteceu no passado com a Inquisição e cresça a intolerância.
Antagonicamente, a Igreja é omissa quanto à tradição de seus próprios praticantes comemorarem a Páscoa com símbolos pagãos: o ovo e o coelho. A própria palavra "Easter", em inglês, tem origem no nome de uma deusa pagã, Astarte ou Astartéia, deusa da fertilidade, cujos rituais incluíam a troca de ovos entre as pessoas, as pessankas.
"Mas a pessanka não está presa somente à Páscoa pois surgiu comprovadamente por volta de três mil anos antes de Cristo. O símbolo ucraniano surgiu em homenagem ao Deus Sol. Agradeciam à divindade com ovos, a chegada da primavera. Nesta festa também eram oferecidas pessankas a outros elementos da natureza. Além disso, agradecimentos à colheita e pedidos para que a terra continuasse produzindo eram feitos. Foi no ano de 988 DC que os ucranianos adotaram símbolos cristãos nas representações artísticas. Como são considerados uma espécie de talismã ou amuleto e seus desenhos representam várias coisas boas como amor, prosperidade, saúde, fertilidade, esprerança... , os ovos podem ser presenteados sempre." (2)
E o próprio chocolate tem antecedentes pagãos:
"A história do chocolate começou com as civilizações asteca e maia, na América Central, onde hoje ficam os territórios do México e da Guatemala. Lá no México, os astecas cultuavam o deus Quetzalcoatl. Ele personificava a sabedoria e o conhecimento e foi quem lhes deu, entre outras coisas, o chocolate. Os astecas acreditavam que Quetzalcoatl trouxera do céu para o povo as sementes de cacau. Eles festejavam as colheitas com rituais cruéis de sacrifícios humanos, oferecendo às vítimas taças de chocolate.Um dia Quetzalcoatl ficou velho e decidiu abandonar os astecas. Partiu em uma jangada de serpentes para o seu lugar de origem - a Terra do Ouro. Antes de partir, porém, ele prometeu voltar no ano de "um cunho", que ocorria uma vez a cada ciclo de 52 anos no calendário que ele mesmo criara para os astecas. Em toda aquela região a importância do cacau não residia apenas no fato de que dele se obtinha uma bebida fria e espumante, chamada "tchocolath". "(3)
Infelizmente a intolerância é fruto da ignorância, seria mais interessante a reflexão que gera a obra de arte do que atacá-la.
Porque será que a obra de Cosimo Cavallaro ofende a tantos católicos? Será que é porque torna evidente sua própria hipocrisia e desconhecimento de sua própria crença? Um Cristo de chocolate é mais ofensivo do que um de madeira, mármore, bronze ou ouro? Está na nudez do Cristo? Na cor do Cristo de chocolate? Onde estaria a ofensa e a blasfêmia maior? Na perpetuação do paganismo integrado aos sistemas católicos ou na manifestação artística pura e simplesmente?