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Companhia das Índias

Postado por Ramon em 26/04/2006 00:43

Chapter 19 – Impeachment Masala
A primeira vez que ouvi falar em Marajá foi no horário político de 89. Eu tinha 7 anos e não entendia o que aquele sujeito de gel e olhar enfurecido tanto tinha contra os tais Marajás da Previdência. Na verdade, naquela época eu torcia mesmo pro Afif, que além do nome engraçado, tinha a musiquinha dos patinhos que era muito mais legal.

Em hindi, Marajá significa “grande rei”. Mas que não eram tão grandes assim, já que até 1947, quando a Índia conseguiu sua indepenência, eles já eram mais de 600 governando diversos estados indianos, mas quem mandava e desmandava mesmo por aqui era a coroa inglesa. Claro que nessa mixórdia reinavam os bons e os ruins, os sérios e também os fanfarrões que, por sua vez, acabaram fazendo a fama mundial da vagabundagem, da corrupção, do esbanje e da sodomia dos marajás, que ironicamente até posso comparar ao supra-citado Fernandinho.

O Marajá Krishnaraja Wodeyar IV, no entanto, ficou conhecido como “rei-filósofo”, depois que o escritor britânico Paul Branton invocou Platão ao descrever sua suprema sabedoria: “O mundo só poderá ser salvo se os reis se tornarem filósofos e os filósofos se tornarem reis.” O estado-reino de Mysore, que governava, era comparado ao reino ideal da mitologia hindu (que aliás é governado por ninguém menos que Brahma). E mesmo Ghandi, que foi hóspede do Marajá em 2 ocasiões, teria dito em 1927 que “por onde passava ouvia nada além de menções sobre a sua pureza e benevolência.”

De fato, Mysore se tornou um estado próspero, reverenciado por todos pelo seu desenvolvimento em infra-estrutura, artes e ciências. Tem a 6a universidade indiana e Mysore foi ainda o primeiro estado indiano a possuir uma Assembléia Representativa Democrática e a primeira hidrelétrica da Índia, sendo a cidade de Bangalore (hoje capital) a primeira asiática a ter iluminação elétrica nas ruas. A prosperidade e a eficiente administração do Marajá eram tão reconhecidas que muitos príncipes, dos mais importantes estados indianos, faziam uma espécie de estágio, para aprender as técnicas da dita melhor e mais justa administração pública do mundo.

Mas as coisas que se ouve nesse país devem sempre ser acompanhadas dos atenuantes de uma terra que tende, invariavelmente, a mistificar e adorar seus ídolos de maneira quase irracional. Ao invés de tentar humanizar o herói e até o mau-caráter “Ah, mas o Collor teve o mérito da abertura do mercado”, as histórias dos grandes indianos transcendem a eles próprios. Como se no Brasil, ao invés de remendar os imprestáveis, contassem que Pelé era feito a 6 pernas, velocidade de jato e força de mais de 200 homens. Na Índia, a história se confunde com religião, transforma os bandidos em demônios, os heróis em deuses e suas trajetórias, mitologia.

E é assim que o indiano lembra e venera o Marajá de Mysore, Ghandi (cuja santidade encobriu seus feitos e ensinamentos) e até um certo ator de cinema, falecido semana passada. Seu funeral mobilizou milhões de pessoas que, quando viram que nem todos conseguiriam ver o corpo pela última vez, protagonizaram uma babarbárie de reverberações aterrorizantes. Fãs promoveram um imenso quebra-quebra, de enormes prejuízos, centenas de feridos e nada menos do que 7 mortes em apenas algumas horas.

Alheios à balbúrdia das ruas, à insanidade dos homens e aos feitos dos deuses, decidimos celebrar a Páscoa com o luxo digno dos reis. Depois de visitar o Palácio do Marajá de Mysore (foto), por algumas horas imaginamos que o Leela Palace – hotel 7 estrelas que oferece um almoço digno do mais glutão dos marajás – fosse o nosso palácio. Nos refestelamos e nos lambuzamos à salmão, sushi, filé mignon, camarão, lagosta, chocolate e todo o champagne que poderíamos beber, e bebemos, “like there would be no tomorrow”. Uma orgia culinária de fazer inveja à Wodeyar IV, Elizabeth II e até Fernando Collor de Melo.

Fotos da balburdia, do castelo e do amocinho de domingo em http://www.kodakgallery.com/I.jsp?c=ji33zu1.aspd5ux&x=0&y=i6h8lu



Comentários (6):

Em 26/04/2006, às 00:45:09, Antenor disse:
Mysore = Missouri ?

Isso me lembra aquela história de que centenas de pessoas morreram no Iraque, ao comemorar a queda de Saddam Hussein dando salvas de tiros próximos a um posto de gasolina.
Em 26/04/2006, às 00:45:56, Marina disse:
E assim, mais uma interessante história indiana.
Ah primo, esse é o último comment escrito em terras alencarinas. O próximo será na terra de Victor Hugo! Eba!!!!!! Bjão
Em 28/04/2006, às 10:02:09, Jota disse:
Magnífico.
Em 29/04/2006, às 14:28:50, isabel disse:
Presta aten;áo!!!Hotel 7 estrelas [e para Rei, e Rei tem pai rico...Náo se empolgue!! Heheheehehehehe
Em 29/04/2006, às 23:38:13, q vidinha mais ou menos..rs disse:
Pelo jeito, essa viagem tá te fazendo muito bem...rs, abraços Ramon!! Tudo de bom!!
Em 15/05/2006, às 21:13:07, camila disse:
hahaha, "dois patinhos na lagoa, vote afif 22, qua, qua!!!"
Achei q era só eu admitia ate hj q torcia pelo afif por causa da musiquinha!!!! bjao, primo
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