
Postado por Ramon em 07/05/2006 09:50
Chapter 21 – Cotas castas ou Castas cotas
Percebi não faz muito, que a Índia hoje lida melhor com a pobreza do que o Brasil. Vivem aqui mais de um bilhão (tá certo que a maioria miseravelmente como nos piores brasis do mundo), mas agora imaginem o Brasil com esse bilhão de gente. Tinha explodido.
Graças à política social que o governo indiano geralmente pratica, a Índia (que até socialista foi naquela época em que Marx era moda) segue andando sem arruinar muito a sua distribuição de renda. E vai até mesmo tentando melhorá-la, aproveitando-se dessa atual autoconfiança econômica, reforçada pelo período de destaque diante dos holofotes internacionais. A economia é uma das que mais crescem no mundo, com o PIB se expandindo a uma taxa anual de cerca de 7,5% nos últimos três anos.
Agora a idéia em sentido social do governo é a das cotas. Há algum tempo já se separa 22,5% das vagas nas universidades para os cidadãos descendentes das tribos e castas inferiores. Mas agora pretendem aumentar para 49,5%, incluindo aí os descendentes das intermediárias. Manifestações de estudantes das altas pipocaram em toda a Índia na semana passada. Estão de greve até que se decida pelo Não contra a inclusão de mais pessoas inferiores no ensino. Já viram estudante em greve? Foi a minha primeira vez... Mas essa ainda não é a maior discussão. Há um outro projeto de lei do governo no congresso indiano requisitando cotas de emprego para as castas inferiores no setor privado da economia.
Uma analogia aprofundada relacionando castas indianas aos negros brasileiros poderia ser bem promissora. É até psicológico, mas sempre entre um candidato de casta baixa e um de alta escolhe-se a alta. Na Satyam só conheço d’alta. Familiar, não? Antigamente crianças das altas, que frequentavam as mesmas escolas das baixas, tomavam obrigatoriamente banho antes de entrar em casa. Foi uma das batalhas que Ghandi travou. Acabar com o preconceito às pessoas que eram tão, mas tão discriminadas, que ficaram conhecidas como “intocáveis”. Após 1947, como a escravidão no Brasil, o sistema de castas foi proibido. Mas claro que informalmente ainda existe, como de certa forma na terra brasilis, o escravista.
Como para o Brasil, sou a amplamente a favor das cotas na Índia. Ainda mais essas de emprego no setor privado. Como a Mariana sempre me dizia, de que adianta botar um descamisado na escola se o desgraçado tá com fome? Prestar atenção na aula é que a criatura não vai. Consegue então um empreguinho mais ou menos pro pai (umas cinco, seis mil rúpias por mês já tá mais que bom). Profissionalmente pode não ir longe, mas quem sabe já dê pra mandar os bacuri-abu pro colégio aprender a escrever, falar inglês e programar software. Por que não?
Enquanto a economia indiana cresce a passos largos, a abertura econômica e a globalização vêm à galope. Cada vez mais se vê novos carros, novos celulares, novas roupas, iPod’s, Nike’s, Mercedez’, Sony’s, McDonald’s, Levi`s, Coca-cola. Deixar esses pobres coitados babando do lado de fora só porque são filhos de casta ruim é sacanagem.
Comentários (5):
Em 8/05/2006, às 04:31:55,
Ramon
disse:
A foto não é minha, é da Imke, uma holandesa que trabalhava em uma ONG por aqui. A casa deles é isso aí mesmo. Não importa o ângulo da câmera.
Essa semana, aliás, esse blog chegou a mais de 6 mil acessos em 4 meses de existência. Bala né? Obrigado a todos os que lêem. Se tenho pra quem escrever, tenho porque ler, pesquisar e entender. Ajuda nas horas ruins.
Abraços!
Em 8/05/2006, às 20:15:37,
Bruna
disse:
Que show!! Eu admiro muito os teus relatos e faço propaganda pra todo mundo...rs...é muito bom saber o que acontece fora desse nosso mundinho cheio de bitolações e gente medíocre....Parabéns pelo ótimo trabalho!! Eu sigo aqui, fazendo meu tcc, reta final é fogo!! Grande Abraço Reimon!!!
Em 9/05/2006, às 17:18:02,
Ione
disse:
me parece q estas cotas para universitários negros são uma armadilha, pois vai criar preconceito para qualquer profissional de cor - vai ser taxado de mediocre. O correto seria fortalecer o ensino básico. Mas uma taxa para emprego entre os sem chances parece interessante.
Em 13/05/2006, às 21:57:46,
Mariana
disse:
Boa Ramon! Só faltou incluir os índios. Pra quem ainda tem dúvidas: quantos colegas negros vcs tiveram na faculdade? Eu tive um. E ele é rico. Beijos.
Em 15/05/2006, às 11:55:18,
Luara
disse:
Me desculpa por se intrometida!Não te conheço, mas acabei achando seu flog e, simnplemsente, fiquei espantada!
[No bom sentido]
E ainda tem gente que acha que flog's são fúteis e sem conteúdo. Você realmente está de parabéns, tenho uma grande admiração pela India e sua história em todos os aspectos e torço para que consiga superar todos os problemas que também possui.
Estou representando ela numa simulação do plenário da ONU, parece meio vago, mas está sendo levado muito a serio por todos. E posso afirmar que seu flog me inspirou e me ajudou ainda mais.
Continue assim!