VIÇOSA DO CEARÁ: UM SONHO DE LUGAR MÚSICA: Ao som de pífano. É assim que Alfredo Miranda recebe os visitantes em sua casa (Foto: TUNO VIEIRA)
O Ceará tem lugares fascinantes e os cearenses sabem valorizá-los muito bem. O jornalista Gilmar de Carvalho é um amante das coisas boas e simples deste Estado e mostra sua cidade preferida - Viçosa do Ceará -, que pode ser incluída no roteiro dos turistas nestas férias
GILMAR DE CARVALHO
Especial para Turismo
Quando apertam as tensões na cidade grande, quando fica difícil suportar o peso dos compromissos e a rotina começa a nos tirar do sério, é tempo de “fugir” para a cidade de Viçosa do Ceará. Nunca a natureza se fez tão exuberante. Faz tempo agradável em Viçosa do Ceará, mesmo no “pino do meio-dia”.
A vegetação é densa. A bruma cobre a cidade nas manhãs e à noite. Quando as nuvens roçam as serras, o Cristo, do Alto do Céu, fica encoberto. Adoro Viçosa do Ceará. Pode ter alguma coisa a ver com meu pai, - José Gil de Carvalho -, que era de lá.
Mas a cidade tem seu charme. E parte dele fica por conta das comidinhas de dona Ritinha Mapurunga, do Hotel Sayonara. Tudo muito bem feito, caseiro, preparado em pequenas quantidades. Ela mesmo supervisiona a cozinha de onde saem assados de panela, galinhas à cabidela, feijões (pode ser o gurugutuba, dependendo da temporada), farofas. Com direito a doces, licores e a um cafezinho da serra. A visita vale a pena. A casa é acolhedora. Tem porta-retratos espalhados pela sala. Tudo isso na melhor tradição portuguesa.
A Igrejinha do Céu é outra referência. A Pedra do Itagurussu, de onde caem filetes de água, há milênios ou milhões de anos, desafia nossa engenharia se equilibrando nas encostas e formando cacimbinhas de água gelada. A cachaça, de boa procedência, é a pedida para os que sabem degustar um bom destilado.
Saudades do velho Chico Caldas! Mas tem outros excelentes fornecedores, como seu Alfredo Miranda, da Casa dos Licores, que dirige com sua companheira de luta e de afetos, dona Teresinha Mapurunga.
Ali, entra-se numa dimensão mágica de cozinhas de histórias de encantamento. Ele recebe na frente da casa e mostra os mais de 50 sabores de licores. Os doces estão na outra sala e vão do luxuoso buriti à jaca nativa da Serra, só para citar alguns.
O som do pife de taboca nos embala durante a degustação e também durante a compra. A mesa, sempre posta, tem café de ótima qualidade, petas e bulins com a grife de dona Teresinha. Mas a grande atração é a cozinha com seus fogões a lenha, suas “cunhãs” desenvolvendo uma coreografia de corpo de baile. Dona Teresinha comanda tudo.
As petas são feitas com óleo de babaçu e goma de primeira qualidade. Também são feitas roscas, bolos de sal, sequilhos, tudo o que a tradição manteve e dona Teresinha fez questão de ensinar à filha Teresa Cristina. A gente sai de lá com saudades.
E pode ir ao Tope, onde mora dona Fransquinha, louceira de primeira, junto à comunidade que faz maravilhas do barro e daí retira sua subsistência. Agora, com a Igreja de Nossa Senhora da Assunção restaurada, o programa se completa.
Assim é o município de Viçosa do Ceará. A cidade é mágica, se esconde e se mostra aos iniciados, aos que têm olhos para ver a beleza nas coisas simples e nessas pessoas encantadoras, que fazem o mundo melhor.
---------------
"A bruma cobre a cidade nas manhãs e à noite. Quando as nuvens roçam as serras, o Cristo, do Alto do Céu, fica encoberto"
Gilmar de Carvalho,
Jornalista, escritor e professor
- Capistrano de Abreu (1853-1927), historiador, que deixou obra de referência sobre o Brasil Colonial e um ensinamento básico: “Agora andam falando em reforma constitucional. Querem atribuir os erros à lei... Eu proporia que se substituíssem todos os capítulos da Constituição, decretando: - Artigo Único – Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara!”