
Postado por Manu Mey em 19/05/2007 11:14
Um tal Chico Buarque...
“Um dia Aliandro viu um carrinho estrangeiro, um cupê rosa-pálido de dois assentos e teto solar, quase um brinquedo, estacionado numa lateral do Hotel Plaza Paradis. Estava exposto ao deus-dará, tal qual num filme, com a porta encostada e a chave na ignição, e num vai-não-vai Aliandro já o pilotava ao longo da avenida à beira-mar, com o braço para fora da janela e um quinteto tocando jazz na FM. Começava a desenvolver velocidade quando o motor sustou-se, calou-se a rádio, e uma sirene estereofônica pôs-se a guinchar sob o capô como uma frota de ambulâncias. O carro ainda deslizou uns trinta metros e parou fazendo escândalo na pista central, à boca do túnel. O calção roto de Aliandro, suas sandálias de dedo, sua camiseta com anúncio de supermercado, seu rosto suarento – seu aspecto geral não condizia com um automóvel importado. Ainda assim ele julgou que poderia sair assobiando ela avenida, esgueirar-se entre os coqueiros e sumir no esgoto. Mas ao tentar abrir a porta, estava travada por algum mecanismo tenaz. O vão da janela era estreito, e se ele não tivesse dezenove anos e um corpo elástico, com certeza entalaria ali. Quando plantou as mãos no asfalto e arrancou-se do carro com uma cabriola, já estava cercado de povo e de veículos. Ajoelhado na rua, levou um pontapé no fígado, e pelas jugulares dilatadas de seu agressor deduziu que se tratava do dono do cupê. E mesmo depois de chutado nas costelas e no ouvido, compreendeu a ira do sujeito, a sua honra profanada, tão feminina era aquela miniatura de automóvel, como uma noiva virgem ou uma filha cor-de-rosa.
Aliandro se aprumou, teve de esquivar-se à queima-roupa de um novo proprietário, um gigante de queixo torto que vinha desabalado desde o fundo do túnel, brandindo uma barra de ferro com que estilhaçou o pára-brisa. Aliandro conseguiu galgar a capota do carrinho, cuja clarabóia estalou e cedeu de leve, e com isso pareceu exasperar todos os circinstantes, que sacolejavam a lataria e berravam ‘pega ladrão!’, alguns com gosma na boca, e urravam ‘mata! mata! mata!’ em coro mais estridente que a sirene. O carro estava para adernar, quando Aliandro saltou para a capota de um jipe e viu um banhista sacando um revólver da sunga. Antes do primeiro disparo acocorou-se, avistou uma cabine da polícia não muito distante e afagou o medalhão dourado com sua opala. Saiu pulando feito um sapo de capota em capota, e poucas vezes um ladrão terá buscado a polícia com tanta presteza e anseio. Aliviado, deixou-se algemar e conduzir à delegacia, onde tomou chutes no fígado e nas costelas, e barra de ferro na boca e cu adentro, porém confiante em que terminaria por safar-se inteiro, com a exceção dos oito dentes incisivos e de três caninos. O primo só veio liberta-lo ao cabo de uma semana, congratulando os camaradas da carceragem pela merecida lição. E Aliandro aprendeu com o primo a, por via de regra, arrastar automóveis com o motorista incluso. Passou a fazer ponto em esquinas arborizadas, à espreita do sinal vermelho, e na ausência do primo selecionava os carros não pela marca, ano, conservação, mas pela qualidade do refém. Dava preferência a garotas com canga de praia ou malha de balé, motoristas assustadiças às quais nem carecia de exibir a arma; bastava-lhe colar no vidro o rosto suarento, forçar a porta e pronunciar, banguela: ‘chega pra lá’. Não era raro que se afeiçoasse àquelas garotas depois de algumas horas, e ao despedi-las em campo longínquo, lastimava saber que rejeitariam proposta para futuros passeios.”
Comentários (2):
Em 22/05/2007, às 15:45:41,
luiza
disse:
conta mais.
por favor.
Em 29/05/2007, às 13:50:17,
tia ak
disse:
perfeito em si, muito noir, mas eu tenho medo no escuro
tia ak