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Saudades do Rio - O Clone

Categoria: Bairros e Cidades
Postado por Saudades do Rio - AD em 11/09/2008 01:42

Bonde 97 em Vaz Lobo - Rio 1958/1959
.

Recebi do Sr. Irajá está foto que mostra o bonde 97 Madureira – Penha - número de ordem 268 em Vaz Lobo.

Segue abaixo o texto enviado junto com a foto.

A.D.

"Os meus comentários sobre a foto:

O local é a Av. Ministro Edgar Romero na altura do numero 810 e cruzamento com as ruas Lima Drumond (a direita da nossa visão) e Ramiro Monteiro (a esquerda). O sentido da visão é de Madureira para o Largo de Vaz Lobo. O trecho imediatamente anterior a este, era denominado como “mata burros” a época dos bondes de burro (Madureira – Irajá, não existia o Penha), pois ali começa uma mais forte ladeira na fralda do Morro da Serrinha (berço da Império Serano - veja na foto que a via é em subida). Não trocando a parelha de burros junto ao largo de Vaz Lobo, o que era padrão ser feito, os animais não agüentavam.

O bonde é um 97 Madureira – Penha (que era a sua vista para não confundir com a linha Penha) e, pelo pouco numero de passageiros nos estribos, mostra que a foto deve ter sido feita por volta de duas da tarde. Por outro lado, para obtenção do ângulo em que se apresenta, é difícil imaginar de onde a foto teria sido obtida. Será que o maluco do fotografo ficou em cima de um caixote no meio da via de automóveis ?(*). Em cima de um veiculo - um caminhão talvez?

(*) Eu tenho plena certeza que tirar foto parado na pista teria que depender de muita sorte ou pedir alguém parar transito (mas veja que os lotações estão em movimento). E o motivo desta afirmação é simples: no mesmo ano desta foto e apenas mais ao fundo, em mesmo horário aparente, fazendo algo parecido (parar para paquerar uma menina), eu fui atropelado por um carro e por pouco não estaria aqui para lhe mandar foto.

Vemos vários lotações na pista de cimento para automóveis. Pelas suas características, os dois de frente e mais próximos, deveriam ser Irajá – Cascadura ou Penha – Cascadura (As linhas 712 e 721 hoje da Viação Três Amigos). Já o mais atrás destes e o ao lado, pelo modelo, eram da Viação Sameiro (hoje Transportes Caprichosa) e faziam a linha Madureira – Irajá.

Na esquerda da nossa visão, em primeiro plano, no terreno cercado de muro cimento armado, foi construída a Faculdade Nuno Lisboa (onde fiz a formação de Administração de Empresas) e é hoje uma unidade da Univer Cidade. Logo adiante, na esquina de Ramiro Monteiro, a Funerária Guimarães onde, e ainda nesta época, funcionou uns dos últimos telefones inter-urbano do Rio de Janeiro (era o Marechal Herme 6) . Abaixo, no quarto poste e em esquina da Rua Leri, estava a Farmácia do Jorge, farmacêutico amigo e muitíssimo estimado na região. Mais abaixo, em recuo que não permite ser visualizado, estava o Colégio Cristo Rei, ex Ginásio Manoel Machado, este um dos sócios da ferro carril de burros. Hoje é um terreno sem edificações pela demolição do Colégio. No seu terreno foi a garagem, curral e pastos da empresa, e é o que aparece em fundo da foto postada em http://fotolog.terra.com.br/znorte:137.

Ao fundo da foto, o largo de Vaz Lobo.

A nossa direita da pista de concreto, esta a via exclusiva de bondes com duas linhas. A que o bonde esta é a mão em sentido de Madureira e a outra, dobrando a direita no largo de Vaz Lobo ao fundo, seguia o 97 para Penha, também em linha dupla, mais em pista de paralelepípedos. Seguia em linha reta o 98 para Irajá, em igual pista exclusiva (e de mesmo lado), porem de linha singela, com três desvios de cruzamento até o final. Sua circular era em frente a Igreja de N.S. da Apresentação de Irajá (ver http://fotolog.terra.com.br/znorte:143 ; 144 ; 145 e 146).

Esta pista exclusiva era de uma camada de saibro branco com terra, que recobria os dormente e as britas de calçamento do leito do trilho. No trecho fotografado pode-se observar esta cobertura levemente removida, e a razão esta junto a calçada a nossa direita.



Comentários (28):

Em 14/11/1973, às 07:40:20, Saudades do Rio - AD disse:
continua...

"A direita da nossa visão esta um de dois detalhes que permitem datar esta foto.
Observe junto ao primeiro poste uma pilha de dormentes, e do outro lado, junto ao muro de concreto e deitado no chão, um poste. Este detalhe me faz garantir que esta foto é anterior a junho de 1959. Motivo: O poste deitado é substituto, pois ainda é o mesmo até hoje, do segundo poste junto a murro de concreto e que esta bem colado ao trilho (compare pelo telhado do bonde). Ali era o ponto do bonde no sentido para Vaz Lobo (**), e o poste, muito junto da calçada, quando o bonde saia, raspava sempre nas costa de alguém, mesmo com o celebre “olha direita” nem sempre ouvido. Entretanto, tempos antes da foto, por duas vezes um condutor levou uma pancada forte, e na última foi retirado do estribo e jogado ao chão com sérios ferimentos (o bonde não tinha passageiros a saltar ou embarcar e pasou direto). Por causa deste acidente, na primeira manutenção de linha, a Light fez a troca do poste, colocando o novo bem mais colado no muro, havendo apenas o espaço entre eles, no qual só era possível de caber uma pessoa magra como eu era (atualmente o muro não mais existe e eu já muito não sou magro). A certeza de não ser posterior a julho de 1959, é que no segundo semestre deste ano eu ali fica esperando ver a namorada sair de casa, que meses antes mudara-se para o prédio de apartamento a esquerda da visão (precedendo o espaço da atual universidade), para então, descendo um pouco mais, atravessar via e acompanhá-la até ao Cristo Rei. Eu ficava escondido entre o poste e o muro para a mãe dela, mais tarde sogra e que já me conhecia, não ver que eu estava ali em horário proibido a namoros. É vida.... e no ano que vem vai fazer isso cinqüenta anos.


Em 14/11/1973, às 07:40:25, Saudades do Rio - AD disse:
continua...

"
Também posso assegurar que a foto não é de antes de dezembro de 1958, pois prédio da namorada foi entregue a residência neste mês/ano e o muro, que cerca o terreno seguinte, estava quebrado na curva da esquina, para entrada de material de sua obra, o que só foi restaurado após a conclusão do prédio. Os pais da namorada mudaram-se para lá neste mesmo mês, sendo eles os primeiros moradores. Eu antes disso ia ao encontro dela em Madureira, onde então morava. Após briguinha de adolescentes na em fevereiro de 1959 (ambos em férias escolares), só voltamos ao namoro no julho de 1959. Assim, a data da foto é entre dezembro de 1958 e julho de 1959.

(**) No sentido Madureira o ponto era com o carro motor na ponta da funerária. O bonde já esta tomando velocidade para a subida e os lotações, que tinham que parar quando o bonde parava, já estão retomando o deslocamento – bem próximos um dos outros."
Em 14/11/1973, às 07:47:45, Beatrice Portinari disse:

O Sr. Irajá escreve (descreve) com um brilho admirável. Que Sr. Irajá nos reserve outras grandes e inesquecíveis surpresas!

Em 14/11/1973, às 07:54:34, Rei dos bondes disse:
Simplesmente brilhante! Excelente Irajá! Tem mais foto ou isto é somente para aumentar o T-são?

Eu discordo do ângulo descrito na foto postada em http://fotolog.terra.com.br/znorte:137

Na qual o morro da direita deveria ser o Morro do Sapê, mas como apresentado na foto está muito baixo. Um dia pretendo encontrar o Irajá no local para fazer pesquisa de campo, e se não chegarmos a um comum acordo restará o duelo: muita pitomba vai rolar!


Em 14/11/1973, às 08:01:53, Luiz D´ | página pessoal disse:

Que texto!

Que todos o leiam e, como eu, se transportem para a década de 50 e se sintam dentro do bonde ou de um desses lotações, depois de um bom almoço, indo passear em Madureira.

Excelente!
Em 14/11/1973, às 08:09:52, Rouen | fotolog disse:
Bonde Off-Road ?
Em 14/11/1973, às 08:31:09, Helio Ribeiro disse:

Foi a descrição mais minuciosa que já li de algo, principalmente se levarmos em conta os 50 anos decorridos entre o dia de hoje e a foto. Fantástica a memória do Sr. Irajá.

Não sei se repararam, mas todos os lotações possuem uma faixa branca horizontal, a meia altura da carroceria. Cada lotação possuía uma cor de faixa: verde, marrom ou branca, dependendo da área da cidade onde circulava. Não sei me alongar muito sobre o assunto, mas a faixa branca era usada pelas linhas dos subúrbios mais distantes.
Em 14/11/1973, às 08:31:36, Rei dos bondes disse:
Hélio Ribeiro,
Eu já havia me esquecido das tais faixas com diferentes cores à meia altura da carroceria dos lotações. Tua observação é correta.
Em 14/11/1973, às 08:34:12, Helio Ribeiro disse:

Ao AD: estou enviando para seu email duas fotos de bondes, respectivamente: 267 (linha 98 - Irajá) e 368 (linha 97 - Madureira - Penha), solicitando o obséquio de, a seu critério, postá-las para uma análise do Sr. Irajá, a quem agradeço de antemão. Ambas constam para mim como sendo av. Ministro Edgard Romero.

A do 267 consta como sendo de 1957 e a do 368 como 27/02/55.

Grato.


Em 14/11/1973, às 08:40:23, Rei dos bondes disse:
A curiosidade em ver as fotos mencionadas pelo Hélio Ribeiro é imensa. Por favor, não as publique simultâneamente para facilitar a análise, uma foto de cada vez.
Em 14/11/1973, às 08:41:04, Helio Ribeiro disse:

Rei dos Bondes, foi isso que pedi ao AD: para não publicá-las no mesmo dia.
Em 14/11/1973, às 08:42:15, Derani | fotolog disse:

Excelente a descrição do Irajá !

Como o Luiz D', me transportei no tempo.
Em 14/11/1973, às 08:52:17, Fábio André disse:
Mais um excelente texto do Irajá.

Esta subida na Edgar Romero entre o largo de Vaz Lobo e Madureira é que não consigo enxergar.
Em 14/11/1973, às 09:00:34, Rei dos bondes disse:
Fábio André,
É por causa da perspectiva pois a foto é tirada de cima. Como já foi dito pelo Irajá é provável que o fotógrafo estava em pé, em cima de algum veículo, talvez na carroceria de algum caminhão. Esta subida não é muito íngrime mas é longa "pra burro", sim coitadinhos dos burrinhos da época. É cálculo que toda a extensão deve ser pelo menos uns 500 metros.
Em 14/11/1973, às 09:00:47, Rei dos bondes disse:
É cálculo=Eu calculo
Em 14/11/1973, às 09:01:38, Fábio André disse:
Não é exatamente pela foto. Já passei zilhões de vezes por este trecho e não percebo subida em direção à Madureira.
Em 14/11/1973, às 09:02:17, Rei dos bondes disse:
Fábio André,
CLARO que há uma P e longa subida. Você diz que passou zilhões de vezes pelo trecho. Então na próxima vez (zilhões + 1), salte no Largo de Vaz Lobo e caminhe 1 km em direção a Madureira. Pode-se dizer que esta parte da Edgard Romero está praticamente nas abas do nostálgico Morro da Serrinha. Viva o Império Serrano!
Em 14/11/1973, às 09:03:50, Fábio André disse:
O trânsito lá é tão horrível que é complicado perceber detalhes. Amanhã estarei por lá e tentarei ver com mais cuidado.
Em 14/11/1973, às 09:04:24, Rei dos bondes disse:
Eu não passo por lá a muitos anos e não sei como está o trânsito atualmente. Vai a pé e se possível puxando uma carroça. Depois me conta!
Em 14/11/1973, às 09:52:42, Irajá disse:
Helio Ribeiro: A muito tempo eu ando a procura de uma foto especifica do 98. Providencial o seu envio ao AD.

Fábio André: Realmente em carro ou ônibus quase não dá para perceber a longa subida. Por outro lado, no final dos anos 70 houve alguma terra planagem quando duplicação da pista de concreto, em lugar da dos bondes. Mas, passando o predio da Univer Cidade, observe a direita (no de sentido Madureira) o desnivel das edificações mais antigas. O primeiro predio ápos a universidade é o que citei como o da namorada. No após este (de dois pisos), eu morei entre 71 e 74. Você podera observar que o patio interno do prédio esta bem abaixo da estrada.
Em 14/11/1973, às 10:04:44, JBAN disse:

Que aula !
Em 14/11/1973, às 13:46:51, Laerte disse:
Não há dúvidas que existe a tal subida na Edgard Romero. Em frente ao antigo campo do Cajueiro ela é perfeitamente sentida. Com relação aos textos, realmente admiráveis. É muito legal quando se constata a existência de algumas pessoas com tanta riqueza nas lembranças.
Em 14/11/1973, às 14:18:11, Imperador do Subúrbio disse:
Excelente a foto da Av. Min. Edgar Romero e também a detalhada descrição do Sr. Irajá sobre a mesma, o que nos faz levar de volta a um passado, ainda que não vivido, mas composto de uma "aura" que lhe confere uma unicidade e autenticidade, como diria o célebre filósofo Walter Benjamin. Só gostaria de observar o seguinte: nos textos, ao indicar tempo decorrido, utiliza-se o verbo haver na terceira pessoa do singular. Por exemplo: "´HÁ muitoa anos que não passo por aqui"; "HÁ muito tempo que não vou lá". E não "A muito tempo", "A anos que não passo por aqui" etc. Falemos do passado, empregando corretamente o verbo haver.
Parebéns pelo fotolog!
Abraço a todos!
Em 14/11/1973, às 14:19:01, Imperador do Subúrbio disse:
Parebéns pelo fotolog?!?! rs
PARABÉNS PELO FOTOLOG!!!!!!!
Em 20/12/1973, às 11:47:54, PESQUISADORA DE CAMPO GRANDE | e-mail disse:
Sua descrição foi perfeita, PARABÉNS PELO FOTOLOG E SUA ESCRITA.Um desses acidentados pode ter sido o meu avô, que se aposentou pelo acidente do bonde.
Em 25/12/1973, às 11:04:51, Sergio disse:
Que saudades do meu Vaz Lobo, onde morei no 135 da Rua Bezerra de Menezes.
Eu era feliz e não sabia.
O Rio era o melhor lugar do mundo para se viver.
Hoje estou em Sampa. Não deu para conviver com tanta violência e incompetência dos (des)Governos passados. Espero que o meu xará melhore a situação.

abraço a todos os meus conterrâneos.
Em 28/12/1973, às 12:10:01, Ronaldo disse:
Fui aluno do Colégio Cristo Rei. Embora morasse em outro bairro, curti muito Vaz Lobo. Tornei-me aluno daquela inesquecível instituição em 1962, e ainda cheguei a ver os bondes em suas idas e vindas. Aliás, a criançada colocava latinhas com vidro quebrado nos trilhos para moe-lo e fazer cerol (cortante) para linhas de pipa. Daquele Rio, só nos restam as fotos. Um abraço a todos
Em 31/01/1974, às 16:45:41, Ricardo Bronzo | e-mail disse:
Nasci em 55 e meus avós moravam na rua Leri.Rafael e Clementina.Ele tinha um bar/sinuca,após o largo, sentido Irajá:Conhecidíssimo.Nas minhas férias,andava de bonde c/meu saudoso avô;Q.saudades!!s/violência era só alegria.Comprávamos pipoca e subíamos no bonde e o tempo passava assim...
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