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TAIGUARA - "Que As Crianças Cantem Livres"

Postado por Poti/Tajira/Moína em 25/05/2005 20:47

TAIGUARA, A VOLTA COM O LP FEITO EM CURITIBA
Jornal Estado do Paraná, 26/10/1983

TABLÓIDE - Por: Aramis Millarch

TAIGUARA, A VOLTA COM O LP FEITO EM CURITIBA

Durante várias semanas um dos mais famosos compositores e intérpretes brasileiros esteve em Curitiba, meio anonimamente, fugindo de qualquer contato com a impresa - Taiguara (Chalar da Silva), 38 anos - completados no último dia 9 de outubro. A exemplo de Geraldo Vandré, Taiguara sofreu muito com a ação da censura no período mais duro da repressão, a tal ponto que deixou o Brasil - inicialmente indo para a Inglaterra, depois para a África. Amargurado, havia prometido que não voltaria mais a gravar e cantar no Brasil. Há 2 anos, entretanto, começou a fazer um disco na Continental, que teve duas faixas antecipadas num compacto simples. A produção se tornou complicada e a idéia do disco estava para ser abandonada., quando Taiguara veio a Curitiba, para reencontrar-se com o admirável e já lendário maestro Lindolfo Gaya, hoje arranjador do Sir - Laboratório de Som & Imagem. Aqui, durante dezenas de horas de gravações, Taiguara colocou voz e alguns instrumentos nas trilhas anteriormente registradas nos Estúdios Reunidos, em São Paulo. Foi um trabalho emocionante, sofrido - que teve em Carlos de Freitas, sem favor nenhum, hoje um dos mais competentes engenheiros de gravação do País (além de excelente baterista, integrante do Samjazz). Um dos responsáveis por sua conclusão. Artista em busca de perfeição, exigente, emotivo, e, sobretudo político, Taiguara transformou cada sessão de gravação, num verdadeiro acontecimento. Houve dias em que mais falava sobre política do que cantava. Outras vezes, emocionado, chorava em algumas gravações - como testemunhou o jornalista Luiz Augusto Xavier, que descreveu isto em coluna ("Tribuna do Paraná": 16/10/83): "Foram momentos maravilhosos. Aquele silêncio, a introdução e a voz de Taiguara descendo firme, preenchendo todos os espaços do Sir, nessa nossa Curitiba. Aqui, ali, escondido do outro lado, lágrimas contidas, outras incontroláveis, emoções correndo em mim e um sentimento todo posto pra fora".
A prolongada ausência de Taiguara dos discos - seu último elepê, "Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara", foi feito em 1976, na Odeon - e nos shows (praticamente desde 1973), não fez com que ficasse esquecido. Desde 1965, quando gravou as músicas do filme "Crônica da Cidade Amada", de Carlos Hugo Christensen, Taiguara fez uma série de elepês marcantes.

Músicas românticas, mas que nunca deixaram de ser participativas. Um curso de Direito interrompido na Mackenzie, a vivência no salutar movimento musical de São Paulo do início dos anos 60 e a melhor fase dos festivais, defendendo músicas como "Modinha" (Sérgio Bittencourt), "Helena, Helena, Helena" (Alberto Land), "Negróide" (de sua autoria), no III FIC (para só citar algumas referências básicas. Enfim, um artista da maior importância, que ao lado de músicas consagradas como "Universo no Teu Corpo" e "Que As Crianças Cantem Livres", tem variedades jóias, pouco divulgadas - e quem em Curitiba, tem e Cesar Ribeiro da Fonseca, um dos maiores conhecedores de sua obra, um bom intérprete.

A imprensa nacional está dando, com razão, um merecido destaque ao retorno de Taiguara ao disco. Há algumas semanas, no "Pasquim". saiu uma irada entrevista - mas bastante esclarecedora das posições políticas e andanças de Taiguara nestes últimos anos. ("Canções de Amor e Liberdade, seu disco lançamento da Continental, capa de Jaime Leão) - traz 12 músicas da maior força e que exige audição atenta. Seu pai, o bandoneonista Ubirajara (e que viveu alguns anos em Montevidéu, ali casando com a cantora Olga, e lá nasceu Taiguara), tem uma participação especial e emotiva neste disco que abre com "Anita", construída a partir de uma epigrafe famosa de Che Guevara: "Hay que endurecer / pero sin perder / La ternura / Jámas").

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Comentários (4):

Em 25/05/2005, às 21:36:31, Poti/Tajira/Moína | fotolog disse:
Em seguida vem "Índia", a clássica guarânia de J. A. Flores, que, como bem lembrou Nilson Monteiro ("Folha de Londrina", 6/10/83), numa tradução que respeita a letra original de Oriz Guerrero, para quem a imagem da índia era a verdadeira face da América Latina. Naturalmente, o mais conhecido harpista paraguaio (embora há mais de 20 anos vivendo em São Paulo), Luís Bordon não poderia ser dispensado de participar. "Voz do Leste" - que ao lado de "Che Tajira", só foi liberada em 12 de maio último, por unanimidade, pelo Conselho Superior de Censura - é uma canção de ritmo rural, mas das mais profundas. Para interpretá-la, Taiguara convocou a dupla Cacique e Pajé ("Sou Voz Operária do Tatuapé / Canto enquanto enfrento o batente co´a mão / Trabalho no ritmo desse Chamamé / Meu pouco salário faz minha ilusão / Vivo como posso e me deixa o patrão / E enquanto respira dessa chaminé / Meu povo se vira e não vê solução".). "Mais Valia" é um rasqueado, com uma inteligente utilização da dupla interpretação desta expressão . Mas é sem favor, "Estrela Vermelha" (Do Crepúsculo do Sul), um tema originalmente composto pelo avô de Taiguara - o velho Glaciliano Corrêa da Silva, (que também era músico e cantor), a que mais tem entusiamado os que a ouviram. Luís Augusto Xavier, que a considera "uma das mais lindas de todo o cancioneiro nacional", conta que fez o estúdio todo chorar e impediu - por algumas vezes - que o autor conseguisse gravá-lo até o final, por situá-lo em plena arrancada para o exílio, através dos seus versos fortes: "Chão do meu lar / litoral que te vejo azular / Cruz de luz que te sinto pesar / Brilho...queimar que me dói / cor de sangue que nós / não conseguimos derramar". Cada canção tem sua estória e seu significado, fazendo deste elepê gravado em parte em Curitiba, por certo um dos lançamentos mais importantes do ano.

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Em 25/05/2005, às 21:46:53, Poti/Tajira/Moína | fotolog disse:
"O Amor da Justiça" tem, por exemplo, um arranjo marcante do maestro Gaya - sem o qual, talvez o disco não tivesso sido completado - é um bolero que coloca a opção do artista por um amor novo, calcado na justiça e na luta comum. O sentido latinista do álbum é dos mais fortes: "América del Índio", um poema ameríndio, com letra em espanhol: "Avanzada", música e letra de Oscar Safuán; "Che Tajira" - também com letra em espanhol e "Marília das Ilhas", na qual a guerra das Malvinas é vencida pela Argentina ("E o gringo que invadiu teu lar / A um índio vai ter que enfrentar").
Enfim, um disco pensado, amado, sofrido - onde nada foi gratuito. Por isto mesmo, merecedor de um tratamento especial - e ocupando hoje, espaço nobre em nossa coluna diária, ao invés do registro habitualmente feito para os lançamentos fonográficos em nossa página dominical.

FIM DA MATÉRIA.
Em 26/05/2005, às 09:07:43, jocimar | página pessoal | e-mail disse:
MARAVILHA! Inserção perfeita de Exemplo de divulgação da obra de nosso Mestre Maior. Obrigado em nome dos taiguarianos e dos que ainda virão a ser... com certeza - abreijos
Em 26/05/2005, às 16:58:11, Lucio | página pessoal | e-mail disse:
Quando a gente pensa que não teríamos mais tanta coisa pra saber, eis que vcs vêm e nos mostram sempre algo novo desse mestre da MPB. Muito legal!!!

Que Deus os abençoe e que continuem com esse trabalho!!! Estejam certos de que essas histórias estão influenciando os comportamentos de algumas pessoas que querem mudar a situação social e cultural em que vivemos.

Um grande abraço!!!

Lúcio
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