TAIGUARA - "Que As Crianças Cantem Livres"

Postado por Poti/Tajira/Moína em 28/05/2005 19:15
TAIGUARA VOLTA AO DISCO COM FORÇA TOTAL - 1983
Folha de São Paulo, 02/11/1983
TAIGUARA VOLTA A CANTAR EM FAVOR DOS OPRIMIDOS
Cantor romântico nos anos 60, ele lança um novo LP após longa "greve"
Vários quilos a mais, alguns fios brancos rabiscando a cabeleira negra, roupa safári de cor neutra, muita vontade de falar. Num encontro casual talvez fosse preciso olhar duas vezes para Taiguara, para reconhecer nele o cantor de "Modinha", "Helena, Helena, Helena", "Universo no Teu Corpo" e as tantas mais que as rádios continuaram tocando nesses anos todos de ausência - no palco e nos discos - e cuja vendagem, reconhece, garantiu a sobrevivência da família Chalar da Silva, composta por quatro filhos (um do primeiro casamento) e a mulher Eliane, neta de índios, professora primária.
O cantor e compositor tem um bom motivo para romper o silêncio - "minha greve de soldado" - motivado pela revolta e pelo cansaço de tantas músicas proibidas (44 ao todo) e pelo comodismo de sua então gravadora EMI, que em 76 rompeu o projeto de lançamento do LP "Imyra, Tayra, Ipy", gravado com Hermeto Pascoal, o Som Imaginário e Novelli, distribuindo apenas as cinco mil cópias da primeira tiragem. Hoje, mais maduro ele apresenta ao público o 8º disco da carreira de quase duas décadas, "Canções de Amor e Liberdade", pelo selo Alvorada, da Continental, que traz nos objetivos a homenagem à cultura latino-americana, e a tentativa de "conter os assassinatos das populações indígenas".
Foram dois anos de trabalho, gravações nos estúdios Sir, do maestro Gaya, a assessoria - para o acento platino - do maestro Oscar Safuan, a instrumentação de uma série de músicos: Luís Bordon na harpa paraguaia; Joelson Lima no coco, maracas, charango e violão; Rubão no bongô, pandeiro e ganzá; Gabriel J. Bahlis no baixo elétrico; Taiguara no piano e arranjos de cordas; Cacique e Pajé em participação especial na "Voz do Leste" - esta, uma "expressão sertaneja", agora liberada pela censura , como a zamba portenha "Che Tajira" , cuja mensagem é o futuro da libertação. "Moína Me Sorriu", composta em Paris durante um exílio, traz a viagem romântica pelo futuro da mulher, enquanto "Estrela Vermelha" (de seu avô Glaciliano, pai do bandoneonista Ubirajara Silva) é a explosão dos sentimentos de pai e filho, letrada por Taiguara.
Mas isso não é tudo no disco pensado como reavaliação desses povos massacrados, onde o cantor/compositor percebe "uma herança cultural", inclusive na música sertaneja. ´Veja o baião e pataxó, o rasqueado é guarânia, o cachado é potiguar. E por isso fui buscar a herança da minha infância vivida no Rio Grande do Sul e no Uruguai`.Daí entraram também "Índia", numa versão/tradução que reinterpreta o original de Ortiz Guerrero; e as dele próprio, "Mais Valia", um rasqueado brasileiro imaginando o arrependimento de um patrão por ter-se deixado destruir , "Marília das Ilhas", onde a Guerra das Malvinas é vencida pela América Latina, "América del Índio", a comemoração do futuro das Américas, "O Amor da Justiça" bolero sobre a distância dele de seu país.
Taiguara faz projetos. Depois de um show em Manaus, em maio último para duas mil pessoas, prepara-se para o dia 30 de dezembro, quando cantará no Maracanãzinho, no show-lançamento promovido pela TV Bandeirantes. Vai longe o tempo dos encontros no Teatro Santa Rosa , no Rio, onde vários dos bons da MPB - Milton Nascimento, Marcos Valle, Paulo Moura, Wagner Tiso, Novelli, Menescal, Ronaldo Bôscoli - se empenhavam no movimento Músicanossa, regado a acordes, discussões, cervejinha de fim de noite e depois (no caso dele) um supimpa coletivo barulhento, a reconduzi-lo de volta ao lar, em Santa Teresa, passando pela Lapa.
"Por que o selo do cantor romântico?" "Filho de músico/operário de três empregos, prestação do BNH para pagar, telhado da casa precisando de conserto, Taiguara Chalar da Silva, nascido uruguaio, brasileiro por opção, não era bem um fruto de Ipanema ou do Leblon, conforme explica.
CONTINUAÇÃO NOS COMENTÁRIOS ABAIXO:
Comentários (3):
Em 28/05/2005, às 19:35:01,
Poti/Tajira/Moína
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fotolog
disse:
A carreira deslanchada em 65 (1º disco pela Philips holandesa, com sambas e toadas) firmou-se no calor dos festivais, nos shows universitários - com Tuca, Toquinho, Bossa Jazz Trio - no João Sebastião Bar, velho de guerra, nos shows pela madrugada, regados à poesia.
"Fui eleito cantor romântico com "Modinha", "Helena, Helena, Helena" e tantas outras, num tempo em que a AI5 impedia a música como pesquisa, bloqueava o sonho do socialsmo. E a gente sem saber muito, sem consciência... Eu continuava produzindo no Musicanossa havia gente que não se importava com o cunho político - como Paulo Moura, Valle, Tiso - e gente que classificava certas músicas como ´chatas`, ao falar da fome e de um futuro melhor. Em 68 era fácil achar certas coisas chatas e selecionar o romântico, como faziam Bôscoli e Menescal; e assim lavava-se o cérebro das pessoas. Eu não tinha as possibilidades familiares e econômicas de um Chico Buarque, precisava me manter. Não fazia parte da Zona Sul, de Ipanema, não tinha página aberta no Pasquim para publicar a letra proibida. Mais ia com muita frequência à Censura, conversava para ver se podia mudar versos de alguma maneira; em 72, aquilo era questão de sobrevivência. Hermínio Belro de Carvalho, dizia:`companheiro, filho de Ubirajara, deixa pra lá e enche um arquivo. A repressão também tem o seu. Um dia você poderá cantar suas coisas. Foi o único.` ".
Daquela época é "Carne e Osso", seu último disco romântico contendo "A Ilha", sobre a experiência da juventude na Ilha dos Pinus em Cuba. Depois compôs ("Sim" viver é derrubar paredes), um espécie de grito contra o não tropicalista e "Essa Pequena", recado para uma censora.
Taiguara compôs, brigou, foi para a Europa, viveu na Inglaterra, onde estudou na Ghildhall School Music e fez um disco em inglês e português, jamais editado, mas esquecido pelo trabalho posterior com Hermeto Pascoal no "Imyra, Tayra, Ipy".
CONTINUA NO PRÓXIMO COMENTÁRIO:
Em 28/05/2005, às 19:50:34,
Poti/Tajira/Moína
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fotolog
disse:
Envolvido com a volta às gravações, revela ter abandonado a sua greve particular para cantar em dois aniversários de Prestes, "único líder que tem se mantido coerente à classe trabalhadora."
E foi nos candidatos do velho líder que votou no dia 15 de Novembro. "Olha, ajudei a contruir o PMDB, rompi, ajudei na campanha do Brizola, mas hoje estou com Lula e Meneguelli, com quem entende de sindicato. No PMDB, fiquei contra o paralelismo sonhado pela oposição sindical, por acreditar que se deve conquistar com o que está aí, e não com atrelamento ao Ministério do Trabalho. O movimento foi progredindo, não foi possível acompanhar lá, mas vi a oposição sindical se transformando, com os trabalhadores , num novo sindicalismo, sem paralelismo, e que demonstra, na prática, a liderança mais coerente a nível sindical. A nível de partido, não posso dizer que no âmbito desses que aí estão, permitidos pela ditadura, eu encontre uma identificação direta com a causa operária, mas deles o mais próximo é o PT".
Em 30/05/2005, às 09:36:39,
João Henrique Weber Ruiz
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página pessoal
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e-mail
disse:
Taí o Taiguara que a gente nunca vai esqueçer....forte e bravo como um leão, nunca ressiquido por dor forte, nem abatido pela repressão....Taiguara, um nome lindo de um exemplo de vida mais lindo ainda...
PS>Valeu Moina pelo feliz aniversario lá no orkut.....bjs a todos fãnáticosssss
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