Terra Terra Fotolog
ESPAÇO LIVRE

UM FOTOLOG GENÉRICO. SECOS E MOLHADOS, ATÉ ENLATADOS.

Categoria: Bairros e Cidades
Postado por Candeias em 07/05/2012 12:39

TÍTULO: UMA HISTÓRIA DA URCA
Fotografia 2/2


No começo dos anos 90 estava passando o carnaval aqui em Boca do Mato, onde moro desde 2001. Assistia ao desfile das Escolas de Samba e acabei dormindo diante da TV. Quando acordei, antes de desligar o aparelho, resolvi dar uma espiada no Canal 2, TV Educativa, para ver se havia alguma coisa de interessante. Era o exato momento em que começava a exibição de Edu, Coração de Ouro, de Domingos de Oliveira, com Paulo José na paquera de uma bonita moça. A cena se passa no Arpoador. Resolvi ficar para era como era o Rio nos anos 60, já que o filme é de 1968.

A moça dobrou a esquina e de repente estávamos em plena Copacabana, ali pela Praça Serzedelo Correia. Logo depois aparece Paulo José já na Urca, correndo pela Avenida João Luiz Alves. Aquilo logo mexeu comigo e imediatamente me levantei como que antecipando alguma coisa porque a moça aparece caminhando pela Rua Joaquim Caetano, já perto da Manuel Niobei, indo em direção à escadaria que une a rua à Avenida São Sebastião. Eu morei na Manuel Niobei, quase na esquina com a Joaquim Caetano, na primeira metade dos anos cinqüenta e aquele era o meu reduto. A garotada brincava e jogava futebol exatamente no pedaço mostrado na primeira fotografia e costumava ficar sentada nos degraus da parte de baixo conversando.

Ela começa a subir a escadaria e Paulo José vai atrás. A câmera o acompanha e se detém no exato momento em que ele passa pelos degraus onde, em 1954, a garotada escreveu seus nomes com tinta branca e o nome CARLOS, escrito em maiúsculas, aparece em destaque. Era o meu nome, escrito por mim muitos anos antes e que a produção se limitou a reavivar, mantendo exatamente a minha grafia.

Aquilo me emocionou de tal forma que desliguei a TV, fui para a cama e demorei muito tempo para conseguir dormir. Vinham as lembranças das trocas de figurinha com jogo de bafo-bafo, das pipas soltadas do alto do Edifício Cairo, das brincadeiras de queimado com as meninas participando, dos disputadíssimos ”jogos contra” de futebol, e dos meus amigos todos: do Luizinho, dos irmãos Raul e Arnaldo Serpa, do Gil, dos irmãos Jorginho, João e Zezé, dos irmãos Igor e Tuca, do Chiquinho Gavião, do Ivair Cambraia (apelido impensável nos dias de hoje porque era negro retinto), do Luiz Monô, meu companheiro de pescarias, do Waldir Índio, do João Catai, do Valmir, dos irmãos Ceará, Patola e Parede, do Tutuca (Arthur Verocai), dos meus irmãos Wilson, Ruth e Clovizinho, do meu primo Sérgio Paulo, dos irmãos Hélio e Hélcio, que torciam pelo Bangu, dos irmãos Tatalo e Ximbica e do Lothar Baudach. Havia também as bonitas meninas como Iara, irmã do Tutuca, a Lourdes, irmã do Gil e a mais bonita de todas, a Hiltrud, irmã do Lothar. A casa deles era a que aparece à direita, ao lado da escadaria.

Essa história nunca me saiu da cabeça, até que um desses entrei na Livraria da Travessa em Ipanema, criei coragem e comprei o filme em DVD, de onde capturei esses fotogramas.



Comentários (29):

Em 27/03/1974, às 18:04:45, Lavra disse:
A Urca é um bairro ALEM DA IMAGINAÇÃO.

1- Não existe esse negócio de morador e ex morador. A qualidade perdura pela vida inteira.

2 - Por algum efeito mágico, um morador rechonhece outro mesmo se encontra-lo no deserto de Gobi.

3 - Dois moradores mudam de fisionomia quando se encontram.

Sei porque meu pai fazia parte desse grupo.
Em 27/03/1974, às 18:05:32, NALU disse:
Candeias, que experiência! Acho que a palavra para isso é "serendipity".
Um pouquinho dessa enorme emoção respingou em mim, ao ler o nome de Artur Verocai, que foi meu colega de Científico, no Andrews, junto com Paulinho Tapajós, por um ano. Aprontávamos muito e, como resultado, levei bomba...
Ainda guardo a foto da turma.

Em 27/03/1974, às 18:06:32, Lavra disse:
Ótima lembrança do termo "serendipity". Isso mesmo. Tamém fou colega do Paulinho Tapajós só que na faculdade.
Em 27/03/1974, às 18:11:45, Ruth Maria de Mendonça Lifschits | e-mail disse:
Sou a irmã do Carlos, mencionada no texto. Urca é Rio gostoso, dos tempos em que a rua era para todos, o lugar dos encontros e brincadeiras. Ninguém ficava enfurnado dentro de casa, escondido e "protegido". Íamos para o colégio a pé, andávamos de ônibus na boa, sem babás, motoristas ou atrelados a papais e mamães vigilantes e preocupados com segurança. Tempos bons! Encontrei minha nova Urca na Gávea, bairro ainda tranquilo, com tudo que gosto: calçada, esquina, comércio pequeno e simpático, comerciantes antigos que nos conhecem e cumprimentam e ainda surgem boas oportunidades de bons papos com as pessoas na rua, esperando para atravessar a rua, na padaria, no ponto do ônibus... Na Gávea pude continuar com a boa sensação de viver em bairro residencial gostoso, a que tinha na Urca. Só falta o mar!
Bom texto, mano. Gostei de reler os nomes de todos, mil histórias pularam na minha tela mental. Bom mesmo!
Saudades.
Em 27/03/1974, às 18:11:57, Antonio Trajano disse:
Já disse e repito mais uma vez: nasci na Urca e ali vivi até os 26 anos, quando me casei..... por acaso, depois morei lá, já com dois filhos, por mais 2 anos..... estou há mais de 30 na Gávea..... a despeito de ali estar há tanto tempo, considero a Gávea um lugar de passagem.... a minha cabeça e o meu coração sempre estiveram e estarão na Urca..... se vier a ser cremado um dia, quero que as minhas cinzas sejam espalhadas pelas árvores da Rua Otávio Correia......
Em 27/03/1974, às 18:13:00, MORALINO DOS SANTOS disse:
A pichação vem de longos tempos.
Em 27/03/1974, às 18:14:29, WHM disse:
Candeias, posso bem imaginar o que é que você deve ter sentido. Ainda mais que parte dessa história eu já conheço, com a tentativa de localização do Lothar. Aproveitando o ensejo, eu te pergunto, que fim levou a carta ? Alguma resposta, mesmo que negativa ? Seria fantástico se conseguíssemos localizá-lo, não é mesmo ? Se a dita não funcionar, teremos que tentar de outra forma...
Em 27/03/1974, às 18:15:10, WHM disse:
Caramba, Candeias, acabei de andar pela região de SV. É um local fantástico, ainda cheio de casas e árvores. Em que número você morou na Manoel Niobei ?
Em 27/03/1974, às 18:15:53, Candeias disse:
Walter, não tive resposta até hoje. Quanto ao endereço, confirmei por outra fonte ser mesmo aquele, bem como o telefone. Se algum dia for à Europa, tentarei dar uma ligada.
Eu morava no número 63 da Manuel Niobei, segundo andar.
Em 27/03/1974, às 18:17:33, WHM disse:
Caramba, Candeias, você não precisa ir à Europa para telefonar. Telefona daqui mesmo e vamos ver se êle ainda entende o português...Se não der, você fala em alemão com êle, como você o fez nessa entrevista...
http://www.youtube.com/watch?v=AdNii92v1PY
Em 27/03/1974, às 18:22:13, WHM disse:
Seria êste o edifício onde vocẽ morou, Candeias ?
http://g.co/maps/f5u3j
Em 27/03/1974, às 18:23:17, Docastelo disse:
Olha, turma, isto pode parecer brincadeira, mas não é. Por diversas vezes comentei sobre minhas experiências com incríveis coincidências pela vida (um dia alguém me chamou de Mister Coincidência...), que foram acrescidas de outras depois de frequentar os fotologs (a foto com meu pai foi umas das postagens do Saudades do Rio-AD). Agora mais uma. E tinha que ser no flog do meu querido Candeias. Pois bem, hoje desanimado em comentar (o netinho sofreu um acidente doméstico em JF, mas parece que a coisa está sob controle), dou de cara com esse registro. Mme. Docastelo e Castelinha acabaram de sair para ver uma casa nessa região. Quem sabe no futuro poderemos partilhar dessas mesmas emoções?
Em 27/03/1974, às 18:24:40, Candeias disse:
Era esse mesmo, Walter. A casa de janelas azuis era a dos irmãos Arnaldo e Raul Serpa.
Boa essa da entrevista...
Docastelo, volta e meia estou pela Urca. Vamos acabar nos encontrando por lá.
Em 27/03/1974, às 18:25:05, Docastelo disse:
Candeias, você tem todo o direito de não acreditar mas acabei de falar com Mme. Docastelo e elas aproveitaram para ver um imóvel na Joaquim Caetano. Um prédio antigo de três andares quase no pé da escadaria. Depois vão ver uma casa na Dr. Xavier Sigaud. Pode? Depois não acreditam na magia dos fotologs. Quem conhece bem essa magia é a NALU e também o Lavra.
Em 27/03/1974, às 18:27:30, Luiz D´ disse:

Frequentei muito a casa do "seu" Clemente na Joaquim Caetano. O bairrozinho simpático.

Agora, francamente, que história é essa de rabiscar o nome na pedra???
Em 27/03/1974, às 18:27:44, Candeias disse:
Pela descrição do prédio, fica ao lado da casa do Lothar. Deve ser o Edifício São José, onde morava o Arthur Verocai.
Agora mesmo é que o Menezes não vai mais acreditar sermos duas pessoas diferentes...
Em 27/03/1974, às 18:27:44, Candeias disse:
Pela descrição do prédio, fica ao lado da casa do Lothar. Deve ser o Edifício São José, onde morava o Arthur Verocai.
Agora mesmo é que o Menezes não vai mais acreditar sermos duas pessoas diferentes...
Em 27/03/1974, às 18:36:29, Lyscia disse:
Que história ótima!
Em 27/03/1974, às 18:36:40, Derani disse:

Uma baita coincidência e uma baita sorte!
Em 27/03/1974, às 18:42:24, Augusto disse:
O mundo é uma ervilha...
Em 27/03/1974, às 18:42:47, Belletti disse:
A Urca é meu sonho de consumo,sem a Alcyone,é claro.
O Candeias estava nas telas e não sabia....
Em 27/03/1974, às 18:49:20, Luiz Marcos disse:
Nesse canto de rua , além do futebol, jogava-se volei e havia também uma boa festa junina no dia de São Pedro. Essa data - 29/06 - era adotada em razão do início das férias escolares.
Se a Urca ainda é um lugar muito agradável, há décadas era inigualável.
Em 27/03/1974, às 18:50:22, Alcyone disse:
Quer dizer que começou a vida pichando escadarias?
Adorei as histórias e você deve ter ficado muito emocionado quando viu o seu nome. Pronto! Já é um imortal!
Bonita postagem, meu amigo.
Belletti, eu fico na Urca e você no Pão de Açucar. Quando quisermos conversar, mando sinais de fumaça. Já havíamos combinado isto antes e não sei porque voltar ao assunto.
Em 27/03/1974, às 18:54:01, Belletti disse:
Alcyone,
A Urca é sempre um bom assunto.E seus comentários são "imperdíveis".
Em 27/03/1974, às 19:00:10, Lino Coelho disse:
Realmente é de matar de saudades, e haja coração, grandes recordações.
Em 27/03/1974, às 19:08:47, JBAN disse:

Esse Lothar era o amigo do Mandrake?

Excelente história! Antológica!
Espero que a caligrafia tenha melhorado.
Em 27/03/1974, às 19:13:52, Candeias disse:
JBAN, a caligrafia só fez piorar, só uso teclado de computador. Nem assinar cheque eu faço mais, agora é tudo no cartão de débito automático.
Em 27/03/1974, às 19:31:10, PGomes disse:


Passei o dia sem computador, já passou da meia noite e só agora estou vendo as postagens de hoje. estou escrevendo sem ler os outros comentários. Sei que devem ser ótimos, proporcional a sua excelente postagem. Sem desmerecer ninguém, hoje você foi campeão.
Em 27/03/1974, às 20:20:54, PauloZ disse:

Belo relato!
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